ESPORTE E CIDADANIA



Nova contribuição ao debate sobre a agressão durante Sport x Vasco, na Taça BH de futebol júnior.

Eis que o vascaíno, aquele vascaíno que tantas vezes já colaborou com o blog, nos enviou o texto abaixo.

______

André,
 
Estou indignado.
 
Neste momento, muito se fala da atitude do goleiro do Sport, que agrediu de forma despropositada um atleta adversário no jogo de ontem entre seu time e o Vasco, pela Taça BH de Juniores.

“é um animal”
“é um monstro”
“é um covarde”
 
E, na boca do povo, o rapaz também já foi julgado e condenado.  Faltam só os algozes para lhe cumprirem a pena.

“tem que ser banido”
“tem que ser preso”
“tem que tomar muita porrada”
 
Mas, no país do futebol que celebra um atacante chamado de “animal” (Edmundo), outro de “gladiador” (Kléber), um zagueiro de “monstro” (Thiago Silva), e cuja imprensa noticia “duelos” e “batalhas” ao invés de partidas, atiremos pedras e mais pedras na Geni, o pobre do rapaz que cometeu a barbaridade que vira assunto da semana.
 
Quando se olha para a seleção uruguaia, legítima campeã da Copa América e se lhe celebra a entrega, o sentimento de participação, a simbiose entre time e sua torcida, volta a discussão do trabalho do técnico.  Segundo relatos (como o de Lúcio de Castro, já citado por você), há um trabalho intenso, que começa na base, tratando não somente as valências técnicas, táticas e fisiológicas dos atletas, mas também as suas valências humanas – há um forte acompanhamento psico-sócio-educacional para todos os jovens atletas, com a preocupação de formá-los como cidadãos atletas.  E não somente como atletas que, por um mero acaso, também precisam ser cidadãos quando estão fora do campo.
 
País hipócrita este nosso, que crucifica o rapaz.  Vamos, crucifiquemos o garoto, atiremos pedras, façamos justiça ao agredido com lapidação, a terrível morte por apedrejamento, ainda usada em alguns países e tão chocante e cruel para os nossos padrões ocidentais.
 
Nossa indigência intelectual começa, por mais que isto possa parecer pueril, nos apelidos dos jogadores.  Não há hoje, desfilando pelos gramados, uma “Enciclopédia do Futebol”, um “Príncipe Etíope”, “Pequeno Polegar”, “Anjo de pernas tortas”, “Fio de esperança”, “O gerente” disputanto aguerridas contendas.
 
Façamos um exercício prático.  Pegue-se declarações de Wlamir Marques (que tem toda a cara de “Sir Wlamir Marques”), Tostão, Pepe, Djalma Santos, e compare-se estas declarações com atletas mais jovens, de qualquer modalidade.
 
Nossa cultura esportiva recente celebra os guerreiros, gladiadores, matadores, animais, em cruentas batalhas e duelos.
 
Nosso esporte não tem, salvo raríssimas exceções, NENHUMA, absolutamente NENHUMA preocupação com a formação do cidadão.  Forma-se o atleta.  O pé de obra barato que se valoriza e enche os bolsos de meia dúzia de espertos aproveitadores.
 
Somos tão indignos, que preferimos fechar os olhos para as nossas falidas e famintas Forças Armadas, que dispensam recrutas para que não se lhes precise oferecer alimentação adequada no dia-a-dia.  No nojento vale-tudo do esporte, entretanto, contrata-se sargentos de aluguel para disputar jogos militares e colocar o “Brasil-sil-sil” no alto do pódio, com jogos nojentos e desiguais de profissionais contra amadores.
 
Não, nossas Forças Armadas não se preocupam em formar cidadãos. Nossos soldados são, muitas vezes, incapazes de treinar suas obrigações militares por absoluta falência de seus equipamentos.
 
Mas, surpresa, o Brasil-sil-sil é uma potência do esporte. Tudo muito simples: contrate-se meia dúzia de atletas de segundo escalão, que se vendem por quaisquer dez cruzeiros para ganhar uma medalha qualquer, competindo contra “gordinhos” e “baixinhos”, depois mostrando uma vibração fajuta, que é adulada por uma parte igualmente corrompida e descompromissada da mídia.
 
Nossas paupérrimas forças armadas não se preocupam em investir na prática esportiva para os seus quadros. A prática esportiva que cultiva valores de comprometimento, treino, disciplina, respeito, reconhecimento de limites e fraquezas, de trabalho para superar fraquezas e limites. O Esporte, com E maiúsculo, é evento gerador e catalisador de cidadania. Nossas forças armadas não querem cidadania. Querem continuar encasteladas em seus mundinhos encantados em que nada acontece. Aliás, em que se ganha meia dúzia de medalhas fajutas, mas não se ganha respeito.
 
Elas são um reflexo exato de nossa comunidade esportiva (pelo menos da sua grande maioria), que quer resultados a qualquer custo.
 
Nossa mídia, que (em sua grande maioria) adula as “batalhas” e os “duelos” e que saúda os “guerreiros” e “matadores”, aplaude e abana seus nojentos rabinhos caninos para os nossos atletas fardados.
 
Nossos torcedores, que querem “raça”, “garra” e “disposição” aplaudem.
 
Nossos atletas, que querem mais louras, morenas, mulatas, carros e aviões, nesta vidinha de celebridades instantâneas. Nossos atletas que perdem vergonhosamente uma competição e aparecem na mídia com suas belas namoradas, jogando seus belos videogames, pilotanto seus belos carrões. Nossos atletas que não sabem (e pior, não querem saber) sequer o significado do hino que cantam.
 
E, eventualmente, acabam pegos em deslizes. Uma cadeia por falta de pensão alimentícia… uma outra cadeinha por um acidente de carro.  Até uma cadeiona por suspeita de assassinato. Muitos envolvidos com traficantes, amigos dos envolvidos com casas de prostituição, parceiros dos banqueiros de jogo do bicho e contraventores em geral. Ou um dopingzinho, que dependendo das conexões inconfessáveis do autor, também não tem nenhuma influência.
 
Mas o goleiro do Sport… ah o goleiro do Sport. Esse aí tem mais é que se ferrar mesmo.
 
PS: Sou Vasco. O goleiro do Sport agrediu um atleta do Vasco. Mas nem por isso, desejo mal ao pobre Gustavo.  Que, por azar somado à sua enorme inconsequência, virou epítome da nossa nojenta hipocrisia.
 
Abraços.



  • Vinicuis lemos

    Excepcional o texto, excepcional voce André, por postar isso no seu blog. Parabens.

  • Andre Araujo

    Antes de concordar ou discordar, te felicito pela coragem de postar este texto.
    Ouvi muita gente falar em tentativa de homicídio nesse caso, que o Sport fez mal em prestar ajuda psicológica ao jogador. É o moralismo barato que de vez em quando aflora na gente, e a última vez foi no caso do “fair play”. E não se iludam, vem mais por aí, podem deixar…

  • Anna

    O texto é fantástico, André. Que bom que você compartilhou com a gente, como sempre!

  • Ednaldo

    Brilhante. Bem relacionado como você é, talvez devesse tentar repercutir em outros blogs.

  • Paulo Pinheiro

    Vamos por partes.

    Que devemos formar atletas cidadãos, não resta a menor dúvida.
    Que foi uma vergonha o que aconteceu nos jogos militares concordo em gênero, número e grau.
    Que a imprensa fomenta “lutas” ao invés de matches, concordo em parte. Acho que influencia muito pouco (muito menos que outros fatores), mas tem sim gente na imprensa que acha bonito quem “briga pelo seu time” ou “não afina”.

    Agora pera lá… o autor do texto explicaria à família do jogador agredido que o que levou o garoto ao hospital foi um “azar” somado à “enorme inconsequência” do goleiro do Sport? Isso me fez lembrar um site que vi com pessoas dando depoimentos sobre o Pimenta Neves, chamando o homicídio de “uma grande tragédia na vida da Sandra e do Pimenta Neves”, que ele é um homem íntegro e exemplar acometido por um mal inexplicável, etc., etc.

    Se o que se prega é que temos que formar cidadãos, então passar a mão na cabeça e blindar um jovem que comete um ato violento é um péssimo começo. Ele tem SIM que responder pelo que faz. Ao atingir perigosamente a cabeça de um colega de profissão ele assumiu o risco do que estava fazendo. E estava em pleno exercício da consciência.

    Se foi tentativa de homicídio ou se foi lesão corporal leve ou grave, que julguem os profissionais competentes. Não serei eu nem o autor do texto. Mas tem que ser apurado, não importa se o autor tem origem humilde ou abastada.

    Será que os valores estão se invertendo? Será que quem quer uma Justiça atuante e o combate à violência é que é o errado agora?

  • BASILIO77

    As incoerencias…hipocrisias nao se resumem a esse caso especifico, ao esporte ou a parte da mídia que o cobre.
    As incoerencias…importancia exagerada que se dá, ou o contrario, a determinados fatos similares, sao uma marca dos tempos atuais…em todos os segmentos da sociedade.
    Quando qualquer tema ou fato é abordado, vejo acontecimentos semelhantes sendo abordados de formas distintas. Antagonicas.
    Me parece que vivemos tempos de simpatia ou antipatia, opinioes predefinidas a partir do sentimento primeiro que venha a sentir em relacao a um fato. Sem que haja reflexao alguma, emite-se uma opiniao, por mais contundente que seja.
    Afinal, o big brother, de tanto sucesso atualmente, é o que? Senao um concurso de simpatia, empatia com o publico?
    Quem vai para o paredao é o Brasil, sil, sil.
    Abraco.

  • alexandre

    concordo, e, detalhe a entrevista do agredido jogador do vasco, mostra o caminho a ser seguido

  • Leonardo atleticano

    O Uruguai passou décadas e mais décadas sem ganhar nada, e sua cultura e forma de encarar a seleção não começou a cinco anos, é deles desde a sua criação como povo. Agora eles são o exemplo máximo de tudo, não acho que seja assim. A espanha da mesma forma, anos e anos de derrotas, agora está por cima.
    O que há de igualdade entre as seleções de Uruguai, Espanha, Brasil 58/62/70/82, Holanda 74, e muitas outras equipes maravilhosas foram as safras de jogadores do período. Brasil já foi campeão com o País sob ditadura.
    Temos que mudar muita coisa no Brasil, mas não porque estamos perdendo no futebol. O futebol é o menor dos nossos problemas.

  • Rodrigo

    André, enquanto os rivais não se derem conta da importância que um tem ao outro, vai ser essa violência, dentro e fora do campo. Achei esse video, que deveria ser um exemplo a ser seguido. É curto, tem um minuto, mas diz muito. []s

    http://www.youtube.com/watch?v=tP_9MqSoE-E

  • Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap!

  • Juliano

    Olá André!
    Belo texto, mas tenho algumas ressalvas… queremos raça, garra e disposição, mas isso jamais, JAMAIS deve ser confundido com a violencia sem precedentes que ocorreu nesse jogo da taça BH (e em tantos outros jogos tambem). Não fosse o golpe na altura da nuca, levando a vítima ao hospital, seria apenas mais uma briguinha sem repercussão. A repercussão está na gravidade do golpe, ou estaríamos aqui discutindo se fossem trocados pontapés sem levar ninguem ao pronto-socorro?

    Temos exemplos de jogadores que se entregam, que jogam de forma viril, com garra, raça e disposição, que não são desleais. O paraguaio Gamarra é um, o uruguaio Lugano é outro, e o capitão do tetra, o jogador Dunga também é outro. Podemos discutir o seu futebol, mas nunca o vi sendo desleal a ponto de levar um colega de profissão ao hospital (se isso ocorreu por favor refresquem minha memória). O Dunga jogador é hoje lembrado por ter xingado a taça…

    Porém, o craque do tetra, um dos meus ídolos com a bola nos pés, ROMÁRIO, já saiu dando voadoras quando o clima esquentou em alguns jogos. Deu a sorte de não acertar alguém como o goleiro do Sport acertou. Vejo aqui um tratamento no melhor estilo vários pesos e várias medidas.

    Por maior que seja o descaso (e é) e o despreparo com os atletas no Brasil, em qualquer nível e em qualquer modalidade, isso não deve ser usado em defesa do goleiro do Sport. Qualquer pessoa sabe que, em qualquer circunstancia, acertar outro cidadão da forma que ele acertou é errado! É grave! É sim muito covarde (além de tudo foi pelas costas, como se a briga já instalada não fosse errada e vergonhosa suficiente). E aí defendê-lo por que não teve preparo é perigoso! Mas também, claro, crucificá-lo não é o correto. Difícil neste caso saber o caminho correto. Certo mesmo seria prevenir para que remediar não fosse preciso. Hoje, neste Brasil, impossível.

    Os jogos mundiais militares e o doping do velocista da piscina são temas desprezíveis. Em 2016 veremos que ridícula foi a participação do Brasil nos JMM e que de nada valeu. Sobre o doping, é só mais um… o que agrava é a falácia e as desculpas esfarrapadas (pra não falar do choro ridículo após conseguir mais uma vitória constestável…)

    André, um abraço!

  • Rafael Wuthrich

    Recomendado!

  • Willian Ifanger

    Olha André, o Vascaíno some por uns tempos, mas quando volta, SAI DE BAIXO.

    Ele sintetizou tudo o que penso sobre todos os assuntos abordados.

    Queria eu ter capacidade de escrever um texto desses.

    Parabéns ao seu amigo e obrigado por ter compartilhado.

  • Roberto Junior

    O texto que eu queria ter escrito! Lindo, lindo, lindo! Abraço a todos e parabéns!

  • Excelentes as críticas ao comportamento belicoso e ao jeitinho brasileiro, mas acho que é forçar a barra tentar transformar um cara que dá uma voadora no pescoço de um adversário no ‘pobre Gustavo’ da história. Expostos à maligna influência da mídia e das torcidas estão inúmeros outros. Amadurecendo aos trancos e barranco, sem suporte dos ‘clubes formadores’, tinha mais 21 só no campo de batalha em que ele desfechou seu golpe de Bruce Lee. Entretanto, só o ‘pobre Gustavo’ pôs em risco a vida de um outro jogador. Para mim, não são os outros 21 também tem motivo, é o ‘pobre Gustavo’ que não tem.

    Concordo com a enumerada série de mazelas e com a grande dose de descaso na formação de cidadãos aqui em terra brasilis, mas isso não dá habeas corpus para qualquer desequilibrado sair atirando em escola (o ‘coitado’ também era vítima de bullying quando criança). Ou botando fogo em índio. Ou espancando um homossexual. Ou, como é o caso, dando voadora no pescoço dos outros. O ‘sistema’ pode estar falido, podem haver inúmeros atenuantes, mas o fim das contas é que 99% da população sobrevive mesmo assim, com todos os percalços, sem precisar atrapalhar a vida dos outros. Os ‘pobres Gustavos’ não tem a mesma sorte.

    Não fico nem um pouco indignado por ver que esse rapaz vai arcar com as consequências da sua inconsequência – acho, inclusive, um excelente exemplo. Como disse o Paulo, mais acima, não sou eu, nem o autor do texto, nem os fariseus que vamos julgá-lo – mas que ele tem que ser julgado, não resta dúvida. Absolvê-lo de antemão pelas suas dificuldades na vida só desvaloriza a luta dos que superam essas mesmas adversidades sem precisar virar o Michael Douglas em Um Dia de Fúria. E é tão nocivo à recuperação do garoto quanto os clamores para jogá-lo no calabouço e sumir com a chave.

  • Irretocável! Infelizmente, para o Brasil, nem tudo o que reluz é louro…
    Abraços aos dois!

  • Marcel Souza

    Belo texto!

  • Rafael Wuthrich

    Ansioso para ver suas notas para a epopéia de ontem. Merece post à parte!

    AK: Em breve… um abraço.

  • Guga

    Assunto delicado e complicado.

    Acredito que seja muita pretensão achar que podemos mudar o caráter das pessoas.

    Mas é nossa obrigação dar boas condições para que as pessoas desenvolvam o seu caráter, além de contribuirmos com bons exemplos na nossa própria vida. Se não o fazemos, temos responsabilidades como co-participantes nesses eventos condenáveis.

    Porém a responsabilidade maior é sempre do indivíduo, que possui a liberdade de escolher os caminhos a seguir e as atitudes a tomar em cada evento da vida.

    Resumindo: Faça sempre a sua parte e, na medida do possível, ajude o outro a fazer a parte dele.

    Punir o agressor, de acordo com as leis e regras vigentes, é importante. Mas só isso é insuficiente.

  • Parabéns vascaíno e André

    Mais um texto que eu gostaria de ter competência para ter escrito.

    Pena que somos a imensa minoria.

    Abraços

  • André, você já deve ter visto isso (o link, não uma história dessas…):

    http://www1.folha.uol.com.br/esporte/950742-clube-paranaense-pode-ter-de-perder-para-subir-de-divisao.shtml

    Talvez seja um bom assunto a ser sabiamente explorado por você numa coluna futura.
    P.S.: sou paranaense e, apesar de já ter visto muita maracutaia no futebol e também no futsal (que é forte) daqui, essa superou a tudo. Da séria “aprendendo como não fazer”.

    Um abraço!

MaisRecentes

Futilidade



Continue Lendo

Incoerente



Continue Lendo

Sozinho



Continue Lendo