EXPULSAR É FÁCIL, TRATAR É DIFÍCIL



Se você ainda não viu a agressão inacreditável do ex-goleiro Gustavo, do Sport, contra o vascaíno Elivélton, aqui está.

Aconteceu ontem, em jogo válido pela Taça BH de futebol júnior.

Elivélton foi para o hospital, teve lesão na coluna, mas se movimenta  normalmente. Passará por exames mais detalhados.

Cerca de 20 minutos depois da cena assustadora, a diretoria do Sport mandou Gustavo embora.

O que o jovem goleiro fez é gravíssimo e inexplicável. Deve ser punido severamente no âmbito esportivo e até fora dele.

Mas abandoná-lo é a atitude mais fácil e errada. É como passar o problema para frente, dizer “aqui ele não arrumará mais confusão”.

É cuidar da repercussão do fato, e não de suas causas.

No final da manhã de hoje, o Sport informou que dará assistência psicológica a Gustavo, mesmo após dispensá-lo.

Como nada a respeito dessa assistência foi divulgado ontem – apenas a demissão –  parece que se trata de algo discutido e decidido com calma, distante do problema, como se espera de dirigentes.

E que seja algo feito com seriedade, não apenas para tratar da imagem do clube.

Jogadores em formação precisam de orientação.



  • Anna

    Assino embaixo. Acho fundamental em todos os clubes psicólogo, e especialista em esportes. Excelente post.

  • Poderia ser a convocação da Seleção, a tentativa do Santos de adiar o clássico contra o Corinthians ou o bate-rebate entre o Flu e Felipão.
    Como não seria absurdo fosse o megatweettaço contra Ricardo Teixeira, o reencontro entre Inter e Barcelona ou a demissão de Sérgio Batista do comando da Argentina.
    Mas esse é o problema. A gente sempre arruma assunto para falar e deixa de lado o maior problema do futebol brasileiro atual: a deficiente formação moral e cívica dos nossos meninos boleiros.
    E não estou aqui para defender, muito menos crucificar Gustavo, goleiro do Sport, protagonista do absurdo aí de cima. Embora, confesso, a primeira reação foi de sugerir uma bela de uma cadeia ao rapaz.
    A ideia é apenas abrir o devido espaço e ampliar a discussão a respeito das causas de uma tragédia, afirmo com todas as letras, ANUNCIADA. Porque não é de hoje que nossos moleques – modo pejorativo ligado – vêm aprontando.
    Sem precisar citar nomes, é gente andando nua na concentração.
    Cidadão flagrado em doping por uso de drogas.
    Indivíduo que se recusa a entrar em instituição religiosa.
    Camarada que chama colega de profissão para a briga, via Twitter.
    Profissional que vai ao treino com cara de ressaca.
    Que bate com o carro na “night”.
    Que é suspeito de matar a namorada.
    Pois até quando o mundo do futebol encarará tais peripécias como meras brincadeiras de menino mimado ou somente atos isolados?
    E não caiamos na confortável ideia de empurrar toda a responsabilidade para cima dos empresários. Ela é também dos clubes, das federações e nossa. No cumprimento do  papel de pai, irmão, professor ou, simplesmente, agente formador da sociedade. Pois, sejamos justos, uma pequena volta nas ruas de qualquer cidade, nas baladas da vida, nos mostra que a triste realidade não se restringe a uma única classe profissional ou social.
    “Menos de um por cento chega a ser profissional. Seria muito irresponsável estimular que o futebol é a salvação, quando a estatística marca que 99% não irão se salvar. Falar com os pais é fundamental, mas creio que as instituições esportivas tem que divulgar essas cifras, que são duras, e estabelecer políticas, nas quais, quem está participando do processo esportivo não abandone os estudos, que consolidem sua personalidade. É tarefa dos adultos porque em algum momento os prejudicados serão esses 99%, que em algum momento vão reclamar. Um dia eles se perguntam: ‘Por que não me disseram que esse caminho não era seguro, me disseram tantas vezes que ia chegar’. O menino tem 12, 14, 15 anos, e há adultos, que, com pouca responsabilidade, estimulam, estimulam e depois quando esse menino, ou adulto está só, não vê ninguém ao redor, para dizer que agora tem 20, 25, 30 anos, e futebol te disse que não, e está só na vida”.
    Onde estará nosso Gabriel Gutierrez?*
    Que ele apareça, antes que nosso futebol acabe.
    Boa terça!

    *Gabriel Gutierrez, psicólogo, autor da frase acima, é braço direito e peça fundamental no trabalho do técnico Oscar Tabarez junto às divisões de base do Uruguai.

    AK: É exatamente isso. Um abraço.

  • Carlos Futino

    Roberto, no que diz respeito a citação do Gutierrez, o problema é que muitas vezes os adultos na vida desse garotos não são própriamente irresponsáveis. Na verdade eles estão igualmente iludidos. Diante da pobreza e da falta de perspectivas muitas vezes uma tábua de salvação irreal parece não só acessível como a única opção.

  • Carlos, observação pra lá de pertinente. Um abraço a todos!

  • GOMES

    Prezado André,

    Penso que o Sport, ao tentar se desvincular do ato do “goalkeeper-boxer”, estava procurando se proteger de possíveis demandas de reparação civil, decorrentes de eventuais danos físicos ou profissionais do atleta vascaíno, desconhecidos no momento da declaração. Como aparentemente as sequelas serão pequenas, já há manifestação de apoio do clube e não me surpreenderei se, em nome da bondade e dependendo da capacidade técnica do agressor, ele for readmitido mais adiante.

    Com relação ao que foi feito, não tenho dúvidas de que a punição tem que ser severa, no plano esportivo, cível e criminal – não estou falando de cadeia: estou falando de ter que passar por um processo criminal desgastante, que redunde em condenanção com suspensão condicional da pena, apresentação periódica ao juiz, etc.. O rapaz joga nos juniores, tem pelo menos 18 anos, já deveria saber das consequências dos seus atos. Se não sabia, aprenderá, infelizmente, de uma forma dura.

    Concordo com relação ao acompanhamento de jovens por parte dos clubes. Contudo, vale lembrar que clubes de futebol têm natureza privada, não são órgãos públicos. Hoje, com este modelo definido pela Lei Pelé, não faz sentido cobrar ainda mais de clubes formadores, para benefícios desses parasitas que são chamados de empresários de jogadores. Acho que novas exigências têm de ser acompanhadas de revisões da Lei Pelé, de modo a reequilibrar a relação de direitos e de deveres de ambas as partes – sobretudo destes supostos “responsáveis” pelas carreiras desses jovens.

    Por fim, os jogadores das categorias de base têm idade para serem tratados como meninos. Mas tenho receio de que cuidados cabíveis possam ser confundidos com paternalismos, que conduzem a atitudes estranhas de jovens que, por se acharem talentosos, entendem que têm direito a todo bônus, sem qualquer ônus.

  • Jefferson Fernando

    André é incrível como a imprensa age. Se a diretoria Sport não tivesse nenhuma atitude seria condenada, como tomou uma atitude, também esta sendo condenada. Alguns estudos relatam que medidas duras tem que ser tomadas sim, durante o calor dos fatos, e não deixar as coisas esfriarem para se tomar algumas medidas. Dessa forma o Sport agiu corretamente, tomou uma medida apropriada para o momento. E não venha com essa história que é só um menino e não sabia o que estava fazendo. O caso dele é patológico, e a explosão de violência dele iria aparecer mais cedo ou mais tarde, sorte nossa que conseguimos identificar enquanto ele é jovem e pode ser ainda tratado, se não veríamos mais tarde em outras explosões de violência e talvez com resultados mais graves.

    AK: Não deveria ser incrível. Se aqui entre esses comentários, uma amostra mínima, as opiniões são diferentes, por que as visões de jornalistas seriam iguais? Não, a diretoria do Sport não agiu corretamente logo depois do que aconteceu. E talvez tenha decidido oferecer assistência psicológica ao rapaz apenas depois que percebeu o erro. Para terminar, você não acha precipitado dizer, de tão longe, que o caso é “patológico”? Um abraço.

  • Paulo Pinheiro

    Sim, é papel do clube formar o atleta também psicologicamente para sua carreira, numa seara tão cheia de provações ao ego já numa idade ainda tenra.

    Mas há um limite tolerável no comportamento dos atletas e o autor do sinistro extrapolou o bom senso. Passou daquela linha que limita entre a responsabilidade do clube e a sua própria.

    O clube apoiá-lo nesse momento é louvável e pode representar uma mudança em sua vida, tornando-o até um atleta exemplo da esportividade no futuro. Ressalve-se que esse apoio tem que ser como o Sport Club Recife o fez: manifestando publicamente seu repúdio a qualquer ato de violência e oferecendo suporte psicológico ao atleta (ou seja, jamais defendendo a má atitude).

    Contudo, relembrando que existe a responsabilidade individual dele, que seja julgado conforme as leis brasileiras, pois o delito não pode ficar impune (sob risco de criar um precedente).

  • Leonardo atleticano

    André, o erro desse rapaz foi gravíssimo. Você tem quase vinte anos de estrada. Nesses vinte anos de carreira já deve ter tido alguns colegas que foram mandados embora por erros talvez menos graves, ok? Não entendo é como o futebol é cobrado a ter uma postura que o País inteiro não tem. Dentro do campo só pode haver santos, mas nas empresas é estimulada a competição feroz.
     Se um office boy aí da ESPN for pego agredindo um colega de trabalho, ele não vai ser mandado embora?  Será que vão dar a ele carinho, atenção e tratamento?
    Sei não. Acho que passou da hora de todos nós agirmos de verdade, no futebol, na política , na imprensa, na sociedade em geral. Fácil é sentar no rabo e falar do rabo dos outros.

    AK: A comparação não vale. Empresas não ganham fortunas quando negociam seus melhores office boys. Um abraço.

  • Leandro Azevedo

    “A comparação não vale. Empresas não ganham fortunas quando negociam seus melhores office boys”

    Mas ai estamos condicionando o tratamento a importancia que uma pessoa tem numa insituicao, que eh justamente um dos problemas graves que temos hoje no futebol e na sociedade, em que as pessoas se acham acima do bem e do mal e fazem o que querem.

    Jogadores que nao cumprem contratos, nao querem treinar, precisam de tratamento especial etc… e ate chegam a quebrar hierarquias importantes para o funcionamento de uma instituicao pois sabem que serao tratados de uma maneira diferente pq o investimento e retorno do clube eh prioritario.

    O que disse acima nada tem a ver com o goleiro do Sport… ele agiu errado, merece uma punicao desportiva e ate criminal se o jogador atacado achar que cabe tal punicao – tb acho que o Sport deveria sim punir o atleta, mas assumindo SIM parte da culpa pela ma formacao do cidadao/atleta que deveria ser um dos deveres dos clubes formadores de atleta.

    Abraco

  • Thiago Aranha

    Parabéns André. Concordo com o que disse no texto.

    E ainda acrescento: Quantas vezes ocorrem brigas como essa e até piores e ninguém é punido. Infelizmente as pessoas gostam de aparecer a partir da desgraça alheia.

    Como o assunto tomou grandes proporções, todos mostram-se extremamente indignados. Mas a grande maioria dessas pessoas já arrumou uma briga no transito, gostou de ter visto alguma briga em algum outro jogo de futebol, fica feliz quando o jogador do time faz uma falta forte em um jogador adversário que não gosta etc.

    Ou seja: Quando já está todo mundo contra, seguem a maré. Mas no dia a dia não são tão puritanos assim.

    Abraço

  • Fred Ferreira

    André,

    Discordo de você. Não acho que o goleiro deva ser banido do esporte e/ou processado criminalmente, mas acho a demissão mais do que justa.

    Imagina que, um colega seu da ESPN ou do Lance!, cometa uma agressão dessas durante uma pelada de fim de semana no churrsaco da empresa? O jornalista não seria demitido?

    O goleiro mostrou que não tem capacidade psicológica de ser jogador. Se ele não é habilitado para a profissão, tem que ser demitido. Os clubes já precisam alimentar, treinar e formar esportivamente centenas de jovens. O apoio psicológico faz parte, mas, se o cara é doente, precisa se tratar com psquiatra. O clube não é obrigado a garantir emprego e salário indefinidamente pra pessoas “incapazes” mentalmente.

    AK: É um equívoco comparar jogadores de futebol com funcionários de empresas. Empresas não ganham fortunas quando negociam seus melhores profissionais. É um equívoco maior ainda dizer, de longe, que se trata de um “doente”, ou de alguém que não tem “capacidade psicológica para ser jogador”. Jogadores estabelecidos, e até famosos, já cometeram atos semelhantes e estão aí, seguindo suas carreiras. Um abraço.

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