COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

REGRESSÃO

Falcão tinha acabado de marcar o gol da classificação. O gol que levaria a Seleção Brasileira à semifinal da Copa do Mundo. Quem não viu ao vivo, viu depois. Não há quem goste de futebol e não tenha visto. Ou tenha esquecido.

Júnior carregou a bola da esquerda para o meio e percebeu Falcão na entrada da área, à direita da meia-lua. O ídolo de todos os volantes recebeu e analisou suas opções. Toninho Cerezo, que acompanhava o lance, criou o problema para a defesa da Itália ao passar por trás de Falcão e entrar na área. Prevendo uma jogada em direção à linha de fundo, dois marcadores moveram-se na direção de Cerezo. O fato de Falcão ter armado o passe de pé direito certamente lhes confundiu. Espaço oferecido, ele investiu pelo meio, deu dois toques na bola e, quase em cima da linha da grande área, bateu forte de esquerda: 2 x 2.

“Quando eu falo daquele jogo, eu não apenas me lembro das jogadas”, contou Falcão ao programa Bola da Vez (hoje na ESPN Brasil, às 19h), “eu vejo a bola chegando, o Cerezo passando, a defesa se abrindo. É como se eu ainda estivesse dentro do campo”, disse ele, sobre o jogo que eliminou o Brasil da Copa de 1982. O jogo que será lembrado e comentado enquanto o futebol existir.

O gol foi comemorado como se deve. Braços estendidos, punhos cerrados, rosto transformado pela emoção impossível de ser traduzida. Da boca aberta, saíram gritos sem sentido, produtos desses momentos em que humanos são apenas seres. Falcão não se recorda do que passou por sua mente enquanto corria como um louco na direção do banco da Seleção. Só do que pensou (“estamos classificados”) e do que aconteceu (“engoli o chiclete”) antes do reinício do jogo.

Detalhe sobre o chiclete: a goma de mascar não era usada para aliviar a ansiedade ou por outro motivo ligado à psique. Era para manter a boca salivando, enganar a sede. Quando esquecia o chiclete, Falcão costumava arrancar grama do campo e mastigá-la. Sim, um dos mais elegantes jogadores da História também comia a grama.

Nem os italianos estavam confiantes numa vitória sobre o Brasil. Falcão contou que, uma semana antes, os jogadores da Seleção foram ao Sarriá ver Itália x Argentina. Ao voltar para o hotel, ele telefonou para Bruno Conti, seu companheiro na Roma. Falcão lhe deu os parabéns pela vitória e eles passaram a conversar sobre o retorno ao trabalho no clube italiano, depois da Copa. “Vou voltar antes de você”, disse Conti.

Aquela tarde de sol em Barcelona exibiu a faceta mais cruel do futebol. A que rejeita o próprio benefício para eternizar a dúvida. Não podemos sentir falta do que não conhecemos, mas podemos imaginar. E sofrer. “O futebol perdeu naquele dia, não só o Brasil”, relembra Falcão, “Depois daquela Copa, o futebol regrediu”, conclui.

Grandes triunfos, por mais importantes que sejam, encerram-se no momento em que os deixamos em paz e seguimos em frente. Derrotas dolorosas são infinitas.

Até mesmo para os reis.



  • Caio

    Eu queria muito ter visto esse time jogar.
    Muito mesmo!

  • Fabio

    Se vc olha o lance no minuto 2:34, o leve corte que ele dá com o pé direito tira 3 italianos do lance. Genial.

    http://www.youtube.com/watch?v=zTfPOzUc1JI

  • Fabio

    E aqui, claro, o lance com a comemoração.

    http://www.youtube.com/watch?v=ex87x4VLd2M

  • Anna

    Sinto-me privilegiada de ter visto essa Seleção jogar. Eu tinha dez anos. Muito bom o texto. O Bola da Vez é excelente tb, quem não viu, que procure a reprise. Adoro o Falcão e toda a Seleção Brasileira de 1982.

  • Eu era moleque e não tive como ver. Apenas lembro do dia. Que foi de muita tristeza pra meu pai.

    Ano passado, antes da copa da África do Sul, a ESPN Brasil transmitiu esse jogo – entre vários jogos clássicos de copas do mundo. O lance do gol é mágico mesmo. Cerezo merece metade de mérito por ter puxado a zaga pro pado da grande área e ter liberado uma avenida na frente do Falcão. Foi lindo demais.

  • Thiago Mariz

    O que o futebol regrediu a partir daquele dia pode ser o que o futebol progredirá com o sucesso da Espanha/Barcelona? É possível imaginar a escola catalã ganhando o mundo, André?

  • Juliano

    Sensacional mais uma vez!

    O Bola da vez com Falcão foi muito bom!

    E que bom que hoje digitaliza-se tudo e encontramos aos montes no Youtube. O time de 82 recebe diversos vídeos tributo, dá pra se emocionar. Não pesquisei sobre os outros times do Brasil em copa, mas nao é difícil imaginar que não deva existir nem a metade de vídeos com esta finalidade. Quer prova maior de que o futebol regrediu?

  • Paulo Pinheiro

    Estou com o Falcão. Também estava lá, na frente da TV. Também chorei. Tinha 10 aninhos, mas já um apaixonado.
    Era uma época em que não “torcíamos contra” um jogador X ou Y porque era do nosso time rival. Todos realmente sentiam a Seleção como se fosse de todos (e até onde lembro, a maior parte do time era de jogadores que atuavam aqui no Brasil).
    Ainda lamento aquele pênalti não dado no Zico, quando o Gentile chegou a rasgar-lhe a camisa. Interessante que a Itália foi a pior classificada da primeira fase, mas depois daquele jogo com o Brasil passou a merecer o título a cada partida.

    É verdade que o futebol regrediu. Regrediu porque a força física passou a ocupar o espaço que o talento ocupava. Acho que o talento ainda existe. Mas hoje árbitros, narradores, comentaristas… todos protegem o brucutu. Todo mundo reclama quando o juiz apita a falta e diz que está “prejudicando o jogo”. Todo mundo acha normal a trombada (nem sempre involuntária), e classifica o anti-jogo como “faltas táticas”.

    O perfil do craque hoje é aquele que tem algum talento, mas principalmente tem força e velocidade pra escapar dos pontapés. Ao arrepio do bom futebol…

    Espero que gente como R10 e Neymar nos resgate.

  • Sim, o time de 82 era mágico. Muito, muito melhor mesmo que o de 94. Título não vale nada. Mas como disse o Eduardo Galeano uma vez sobre a seleção uruguaia, o passado deve ser catapulta, não âncora.

    Se nos predemos demais a um fato passado, deixamos de perceber a história sendo contada no presente. Além disso, sempre romantizamos o passado e esquecemos que aquele time também tinha defeitos.

    A seleção italiana tinha um grande time. A argentina tinha Maradona. A derrota em 82, não baniu a chance de um belo futebol em 86 e 90 para os hermanos.

    A seleção de 82 foi mágica, mas outros times mágicos continuaram a surgir. Essa é a beleza do esporte!

    Abraços a todos!

  • PS.:”Grandes triunfos, por mais importantes que sejam, encerram-se no momento em que os deixamos em paz e seguimos em frente. Derrotas dolorosas são infinitas”. Que frase fantástica! Seus textos são memoráveis! Parabéns, André!

  • Rafael

    André, creio que poucos repararam no BDV, nem o próprio Falcão, quando você observou brilhantemente que o futebol da Espanha não é o futebol arte de 82, do Santos/62-63, do Flamengo/80-81, ou mesmo do Santos x Flamengo daquela quarta inesquecível. 

    A posse imensa, o controle do jogo configuraram um futebol menos feio, mas muito pouco bonito de se ver, na minha opinião. É a eficiência a la Parreira, não o futebol-arte de Telê. Para mim, a seleção que mais se aproximou desse futebol na última Copa foi a Alemanha.

    AK: Eu diria que a Espanha de 2010 está acima do que você chamou de “eficiência a la Parreira”, porque controla o jogo de forma mais objetiva. Os times do Parreira às vezes davam a impressão de fazer o tempo passar. Essa questão do futebol-arte surgiu muitas vezes nos últimos tempos, com relação à seleção espanhola e também ao Barcelona. Minha resposta sempre será que, aos meus olhos, arte é o que a Seleção de 82 fez. O grande mérito da Espanha (via Barça) é impor sua superioridade técnica e negar a bola ao adversário. O Barcelona, por óbvias circunstâncias de entrosamento, leva esse estilo a um patamar superior e, sim, joga bonito. Creio que com mais tempo de treino, a Espanha se aproximaria do que o FCB faz. Um abraço.

  • eduardo pieroni

    boa ANDRÉ,

    O dia mais triste que o futebol me proporcionou parece que , o jogo não sai da minha memoria e os fatos pos jogo tambem não, dava pena de ver, foi cruel,doloroso,funebre foi sem duvida a maior injustiça esportiva que ja vi.

  • Paulo Pinheiro

    Pedro, sempre respeitando sua opinião, não acho que a seleção de 86 ou 90 da Argentina jogassem futebol bonito. Tivemos lampejos do Maradona que, como eu disse, teve força e velocidade (além do seu talento) pra escapar da pancadaria adversária. E quem mais você poderia citar? Burruchaga? Caniggia?

    O problema não estava (nem está) na míngua dos jogadores talentosos. Ainda existem. O problema está na proliferação dos jogadores que, por não terem recursos técnicos para parar o adversário, usam as faltas. E principalmente a conivência de árbitros, jornalistas e dos tribunais esportivos.

    Eu gosto de citar sempre o Sávio, do Flamengo, que era um jogador de um grande talento mas foi devidamente “parado” pela pancadaria adversária, que minava seu tornozelo. Árbitros? Comentaristas? Zagueiros? Diziam que ele “cai com qualquer toquinho”.
    Essa “filosofia” de que “futebol é jogo pra homem” e outras burrices semelhantes refletiu-se nos estádios, onde famílias deram lugar às organizadas e seus gritos de guerra (no sentido literal da palavra). Isso foi mais flagrante nos anos 90. Hoje parece que as famílias estão voltando aos poucos (um pouco porque a violência nos estádios tornou-se insustentável, obrigando o poder público a tomar certas medidas).
    Existem muitos “sávios” que não passam das categorias de base hoje. E esse é o verdadeiro motivo da queda de qualidade no futebol moderno.

    AK: Só uma coisa, se me permitem: cada vez que leio um debate desse nível por aqui, renova-se minha satisfação por fazer este blog. Obrigado. Abraços.

  • Gustavo Xavier Almeida

    Futebol bonito como esse eu vejo na Espanha e no Barça, e só!
    o q me chamou a atenção foi que as derrotas são inesqueciveis e dolorosas mesmo depois de 30 anos;

    Lembro de alguns jogos que me fizeram sofrer
    BRASIL 2×3 ITALIA (o melhor de todos)
    SÃO PAULO 1×0 VELEZ (derrota nos penaltis)
    SÃO PAULO 1×2 CRUZEIRO (mineirão, copa do brasil 2001)

    e vc André, quais sao suas derrotas mais marcantes?

    abraço

  • Beto curtiu o comentário do Paulo Pinheiro.

    Ótimo ponto de reflexão.
    Abs,

  • Paulo, concordo que jogadores como Sávio ficam vizados, mas, como pudemos ver na restrospectiva dos jogos das Copas transmitidos pela Espn, o futebol era muito mais violento antigamente. Por exemplo, Van Basten teve que parar por conta do excesso de pancadas que levou, assim como Cruyff.

  • Rodrigo

    As pancadas no passado eram mais fortes, isso é fato. Mas havia mais espaço para jogar bola. Acho que estamos começando a chegar no ponto principal: há muita trombada, muito choque, hoje em dia. O maior exemplo disso acontece nas cobranças de escanteio: um empurra-empurra irritante na área, puxa daqui, puxa de lá, braço no cangote… irrita quem vê, imagina os atacantes na área. No meio, um jogador habilidoso pega a bola e já chega um volante marcador, empurrando por baixo, empurrando por cima. E, como disse nosso amigo ali em cima, os comentaristas de arbitragem soltam pérolas como “futebol é contato, não quer contato, vai jogar tênis”. No ataque, uma trombada de zagueiro no atacante raramente se transforma em pênalti. Já o contrário, o centroavante chegando junto no zagueiro, invariavelmente vira falta de ataque. Como disse o Paulo, as tais “faltas táticas” são as que mais ferram com o espetáculo. Pelo menos até a próxima opinião aqui… (risos).

  • Rodrigo, você tem razão. Há trombadas demais. Porém, eu fico me questionando se é o futebol que está mais violento ou se o fato de hoje os jogadores serem muito mais bem preparados fisicamente é que faz aumentar o número de contatos.

    Uma vez eu vi o Sócrates propor que o futebol fosse disputado por times de dez jogadores. Dessa forma, aumentaria o espaço no campo e diminuiriam as divididas.

  • Ricardo Carvalho

    André parabéns pelo texto.
    Eu tinha 15 anos nesse dia e lembro muito bem desse jogo contra a Itália. Quando o Falcão empatou, todos nós brasileiros tínhamos a sensação que estávamos classificados mas a Itália de Paolo Rossi, Bettega, Gentille e Zoff nos tirou da Copa.
    Não lembro da seleção de 70 era muito pequeno, mas a de 82 foi o melhor time que ví jogar e não termos ganho aquela Copa foi uma das maiores injustiças que o futebol já nos proporcionou.
    Para ver como são as coisas, ganhamos em 94 com um futebol pobre e em 2002 com um time bom, apenas bom, todavia anos luz de diferença do timaço de 82.
    Hoje os tempos são outros. Concordo com o que já foi dito acima, não devemos nos prender demasiadamente ao passado pois o futebol hoje é outro esporte em relação a 20 ou 30 anos atrás.

  • Leonardo atleticano

    André, o legal é que essa jogada fantástica, que engloba individual e coletivo ter início em uma matada errada do Falcão. O futebol é demais. Jogada linda do Junior, deslocamento rápido e inteligente do Cerezo e arremate genial do Falcão. Telê e seus comandados mereceram demais esse título, mas nem por isso dexaram de ser eternos em nossa memória.

  • Rafael Wuthrich

    Acho que não podemso desmerecer certas conquistas. Quando vem suadas, depois de anos de fila, e recuperam a auto-estima, permanecem bem-guardadas tanto quanto escretes espetaculares que não foram campeões (lembram da máquina de 75-76?). Assim é com 94. Para os italianos, 2006. Mas não pode ser o padrão brasileiro – como o São Paulo mostrou em seu tricampeonato brasileiro – eficiência total, arte zero.

  • Rodrigo

    Então, Pedro, nem é questão de estar mais violento ou não. Hoje o conceito do que é ou não “falta” é muito confuso, como dá para perceber pelo número de reclamações após os jogos (na maioria delas justas, pois o árbitro vê falta em um lance e, noutro, idêntico, considera jogada normal). Concordo também que o preparo físico mudou, aumentando o contato, mas a grande maioria dos lances é parada com trombadas, e não punidas com cartão (salvo raras exceções). Lance típico é quando um jogador está próximo à linha lateral, de costas para o campo e vem o tal brucutu, por trás, empurrando com o peito e coxas, e os braços abertos, como quem dizendo “num tô fazendo nada”. Invariavelmente o atleta que está com a bola se desequilibra, perde a bola e o lance segue. Isso, pra mim, não é futebol. Me lembro de lances com Wladimir e Junior dando carrinhos e tirando bolas sem sequer encostar no adversário, assim como Mozer, Oscar, Gamarra e tantos outros cercando atacantes e tomando a bola, sem fazer carga nenhuma. Assim deveria ser o futebol. Jogo limpo, na bola. Mas se lá de cima a coisa já vem suja….

  • Rodrigo, concordo. Mas o caso que você diz é realmente falta de técnica do zagueiro. Acho que os bons zagueiros são desvalorizados. Muitos torcedores preferem o brucutu, porque ele parece mais raçudo que o beque clássico.

    Porém, há esperança. Temos bons zagueiros como Tiago Silva e o David Luiz. São da mesma escola do Juan, do Mozart.

  • Paulo Pinheiro

    Pois é. Há quem diga que se hoje o árbitro apitar as faltas como deve ser o jogo não termina.

    Vejo o sentido disso. Na realidade, se hoje tivéssemos que “limpar” o futebol seria necessário um “pacto” (ainda que tácito) de todas as partes. Não só os árbitros teriam que mudar de atitudes, mas os próprios jogadores, os técnicos (que mandam bater), os dirigentes (que cobram resultados acima da esportividade), os torcedores (que “comemoram” quando seus defensores derrubam os adversários), etc.

    Mas deveria começar das arbitragens e tribunais desportivos.

  • Adriano

    É um daqueles dias em que as pessoas se reúnem e contam onde estavam na hora (como a final da copa de 94, a morte do Senna, torres gêmeas, etc).
    Deixei de ir à casa de amigos da rua (como nos outros 4 jogos), para assistir ao lado do meu pai. Afinal a sua seleção ia jogar também. Sim, ele era italiano…
    Dá pa imaginar o quanto ele me sacaneou, e depois comemorou muito ao ganhar a copa, e o bolão da empresa quando acertou o campeão . Pasou os 5 aos seguintes de sua vida cantando uma música do Júnior: – Voa canarinho, voa.. Zoff!!!!!

  • Joao Vitor

    André, não tenho comentários sobre essa reportagem. SENSAIOCNAL!
    Realmente a seleção de 82 foi a melhor de todos os tempos.(na minha opinião melhor que a de 70).
    Realmente, os deuses do futebol(não creio nisso, mas fica poético) ironizaram o próprio futebol, com a derrota do Brasil. É como quando fazemos piadas com nossa própria desgraça…
    Acho que o futebol, dessa forma, fez com que parreiras, joeis santanas e outros fossem “inventando” o novo futebol!

    Abs

  • jose carlos

    André:já sabia que foi vc o autor da frase da placar(são paulo roberto falcão)seu pai havia escrito no editorial(se não estou enganado) da placar no dia que lançou a revista,era prazeroso ler a placar naquela época,hoje, não mais.
    quanto ao jogo:até hoje,eu ainda xingo o juiz pelo penalti, não dado sobre o zico,me lembro do zico mostrando desesperado o rasgo na camisa para o juiz,só não lemro quanto tava o jogo,naquele momento.
    quanto ao gol do falcão,aquele grito,foi o de todos nós.
    abraços

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