COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

UMA NOITE EM SANTOS

Por uma noite, a Vila Belmiro se transformou num ponto de encontro. Gerações desafiaram as regras do tempo e do espaço e se reuniram no mesmo gramado, na mesma hora, por pura diversão.

Por uma noite, um jogo que prometia muito entregou ainda mais. Uma misteriosa conspiração a favor do futebol. Uma maravilhosa exceção em nossas quartas nem sempre nobres.

Quem era mesmo aquele jogador vestido de branco? Aquele que aplicou um drible de videogame num espaço de poucos centímetros na lateral do campo? Dois marcadores em cima, e ele simplesmente sumiu. A jogada se desenhou em alta velocidade, com uma tabela precisa. Na entrada da área, outro drible desconcertante, uma finta de futsal que era para ser uma caneta. Virou um drible da vaca por causa da inércia do adversário. Aí veio o toque final, sem chance para o goleiro, assinando a obra que viajou o mundo inteiro.

Deu para ver quem era? Parecia mais magro e mais alto. O cabelo era muito diferente. E o detalhe intrigante é que ele vestia a 11 do Santos, não a 10. Estranho. Talvez os olhos embaçados pela beleza do lance tenham perdido a capacidade de identificá-lo. Mas quem mais poderia fazer aquilo? Tem certeza de que não era Ele? Dizem que até ganhará uma placa…

E quem era o rubro-negro que fez o time acreditar que a desvantagem de 3 x 0 não significava nada? O primeiro gol dele foi comum. Mas o segundo… Você viu a finta no zagueiro? Balançou o corpo, fez uma letra, deixou o cara no chão. Um outro veio e fez a falta, pertinho da área. A barreira pulou, esperando a cobrança por cima. Como numa jogada de sinuca, a bola passou por baixo, rasteirinha. Entrou no canto, morreu na rede. O goleiro só olhou.

Uma coisa deu para perceber. Ele vestia a 10 do Flamengo, tocava na bola com classe, comandava o time com autoridade e ainda fez o gol da vitória, com muita categoria. Mas tinha uma cabeleira comprida demais para ser o Galo. Definitivamente não era ele.

Bom… Se não era, então só pode ser uma pessoa. O sorriso aberto durante a comemoração do gol de falta foi a lembrança. Não o víamos há tanto tempo que, sabe como é, achávamos que não o veríamos mais. Mas o que ele fez na Vila foi um sopro de cinco, seis anos atrás. Tempo em que algo diferente, interessante, acontecia sempre que ele tocava na bola. Tempo em que marcá-lo era inútil. A esperança era, apenas, contê-lo. Um artista. Jogava de azul-grená e fazia todo mundo sorrir, lembra? Até a torcida adversária aplaudia.

Por uma noite, um time abriu 3 x 0 porque jogava muito, não porque o outro jogava mal. E o time que perdia tratou de reagir e vencer, em vez de se fechar para não perder de mais.

Por uma noite, o jogo acabou e começou de novo. E quando acabou, até quem ganhou queria que continuasse.

Por uma noite, tudo o que o futebol brasileiro tem de ruim estava de folga. E tudo o que tem de bom apareceu na Vila. Um encontro que durará enquanto conseguirmos lembrar dele.



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