COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O SOBREVIVENTE

Atlético Mineiro e Corinthians jogaram na noite de quarta-feira, por  um torneio de futebol de praia. Era o que fazia supor o estado do  gramado do estádio Ipatingão, superfície de areia pintada que não  poderia receber um jogo de futebol profissional.

Claro que o estádio mineiro não está sozinho. Pesquisa despretensiosa  pelas últimas rodadas da principal competição de futebol do país produz  outros resultados: Engenhão, Arena da Baixada, Canindé, Serra  Dourada… em níveis diferentes de penúria, estão todos abaixo do que  deveríamos esperar. Abaixo do que deveria ser uma condição. Culpa do  excesso de jogos, da chuva, do frio, dos shows, do eclipse lunar ou da Tia Neném. Pode escolher.

Nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, o Santos jogou com  escalações genéricas por causa da Copa Libertadores. Quanto mais próximo  do título continental, mais distante do campeonato nacional. E quando a  taça chegou às prateleiras do Memorial, a Copa América levou Neymar,  Ganso e Elano.

Mas o Santos é amigo do rei e teve seus jogos adiados. Um mês atrás,  havia times com 10, 9, 8 e 7 partidas realizadas pelo BR-11. Hoje, os  números variam de 15 a 17. O campeão da América está na zona do  rebaixamento, mas pode não estar. E como tem um Mundial da Fifa para  disputar em dezembro, no Japão, trata o Brasileirão como realidade  virtual.

Enquanto a Seleção Brasileira jogava em cidades argentinas, houve  domingos sem jogos por aqui. Também houve rodadas cujos horários – ou  até sua realização – dependeram do resultado do time nacional. Sem  falar, lógico, nos clubes desfalcados por um mês de seus melhores  jogadores. Conflito de sentimentos e de atenção imposto a quem preenche  parte da vida com futebol. Como se uma mesma empresa promovesse um  produto para tirar mercado do outro.

Não podemos esquecer dos embalos de sábado à noite, aventura abortada  na semana passada. A ideia das partidas às 21h já tinha sido criticada  por jogadores, mesmo antes de estrear. Na prática, foi tratada pelo  público com o abandono que caracteriza o que não tem importância. No  choque com outras opções de lazer para o dia e o horário, o futebol  perdeu.

Os amistosos da Seleção se transformaram em tramas de suspense. A  cada convocação, o torcedor quer é que o jogador do seu time não apareça  na lista. Se aparece, o cara olha a tabela e calcula o prejuízo da  ausência. O clube pode fazer um pouco mais. Se for amigo, será  contemplado com um adiamento providencial. Se não for, se sentirá  perseguido. E por falar em perseguição, agora o técnico da Seleção faz  parte de um esquema para prejudicar determinadas equipes.  Maquiavelicamente, ele se utiliza de um amistoso para enfraquecer o  adversário do time no qual trabalhou. Mundo cão.

O mais incrível é que você continuará acompanhando. No estádio, na  TV, no rádio, no computador, no celular… você vai continuar torcendo.  Pode dizer que não, mais vai. O Campeonato Brasileiro, ainda um  quarentão, já é um sobrevivente.

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Como sugestão de leitura, eis o que um dos jornalistas de maior prestígio na Espanha escreveu sobre o Real Madrid de José Mourinho.



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