COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MAIS GOLS, ROMÁRIO

A vaga na Copa do Mundo estava a perigo. Uma derrota para o Uruguai no Maracanã, inacreditável repetição da tragédia de 1950, deixaria a Seleção Brasileira de férias forçadas durante o Mundial dos Estados Unidos. A proximidade do armagedon justificou o chamado a um salvador, literalmente.

O povo já o tinha identificado. Levava a 11 nas costas e se chamava Romário. Jogava muito, mas não jogava na Seleção. Até as convicções da comissão técnica empalidecerem diante do risco e do clamor. Nunca o “vai lá e resolve” foi tão claro, tão pesado, tão esperado. Os normais pareceriam nus, pele da mesma cor da camisa. Os comuns já chegariam com a explicação preparada para o fracasso. Romário não era nem uma coisa, nem outra.

O jogo mal começou e ele já levantou o braço, pedindo a bola. Apareceu no campo de defesa, fora de sua jurisdição, apenas para dizer “estou aqui”. Sua segunda participação avisou o time uruguaio que a tarde teria seu nome. Matou no peito, deu um chapéu no marcador e ouviu a risada do Maracanã. Ainda no primeiro tempo, iniciou uma tabela que terminou com um toque por cobertura, estragado pelo travessão. E sofreu um pênalti que o árbitro não marcou porque não estava a fim, pois viu sua camisa ser puxada dentro da área.

O que aconteceu no segundo tempo, quando já era noite no Rio de Janeiro, todo mundo sabe. O primeiro gol foi de cabeça, a bola passou no meio das pernas do goleiro. No segundo, quem passou pelo goleiro foi ele, antes de rolar para a rede. 2 x 0, Brasil na Copa. Quem nasceu no início dos anos 70 poder ter visto atuação individual tão boa quanto aquela. Melhor, ainda não há notícia.

Mas Romário dá sinais de que pretende ser ainda melhor. Como deputado federal Romário de Souza Faria (PSB-RJ), joga em outra grande área. Uma área em que nem todas as faltas viram pênaltis. Se for competente como na época em que atormentava os zagueiros, seus gols terão maior importância. Sua atuação em relação à Copa do Mundo de 2014 pode ser mais valiosa do que aquela tarde no Maracanã. Ou mesmo as tardes do ano seguinte, em gramados americanos, quando sua presença provou-se crucial para o Tetra.

Enquanto quase a totalidade dos políticos brasileiros bate palmas e/ou esfrega as mãos quando se fala em 2014, o deputado Romário tem feito perguntas e tomado providências. Pretende ser um fiscal de obras e gastos, quer esclarecer a população. E promete não se lambuzar. “Vou continuar tendo a minha postura na política. Não vou me corromper na política, não vou deixar de ser o Romário”, disse em entrevista à rádio Estadão/ESPN, na quinta-feira passada.

É difícil acreditar em políticos no Brasil. Culpa deles e nossa. Pode ser ainda mais difícil acreditar em esportistas que viraram políticos. A enorme maioria parece mais interessada em simular eficiência, como se o mandato fosse uma licença (muito bem) remunerada. De novo, culpa deles e nossa. Que o deputado seja autêntico como Romário sempre foi. Diferente como o artilheiro Romário sempre foi.

Já sabemos que ele lida muito bem com o “vai lá e resolve”.



  • Anna

    Muito boa a coluna. Feliz dia dos pais a você, André, ao queridíssimo Juca Kfouri, ao Alejjandro Furlan e a todos os que frequentam esse espaço pra lá de democrático: seu blog. Grande abraço, Anna

  • Juliano

    Ótimo André!

    Que nostalgia ao relembrar no seu texto aquele jogo. Foi ali, com 10 anos de idade, que escolhi (ou fui escolhido) meu ídolo no futebol. Dentro de campo, com a bola nos pés, na minha geração, nao teve pra ninguém. Pra mim, nem pra Zidane!

    Ele tem provado que continua com peito! Quando jogador era conhecido também por suas declarações, e hoje continua contundente fora dos gramados. Até entrevista com o Jennings ele fez. Fica o exemplo para os demais. Que ele nao nos decepcione.

    Um abraço!

  • Marcos Vinícius

    Lembro muito bem desse jogo,vi na TV.Romário acabou com esse jogo e com outros tantos que eu,como vascaino,tive o prazer de estar presente no estádio quando isso aconteceu.Vasco 3×1 M.United,Mundial de Clubes de 2000.Vasco 2×1 Peñarol,Libertadores de 2001.

    Não votei no Romário,e mesmo que ele concorra a outro cargo não voto nele.Acho que as pessoas votaram no cara que arrasava com as defesas,não em alguém preparado para assumir um cargo público.Mas nem por isso não posso deixar de bater palmas para a iniciativa do deputado Romário em cobrar transparência na obras e nos gastos visando a Copa.

    Mas acho que,infelizmente,acontecerá com ele o que acontece com os políticos sérios que fazem trabalho honesto e em prol da população.Acho que Romário ficara ilhado,o que ele disser não será muito divulgado.Mas tomara que eu esteja enganado.

    Certa vez,perguntaram ao saudoso Francisco Milani,comediante que tinha sido eleito vereador pela cidade do Rio,quando próximo do fim de seu mandato,se ele iria concorrer a reeleição.

    Chico Milani mandou na bucha:”Nem pensar.Aquilo lá não é lugar para um homem sério como eu”.

    Tomara que Romário,que sempre foi sincero e transparente,consiga se manter assim.

  • Marcos Vinícius

    Gostaria de parabenizar a todos os pais (e filhos) que fazem parte do blog.Em um dia tão especial como o de hoje a homenagem não podia passar em branco.

    Não é mesmo,André?

  • Hey André! Me lembro daquele fim de tarde como se fosse hoje… realmente foi uma das mais belas atuações individuais que já vi. Fantástico!

    E obrigado, Ana!

    Abraços!

  • Rafael

    ótimo texto André. Ainda que seja mera demagogia, ainda é alguma – muito mais do que quase a totalidade de nossos políticos tem tratado o tema a respeito.

  • Marcel Souza

    Surpreendente até aqui as atitudes do Deputado Romário. Que continue assim!

  • Gilson

    O Romário gosta mesmo de surpreender! Achei que seria mais um esportista que tira proveito de sua fama para passar uma temporada em Brasilia. Mas pelo que vejo até agora, seu trabalho está quase igual ao que ele fazia em campo. Preciso e certeiro! Parabéns ao ser humano Romário!

  • Kappen

    Tiririca e ele foram dos deputados mais assíduos da Câmara. Isso é um bom começo.

  • Nelson Luis Bertoni

    Tenho lembranças otimas de lances de jogos, e este é um dos maiores. Aquele clima de que já estávmos fora da copa, e tudo o mais, o segundo gol, com o arranque, o drible e o golllllll, que como parlamentar o Baixinho seja ótimo também. Abraços.

  • Carlos Renato

    Olá André!

    Acompanho vc e seu pai! Muito bons!

    Gostaria de ressaltar a atuação de Aurélio Miguel na Câmara Municipal em São Paulo! Sempre o respeitei como atleta e agora está me surpreendendo positivamente como vereador! Grande abraço!

  • Andre Teixeira

    Bom dia Andre!

    Ao me recordar daquele e de tantos outros jogos protagonizados pelo Baixinho, tento analisar o adjetivo “craque”, tantas vezes usado nos dias de hoje. Este adjetivo que no passado era utilizado para definir o verdadeiro cobra no futebol passou a ser empregado atualmente para destacar jogadores que em alguns momentos apresentam lapsos com a “gorduchinha”. Lapsos esses que lembram outros jogadores de outras épocas, mas que ao passarem, devolvem os atuais “craques” à sua condição de jogadores normais. Ao ser empregado o termo craque em qualquer jogador mediano de hoje em dia, cometemos a audácia de elevar tais jogadores normais à categoria que deveria ser inalcancável para a maioria e de onde podemos contemplar os grandes do passado. E ao discutirmos o Baixinho, sinto uma leve tristeza ao lembrar o que ele nos proporcionou e não esta mais ao nosso alcançe e me angustia saber que a falta que ele faz nos campos não é em nenhuma medida amenizada pelos “craques” atuais.

    Abraços!!!!!!!!!!!!!!

  • Raposo

    Sou de 74,estava la no Maracana e posso dizer que foi a maior atuacao individual que vi na minha vida ao vivo. A do Maradona contra a Inglaterra em 86 seria a outra mas vi pela televisao. Grande texto Andre, temos opinioes muito parecidas a respeito de Futebol.

    AK: Acrescentando algo que não tive espaço para fazer no texto: Zidane contra o Brasil em Frankfurt, 2006. Um absurdo. Um abraço.

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