COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

TELECURSO

O ensino à distância jamais vislumbrou tamanho sucesso. E provavelmente não imaginava que ele seria alcançado com decisiva colaboração das transmissões de futebol pela televisão. É o triunfo do esporte como ferramenta de educação.

Profissionais de várias áreas já foram diplomados. Especialistas em leitura labial, advogados, delegados de polícia, médicos… A semana trouxe como novidade mais uma disciplina: psicologia. O jogo que fez o papel de “conclusão de curso” aconteceu na noite de quarta-feira, no Pacaembu. Palmeiras x Flamengo. Uma rápida sequência de imagens foi suficiente para que alunos construíssem o perfil de um jogador. Prova da impressionante eficiência do método.

Aos fatos: no segundo tempo, o árbitro Leandro Vuaden parou o jogo para que o lateral rubro-negro Junior Cesar fosse atendido. No momento da paralisação, a posse de bola era do Flamengo. A situação invocou uma das “leis não escritas” do futebol, conjunto de normas que transformam as peladas de fim de semana e a final da Copa do Mundo numa coisa só: “no reinício do jogo, a bola deve ser devolvida a quem tinha a posse (ou o tempo vai fechar)”.

Vuaden reuniu os jogadores para o “bola ao chão”. Após uma breve discussão e alguma indecisão, Kléber pegou a bola e chutou para o gol do Flamengo. No campo, foi cercado pelos adversários. País afora, seu perfil psicológico foi traçado. Um mau-caráter, assassino do “fair-play”.

O fato de não haver consenso entre os jogadores sobre a posse da bola foi ignorado. O mesmo se fez com a possibilidade de Kléber ter agido como alguém convicto de que a bola era do Palmeiras (sim, um erro), e que perdeu a paciência com a demora. Foi exatamente o que aconteceu.

Mas até entre os que perceberam, há quem se recuse a admitir. Afinal, blá-blá-blá sobre o jogo limpo deixado de lado, Kléber fez pose e “jogou para a torcida”. Aí está o ápice da capacidade de diagnóstico, remoto, do que passa pela mente de um jogador. Nos minutos finais de um jogo empatado, durante uma celeuma sobre quem deveria ficar com a bola, Kléber identificou e processou a oportunidade de ficar bem na foto com o torcedor do Palmeiras. Nem Garry Kasparov, quando venceu Deep Blue, pensou tão rápido.

Momentos antes do episódio, o mesmo Kléber tentou uma jogada perto da área do Flamengo. Caído, entrou numa dividida com a cabeça, lance de alto risco para ele. Também foi algo premeditado, marketing pessoal? Qual é a chance de um jogador ter tempo para pensar em como seu comportamento será avaliado, enquanto tenta driblar o adversário?

Isso não é sobre o Palmeiras ou sobre o Flamengo. Não é nem sobre Kléber. Seu conhecido histórico não deveria ser utilizado para que se determinasse, de tão longe, o que aconteceu num lance específico. Estaríamos todos fazendo muito melhor se a vontade de “super-analisar” uma conduta fosse investida em descobrir o que de fato se passou. É mais difícil, mais trabalhoso, mais demorado. Mas é o certo.

Como ir à escola.



  • j a biasetti

    muito bem, muito bom.

  • José Luiz Junior

    O pior é que isso caiu na rotina do torcedor, como a violência, corrupção, etc caiu na rotina do cidadão. Eles acreditam nesses tais delegados, médicos e especialistas a distância e baseiam seus comentários entre amigos nisso também. Ninguém realmente se preocupa em analisar o fato e extrair a verdade, é mais cômodo acreditar no que esses “especialistas” dizem e tomar como verdade absoluta. Não dá pra levar a sério comentários de pessoas que se baseiam apenas no histórico do jogador, sendo que o Kléber já vinha mostrando que tinha mudado um pouco. Mas parece que não foi o suficiente para que seu curriculo fosse posto a mesa. Claro que ele quis fazer média com a torcida também, mas daí a basear seu comentário só nisso sem nem mesmo analisar o lance por inteiro, é muita preguiça. Abraço.

  • André

    Você pode até condenar as pessoas que julgam o carater do Kleber. Mas evidentemente que ninguém usa esse lance isoladamente para falar julga-lo.
    Seria ingenuidade ou oportunismo afirmar tal coisa.

  • Paulo Pinheiro

    Francamente, André

    Toda essa verborragia pra justificar o injustificável.

    Não precisa ser especialista, não. Qualquer CRIANÇA percebeu que se tratou de um lance covarde. Nem foi mais a questão de “devolve ou não devolve” para o adversário, mas o fato de pegar o adversário desprevinido, já que para TODOS ali havia a certeza de que o lance era do Flamengo (o árbitro e o restante do time do Palmeiras já corriam para o campo de defesa do Verdão).

    Bom… todos exceto o Kleber, segundo a sua análise. Aliás, essa sim foi uma análise “psicológica” do lance.

    E, cá entre nós, você também analisa atos pelo histórico (vide aquela questão da banana atirada no campo lá na Inglaterra). Todos nós fazemos isso. E não deixa de ser justo. Se você não quer ser julgado com pré-conceito não crie um mau conceito. Será assim comigo também. Se eu perder a confiança levará tempo para recuperá-la.

    AK: Francamente, digo eu. Kléber e Marcos Assunção DECLARARAM que, para eles, a bola era do Palmeiras. Não se trata de defender ou atacar alguém, mas de saber O QUE ACONTECEU. Kléber achava que a bola era do Palmeiras, também achava (e também disse isso) que o Flamengo estava fazendo cera. Pegou a bola e foi para o gol. Foi isso que aconteceu e esse é o ponto do que escrevi.

    E por favor, não me acuse do que eu não faço. No caso da banana no amistoso da Seleção, afirmei que banana atirada na direção de um jogador estrangeiro e negro é racismo. E é. Simples.

    Um abraço.

  • Paulo Pinheiro

    *desprevenido

  • Nilton

    Na minha opinião a bola era do Palmeiras pois o jogador do Fla não dominou a bola e sim deu um bico para frente que caiu no pé de um palmeirense. E pelo que eu precebi o Kléber ficou esperando o “fair-play” como não teve, ele pegou a bola e foi para frente, e para ser sincero como ele acabou saindo na cara do gol ele tinha toda condição de fazer o gol. que não nem passou nem perto do Felipe.

    AK: Posse do Flamengo. A bola que o Renato bica vem de um jogador rubro-negro. Um abraço.

  • Paulo Pinheiro

    Então, não estou acusando você. Estou constatando (dentro da minha visão) o que é uma tendência humana: usar experiências passadas pra tomar as decisões no presente. Isso não é um “defeito”. É a base do conhecimento humano. O episódio da banana (que não quero ressuscitar aqui) foi só um exemplo (sem intenção de acusar, até porque não acho que seja um crime).

    O meu ponto é que o Kleber precisa assumir que esse pré-juízo é consequência de seus erros anteriores, e que leva tempo até se mudar o conceito que as pessoas têm. Não pode (não podemos!) reclamar de colher daquilo que foi plantado.

    Agora… sobre o que os jogadores dizem após o jogo já ouvi de tudo. Eu fico com a força das imagens que, como opinei, são claras demais pra que exista a necessidade de “especialistas”.

    AK: Diagnosticar o que se passou num lance, levando em conta o histórico pessoal de um jogador, nada tem a ver com “base do conhecimento humano”. Com base da ignorância humana, talvez. Quanto às imagens, de fato, são claras. Não resta dúvida sobre o que aconteceu. Um abraço.

  • Paulo Pinheiro

    “Ignorância” (apelou) é desconhecer alguma coisa. Nada tem a ver com isso.

    O passado do Kleber nem é preciso ser invocado pra olhar o que aconteceu na imagem. Ainda que ele tivesse a plena certeza de que a bola era dele (ninguém tasca, ele viu primeiro) o lance foi covarde. 

    No lugar dele e com essa certeza toda um jogador com uma gota de hombridade teria passado a bola para o próprio companheiro no campo de defesa, recomeçando a jogada (até porque na paralisação do lance o Palmeiras só colocou o pé na bola lá no meio de campo).

    André, não me arvoro a dono da verdade. Mas acho que neste momento a crônica esportiva perde a oportunidade de chover críticas pesadas sobre aquela atitude. Não pra “me satisfazer”, mas para o grande papel da mídia: formar opiniões. Neste caso, opiniões de outros jogadores, para que não comece o samba do “se ele pode eu também posso” e o Brasil acabe por se notabilizar por ser o país onde o fair-play não é respeitado (duvida que isso aconteça?)

    AK: Não apelei, não. Apenas afirmei que é o oposto. E não disse em nenhum momento que Kléber fez o certo. Ocorre que para haver fair play é preciso que haja consenso. Não havia. Um abraço.

  • Joao Vitor

    André,

    lendo suas replys dos comentários, li uma frase que me intrigou:”Ocorre que para haver fair play é preciso que haja consenso”. 
    E aí te deixo uma pergunta: Se não houver consenso, como se resolverá?????
    Será preciso ter uma pancadaria a cada jogo para que nosso país (o “pais do futebol”) se torne decente. 
    Onde está o fair play tanto incentivado pela fifa e praticado em todos os países do mundo? Nesse momento me lembro de um gol, se não estou equívocado, na Holanda, onde um jogador para devolver a bola chuta em direção ao goleiro e acaba fazendo o gol. Muito constrangido ele se desculpa e o treinador ordena que deixe o adversário fazer o gol.
    Mas aqui no Brasil… Somos os países dos espertalhões!!!!
    Abs

    AK: Quando não há consenso, é obrigação do árbitro determinar o que acontecerá no reinício do jogo, como já vimos muitas vezes. Leandro Vuaden falhou nesse episódio. Um abraço.

  • Hey André!

    No futebol isso deve ser novidade mesmo, porque na F1… décadas de experiência do “narrador oficial”, já… 😛

    E só para me posicionar… o lance estava tão claro de ser analisado (i.e., que havia discordância entre os jogadores sobre de quem era a posse), que nem era necessário invocar passado de ninguém para “analisá-lo”.

    Aliás, esse é o problema (grave) da( maioria da)s pessoas (preguiçosas): querer basear-se em atos passados para entender atos presentes e futuros.

    Abraço!

  • Admar Gardiano

    AK, a minha maior dúvida no lance não é nem se ele deveria jogar a bola fora ou não. Pela TV e pela sinalização do Kléber, tive a impressão que ele argumentava com os jogadores do Flamengo que iria jogar a bola fora. Um deles até sai meio de lado na jogada. Acho que se houve isso, aí sim essa celeuma toda teria razão. De resto não tem muito sentido, já que no futebol não tem santo. Ou o “rei da cera” Felipe tem alguma moral para cobrar fair play de alguém? Ou fazer cera também não é uma forma de burlar o fair play?
    Abraço e parabéns pelo blog!

    AK: Kléber gesticulou e disse para os jogadores do Flamengo chutarem para fora. Os rubro-negros disseram para os palmeirenses chutarem para fora. Por isso a indecisão. Um abraço.

  • Leonardo

    Paulo Pinheiro,

    Concordo com você.
    E pela minha previsão faltam mais dois posts seus para o AK mandar você se tratar…
    Vamos ver…

    Boa sorte

    AK: Debato com argumentos, como fiz com ele. Já você, não conseguiu apresentar nenhum. Por isso a recomendação. Pelo visto, recusada. Um abraço.

  • Paulo Pinheiro

    Admar,

    Esse argumento do Kleber de que “time que faz cêra não pode pedir fair-play” se esvazia.
    Primeiro porque no caso da “cêra” a regra prevê que o árbitro pode (e deve) acrescentar o tempo perdido, além de advertir o infrator. Já o oportunismo de tomar sozinho uma bola que só não foi disputada entre os dois jogadores porque o fair-play era esperado não é passível de punição alguma. Não há nada que o árbitro possa fazer pra reparar o dano causado. Não tem como comparar.
    Segundo porque, como eu disse antes, o que o Kleber fez não foi apenas tomar a posse de bola para seu time recomeçar de onde tinha parado. O que ele fez foi aproveitar-se da defesa aberta quando o adversário já havia subido para o ataque (e o time dele descido para a defesa). Foi sujo, imoral e – acima de tudo – covarde. Em que nível a cêra pode ser comparada com isso?

  • Leonardo

    Não apresentei nenhum argumento, e nem era a intenção do meu post (sugiro que você o releia).
    Só disse que concordo com os argumentos do Paulo Pinheiro.
    Sem mais, até.

    AK: Vixe… a situação é mais grave. É evidente que eu me referi àquele outro post. Bom, esquece… um abraço.

  • Leonardo

    É grave, gravíssima.
    Mas você ainda tem chance de melhorar.

    AK: Sempre. Mas e você? Estou preocupado. Um abraço.

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