CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

QUE REI SOU EU?

Enquanto isso, no Reino da Espanha…

– Bom dia, Majestade. Como se sente hoje? A manhã está linda. Posso mandar preparar o banho real, ou Vossa Majestade prefere se alimentar antes?

– Vou comer. Estou com fome, mas quero algo diferente. Diga que mandei renovar o banquete matinal.

– Perfeitamente, Majestade. Meu Rei poderia ser mais específico quanto ao que gostaria de comer?

– Alguma coisa diferente. Não sei o quê. Mande o cozinheiro resolver.

– Como queira, senhor. Posso lhe ser útil em algo mais?

– Sim, Ramón. Descubra se a resposta de nossa oferta por aquele menino já chegou. Quero saber quando ele estará ao meu dispor.

– Perdão, Majestade. Meu Rei fala sobre o menino do Brasil?

– Sei lá se é do Brasil, Ramón! Se não é de lá, é daquelas terras. Tudo por lá é uma grande floresta! É aquele que ainda não fez 20 anos e tem um cabelo diferente. Ofereci 100 milhões, preciso saber quando ele chega…

– Sim, senhor. É o brasileiro. Lamento ser portador de más notícias, Majestade. Ele não virá.

– Como assim, “não virá”? Estou falando sério, Ramón. Não desafie minha paciência…

– Quero dizer que o menino não virá agora, senhor. A resposta chegou pela manhã. O rapaz diz que é feliz onde está, não pensa em deixar sua vila neste momento. Talvez no futu…

– Futuro?! Que futuro esse moleque pensa que terá lá onde ele vive? Talvez não esteja vivo na semana que vem! Como pode pensar em negar o que oferecemos? Ele sabe contar?

– Creio que sim, meu Rei. Soube que lá no Brasil ele recebe um salário não muito menor do que o senhor pretende pagar.

– Não posso acreditar. O mundo vai acabar…

– E se me permite acrescentar, Majestade, o jovem do Brasil também possui outros conhecimentos. Chegou a meus ouvidos que ele prefere não se mudar para a Espanha durante o inverno.

– Insolente! Alguém precisa disciplinar o fedelho. Aposto que ele não sabe o que está fazendo. Ninguém mostra as costas para nosso escudo, nossa nobreza, nossa história! Isso é uma humilhação sem tamanho para minha coroa! O povo não pode saber…

– Meu Rei não deve se sentir humilhado. Não foi o único a quem o brasileiro disse não. Há alguns meses, o rapaz também rejeitou muito dinheiro dos ingleses…

– Perdi a fome, Ramón. Vou voltar a dormir. Quero sonhar com o tempo em que tínhamos tudo.

SEM FIO

Na polêmica sobre o gramado do Engenhão (que está tão ruim quanto qualquer outro que fosse igualmente sobrecarregado), reação desproporcional do presidente do Botafogo, Maurício Assunpção. Thiago Neves disse que o campo está horrível, o que é um fato. Foi tratado como se dissesse que a culpa é do Botafogo. O mais engraçado é Assunção bradar que “não responde a jogador”, e, imediatamente, responder. Parece conversa de louco.

MESTRE

É impressionante a maneira (para o mundo exterior, pelo menos) serena com que Luiz Felipe Scolari conduz o Palmeiras, a cada problema interno que surge em seu caminho. Da faixa de capitão para Kléber aos bilhetes em resposta aos que tentam sabotar seu trabalho, Felipão se move estrategicamente, com a inteligência dos que sabem como as coisas funcionam. Foi-se o tempo em que técnicos cuidavam apenas do time. Felipão tem dado aulas.



  • Nelson Luis Bertoni

    Caro André, acho que Felipão após a Seleção 2002 aprendeu a se movimentar, ( imprenssa, politica interna e grupos diversos). Na Sel. de Portugal principalmente na sua segunda fase pós Euro/04, melhorou ainda mais. Na Inglaterra aprendeu a lidar com o personalismo, e na Asia teve que assumir tudo. Ou seja ele tem enorme bagagem nacional e internacional( não esqueçamos Japão e um pais árabe), mas teve que se reciclar, fazer curso de psicologia pratica e de bombeiro. E vc sabe que revisão pessoal, reciclagem profissional e finalmente se reinventar é sensacional num profissional experiente, bem resolvido. Aos 64 anos ele está no ápice novamente. Se não por ele este Palmeiras viveria uma crise por dia, pois Diretoria abaixo de criticas e time apenas mediano ja teria trocado de tecnico “n” vezes.Abraços.

  • Leonardo atleticano

    André, que o fim da história seja tão interessante quanto o início, e que as partes envolvidas sejam felizes. Neymar é muito bom de bola, pode vir a ser um gênio. Mas as coisas mudam, e existem valores que realmente não podem ser desprezados. Se tudo é questão de honra e espaço, Milam, Inter, Barcelona e outros grandes tambem não venderiam jogadores, e não é o caso, todos vendem, desde que o preço seja ótimo.
    Vejo o caso do Ganso, vejo que a cada dia ele murcha mais, e acho que permanecendo assim, ele não vai valer a metade do que já foi ofertado ao Santos. Quanto a pagar salários europeus, não é estranho, tendo a receita muito menor?
    A coisa é complexa, ele vender por cinquenta milhões de euros já é uma mudança radical no cenário de clubes no Brasil. Acho que passar disso já é risco demais e é agradar muita gente que não tem nada a perder.

  • humberto

    muito bom texto

  • Perfeita a crônica André! Eu vou ficar curioso para ver como esse rei vai olhar para o embate do time do(s) menino(s) da vila contra os “rebeldes separatistas” catalães… Quem, em ganhando, vai ferir mais o orgulho de sua majestade?
    Abraços.

  • No começo do ano confesso que estava achando que Felipao estava chegando próximo ao fim da carreira, mas nos últimos meses revi a minha opinião, e agora concordo com você.

  • Bruno

    Jenial. Ou seria Góia? Sei lá. Só sei que pouco se sabe daquilo que supomos saber algo.

  • André, vi este post do Birner e acho que você deve ter se inspirado na mesma fonte para fazer o texto, não?

    http://blogdobirner.virgula.uol.com.br/2011/08/03/colega-jornalista-o-problema-e-a-sua-arrogancia-e-a-do-real-madrid/

    Abs,

  • Ivan Alves

    Olá André, tudo bem? Fantástico o texto, o que já nao é novidade aqui. Só queria ressaltar um aspecto que me ocorreu a respeito do “dia do fico” de Neymar. Antes de mais nada, muito louváveis tanto os esforcos do Santos para mante-lo, quanto sua decisao de ficar. Nao tiro os méritos de ambos. Só que nao consigo afastar de minha mente a nocao de que é “fácil”, com as devidas aspas, recusar a Europa pra ficar jogando no Brasil, COM SALARIO DE EUROPA. Tirando a questao cultural, que sincera e infelizmente nao percebo importar muito pra Neymar, nem pra maioria dos “boleiros” nacionais, o grande atrativo de jogar na Europa é a questao financeira, os contratos que “resolvem” a vida do jogador pra sempre. E isso lhe está sendo oferecido em casa. Nada de frio, solidao, distancia. Salario de Europa, na aprazivel Santos. Nao creio que tenha sido exatamente um sacrificio pra ele recusar. Posso estar vendo de um ponto de vista meio desfocado, pois moro na Inglaterra há anos, e uma das razoes, (nao necessariamente a preponderante) pra eu nao ter retornado ao Brasil ainda, é o fato de minhas condicoes financeiras aqui ainda serem significativamente melhores do que no meu país natal. Trocando em miúdos, se me fosse oferecido no Brasil um padrao salarial equivalente ao europeu, voltaria feliz. Nao vejo grande vantagem no fato dele ter recusado sob essas circunstancias, embora reconheca que é uma saudavel e necessaria balancada nas relacoes entre clubes brasileiros e europeus. Um abraco.

    P.S.: perdoe a falta de acentos e afins.

    AK: Obrigado pelo comentário. É evidente que a questão financeira é preponderante para a permanência do Neymar. E nesse aspecto, creio que a operação que o Santos criou para mantê-lo merece mais elogios até do que a decisão dele. Eu vejo esse caso como uma situação específica, dadas a qualidade e a pouca idade do Neymar. Acredito que haverá um momento em que outros aspectos terão mais importância em sua vida. Aspectos não necessariamente ligados a dinheiro. Fora isso, ele terá vontade, desejo de jogar na Europa, que é o lugar onde estão os principais jogadores do mundo. Em seu “fico”, elogio principalmente a percepção de que o melhor momento para sair ainda não chegou. Mas chegará inevitavelmente. Um abraço.

  • Rodrigo

    Ótimo texto. Não sei porque, talvez pelo começo, mas me lembrou “The Trial”, do Floyd…

  • Emerson L. Fonseca

    Talvez o rei não saiba, mas existem Dom Quixotes como o presidente do santos, que esta conseguindo vencer os moinhos de vento, que por sinal não funcionam com tanta força como antes. Vc acha que ele consegue?

  • Alexandre

    Perfeito, André.
    A engenharia financeira do Santos é elogiável porque prova que, com vontade e esforço, é possível segurarmos os nossos melhores jogadores por mais tempo do que tem sido praxe.
    E a decisão individual do Neymar é tão elogiável quanto, pois demonstra que ele é inteligente o suficiente para admitir que este ainda não é o momento ideal para a mudança.
    Ele e o pai dele passam a impressão de calcular muito bem os passos de uma carreira com rumo certo ao topo. O interessante é que ambos parecem ter muito mais noção (ainda que empírica) do que é gestão de carreira do que o seu agente Wagner Ribeiro, este sim interessado apenas no “fast money”.
    De resto, também concordo que hoje (e durante muito tempo ainda) não há como atingir reconhecimento pleno como jogador de futebol sem atuar por um grande clube europeu.
    Infelizmente, a Copa-2014 poderia ser um agente catalisador da transformação do futebol de clubes brasileiro em um dos mais importantes do mundo, mas pelo jeito este evento só está servindo para negociatas e seu único legado será um conjunto de elefantes brancos e/ou estádios particulares construídos com dinheiro público.

  • Emerson L. Fonseca

    Viva! Don Luiz Alvaro de La Mancha!

  • Juliano

    Sensacional o “texto-diálogo”! Fantástico! Quisera eu um dia escrever assim. Enfim…

    Concordo com o colega Ivan Alves e o respectivo comentário do André. E, hoje, acrescento que, além de tudo isso, Neymar deve ter olhado o histórico de Robinho na Espanha e quem está jogando lá no Real hoje. Teria de se acostumar a ir mais vezes ao banco de reservas. Mourinho é um pé no s… Lá o time é do C. Ronaldo – quando o assunto é “pop star do futebol”, papel do Neymar no Brasil (não só no Santos), dado seu riso fácil, simpatia, “estilo” (que funciona, porque todos um dia já falaram do seu cabelo), coisas que não encontramos em outros como Lucas e Ganso. Ele teria o “pacote completo” fora dos gramados, que hoje infelizmente é levado muito em conta.

    Lá, esse lado não seria tão fácil para ele. Nem mesmo no Barça – que vejo como melhor escolha, pelo todo, e além do todo, deve ser muito melhor conviver com Messi do que com C. Ronaldo no fim das contas. Mas ainda assim não seria o time dele, como é o Santos é cada vez mais seu, dada a preguiça do seu companheiro PHG.

    Enquanto eu ver Neymar correndo da forma que está correndo todo o jogo e em todos os jogos, sem mais agir como criança mimada, e mostrar essa vontade, vou defender sua permanencia. Ele tem evoluído também no aspecto “gente”.

    André, não estamos no dia-a-dia do Santos, mas a distancia, podemos inferir que essa postura atual do PHG seria algum descontentamento com relação ao tratamento padrão Neymar que ele não tem recebido? É uma hipótese, não?

    Mudando um tanto o rumo, inevitavelmente chegará o dia em que Neymar dirá sim, e jogará em terras européias. Pois no futebol mundial não existe um teto salarial (nem um piso). O que é um absurdo! As cifras que estes senhores recebem destoam de qualquer atividade no mundo, e quando bem administradas garantiriam o futuro de n gerações de sua família. E estes valores ainda vão aumentar, quase ao infinito!!

    Mas o que este cara está propondo? Ora… temos o exemplo da NBA, que possui teto salarial, e trás consequências muito benéficas, como por exemplo um possível equilíbrio entre os times – por mais dinheiro que voce possa investir, não poderá exceder o limite. Isso deveria ser implantado via FIFA para o mundo todo (momento utopia). Com organização, profissionalização, honestidade (momento utopia II), a NBA do futebol seria em gramados tupiniquins! Onde os melhores do mundo, se quisessem jogar ao lado dos melhores, viriam até o Brasil (utopia III e fim). Imaginaram a potencia verdadeira seria a nossa seleção?

  • M. Silva

    Prezado André,

    faria grande bem ao clube se a diretoria do Fluminense se matriculasse no curso em que o Scolari dá as suas aulas.

    Abraço,

    M. Silva

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