CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

TERRA DO NUNCA

O debate sobre a presença de Neymar e Ganso na Copa de 2010 é inútil. O motivo é auto-explicativo: eles não estavam lá. Mas a Copa América trouxe o assunto do passado, com algo que até mesmo as conversas inúteis dispensam – declarações oportunistas como a que Jorginho, auxiliar de Dunga na Seleção Brasileira, deu anteontem.

Estimulado, o hoje técnico do Figueirense disse, em tom de desabafo, que a campanha do Brasil na Argentina mostrou que Dunga e ele acertaram ao não levar os dois santistas para a África do Sul. E que agora quem cobrava as convocações lhes dá razão.

Falso. Jorginho tenta se atribuir um mérito que não existe. As atuações de Neymar e PHG na Copa América não podem ser utilizadas como medidores para que se descubra como eles se comportariam num Mundial. Trata-se de um cálculo impossível. Para dar razão à antiga comissão técnica da Seleção, é necessário ter um poder ainda mais espetacular do que o de prever o futuro. O poder de modificar o passado.

Não me lembro de cobranças para que os jovens santistas fossem titulares do time que jogou a Copa do Mundo. Ganso no lugar de Kaká? Neymar no lugar de Robinho? Se havia algo que aquela Seleção tinha era conjunto. E um conjunto (como aqui se escreveu dezenas de vezes) extremamente competitivo. Ademais, um dos pilares do período de Dunga e Jorginho foi a formação de um grupo, o que não se discute. Sugestões com os nomes de Neymar e Ganso foram feitas como opções. A exemplo do que aconteceu com Ronaldo em 1994, e com Kaká, em 2002.

Uma coisa é estar sentado no banco de reservas, como opcional de luxo de um time formado e entrosado, numa Copa do Mundo. Algo a oferecer, muito a aprender, pouca responsabilidade. Outra coisa é, com a experiência de jogos que se contam nos dedos de uma mão, receber a missão de comandar um time em construção, numa Copa América. Etapas antecipadas num processo de renovação necessário.

Nunca saberemos o que aconteceria com o Brasil na Copa de 2010, se Neymar e Ganso estivessem lá. Nunca saberemos como terminaria o jogo contra a Holanda, em que a Seleção não teve Elano (machucado) e Ramires (suspenso). Lembra?

EXEMPLO

O Uruguai já ganhou a Copa América se o critério for a admiração de quem acompanha o torneio. Questão de atitude, postura. Mas a Celeste não é assim apenas porque quer, ou acha bonito. O trabalho gerenciado por Oscar Tabárez nas categorias de base, com os futuros jogadores de futebol uruguaios, é baseado em educação, formação e cidadania. É a síntese do que o esporte deve significar, e o oposto do que se faz no Brasil.

PERGUNTAS

Qual é o ponto de oferecer um contrato a um ídolo, como o Internacional fez com Paulo Roberto Falcão, para tratá-lo como se fosse um treinador como qualquer outro? Qual era o plano do Internacional quando decidiu contratar Falcão, demiti-lo na primeira série de derrotas? Negar-lhe apoio quando precisasse? Quando chegará o momento em que um clube brasileiro, que se enxerga como “diferenciado”, passará do discurso às ações?



  • Anna

    Gostei muito do título e da coluna. Perfeita. Nunca saberemos mesmo o que teria acontecido ao Brasil se Ganso e Neymar estivessem na África do Sul, pelo menos pra compor o banco, ganhar experiência. Eu só penso que eles não devam ser crucificados com essa eliminação do Brasil na Copa América, de forma alguma. Eles são craques e na hora certa, com mais maturidade e estofo emocional, vão mostrar isso. É só ter paciência!

  • Vilipendiador

    Perdeu uma ótima chance de não citar o “diferenciado” tricolor com ironia numa boa matéria. Chega de clubismo jornalístico…

    AK: … e de comentários inteligentes.

  • Francisco

    A sua última pergunta poderia ser direcionada à própria CBF em relação ao Dunga, concorda?

    AK: Evidentemente, não. Dunga foi técnico da Seleção por 4 anos. Um abraço.

  • Alex

    AK, vou comentar por post

    1 – poucas pessoas teriam o raciocínio que você teve. é mais fácil bater como Jorginho fez, muito mais demonstrando mágoa do que enxergando de uma forma consciente e racional.
    2 – uruguai é um exemplo de postura, coisa que nunca teremos na seleção brasileira. aqui só se joga com seriedade por interesse próprio, seja ele qual for (nem sempre é dinheiro)
    3 – o internacional nunca foi diferenciado, quem levantou o time e implementou uma filosofia melhor foi o Muricy quando esteve por lá. não existe clube diferenciado no brasil, se cavar acha fossa em todos. somos um país de desonestos, não dá pra esperar algo diferente no futebol.

    abraço,

  • Bruno

    Parabéns, mais um post perfeito para a sua imensa lista de comentários sensatos.

  • Leonardo atleticano

    André, nossa cultura futebolística é complicada, aqui segundo lugar é lixo e perder para um rival, mesmo que o mesmo seja superior é inaceitavel.
    Assim é nos clubes e assim é na seleção. Todo mundo se acha superior, o outro nunca tem mérito. Quando se perde é por falha imperdoavel, mérito do adversário, jamais.
    Nosso País é assim, sempre desmerecendo o adversário, sempre com soberba, o dirigente se acha maior que o clube, maior que o ídolo. E faz questão de demonstrar.
    Falando de dirigentes, a diretoria do Inter, assim como o presidente maior das entidades de futebol, está cagando para os clubes, para os ídolos, para a torcida e para o mundo.

  • André, concordo com você, o projeto uruguaio é fantástico, mas é mais fácil de se implantar em um país menor, na minha opinião.

    Porém, a história mostra que afirmações como a que eu fiz na frase anterior servem de muleta para quem não quer arcar com trabalho de modificar algo.

    Com relação a Ganso e Neymar, como você disse, não há nexo nessa discussão. Os jogadores do Santos são o presente. Jorginho é o passado. Se ele fez tudo certo, onde está a taça da copa de 2010?

    abraços!

  • evandro

    Ridiculo o q fizeram com o falcao no Internacional. Sou colorado e nunca quiz um idolo como treinador pois oq aconteceu aconteceria cedo ou tarde, é nossa infeliz cultura.
    Quanto a levar o PHGanso e Neymar na copa passada, o Dunga fez o correto. Estes jogadores apareceram pro futebol no inicio daquele ano e o treinador nao tinha nenhum motivo pra levá-los pois o grupo sempre é mais importante q as individualidades, e isto ficou muito claro nesta copa america. Abraço.

  • Marcelo Morais

    “Para dar razão à antiga comissão técnica da Seleção, é necessário ter um poder ainda mais espetacular do que o de prever o futuro. O poder de modificar o passado.”

    Por textos bem escritos como esse (e varios outros) eh que frequento este blog.
    Como eles dizem por aqui, “keep up with the good work”.

  • alfredo

    Jorginho esta certo. Levar Neymar e ganso para a copa do mundo e sacar outros dois (sim, porque outros dois teriam que ser tirados) era, no momento, inadequado….. Se é pra ficar dissendo que nao tem-se como saber como seria, porque nao levamos pele??? nao saberiamos se ele nao conseguiria jogar 30 segundos e resolver!!!!! por favor……………… Ainda sao imaturos esses garotos, na epoca nem se fala………………

  • Alexandre

    alfredo,
    Você se esquece de que o Dunga levou Gilberto Silva, Josué, Kleberson, Grafite e outros jogadores altamente dispensáveis…

  • bettaum

    Dunga e Jorginho são tão teimosos que não percebem o óbvio.

    O fracasso na Copa América prova exatamente o contrário, que Neymar e Ganso deveriam ter ido à Copa.
    O que dizem que faltou a ambos é experiência.

    Oras, onde mais conseguiriam experiência do que sentados no banco de reservas duma Copa do Mundo (entrando vez ou outra)?

    Dunga e Jorginho não apenas atrapalharam o Brasil na Copa, mas também a seleção pós-Copa, que poderia contar com dois jogadores, que ninguém discutia que seriam convocados em pouco tempo, com mais experiência internacional.

  • silas

    “O trabalho gerenciado por Oscar Tabárez nas categorias de base, com os futuros jogadores de futebol uruguaios, é baseado em educação, formação e cidadania. É a síntese do que o esporte deve significar, e o oposto do que se faz no Brasil.”

    Sou admirador do seu trabalho. Sempre encontro coerência, capacidade de síntese, objetividade e, principalmente, isenção (o que é muito raro na imprensa).
    Do seu texto, entretanto, devo considerar: 1) O meninos (Ganso e Neymar) demonstraram que não estão prontos e evidentemente não estavam também na última Copa – o que é perfeitamente natural para a idade e para o que eles já disputaram em termos de Campeonatos, Copas, etc; 2) Concordando plenamente com a parte do texto acima destacada, deduzimos que ganhar a próxima Copa, mesmo aqui no Brasil, será uma ttarefa quase impossível. Ou será que em apenas três anos vamos conseguir implantar algo que em toda a nossa existência não foi possível? Abraço e, mais uma vez, continue sempre assim.

  • mauro alvim

    “terra do nunca jogou nada”: Michel Bastos, Doni, Felipe Melo, Gilberto Silva, Kleberson, Grafiti.
    Nós nunca saberemos se o resultado seria outro se estas “feras” não tivessem sido convocados.

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