RESENHA DE “O PRESIDENTE”



Você certamente ouviu falar sobre o perfil de Ricardo Teixeira, assinado por Daniela Pinheiro, na revista Piauí.

Se ainda não leu, deveria.

As aspas do dirigente, recheadas de palavras de alto conteúdo grosseiro, já foram amplamente divulgadas.

Na resenha abaixo, escolhemos os “melhores momentos” do texto, muito mais reveladores do que os palavrões presidenciais. Também fizemos alguns comentários.

Procure uma banca, compre a revista. É leitura obrigatória.

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“A varanda do Hotel Baur au Lac foi construída em 1844, de maneira a oferecer aos hóspedes uma paisagem inspiradora: o jardim aparado com esmero em primeiro plano, depois o lago sereno e, ao fundo, os Alpes soberbos. Milionários bronzeados que pilotam Jaguar são habitués do hotel, no centro de Zurique. Eles costumam ser acompanhados por senhoras que portam dois relógios de brilhante no mesmo braço (um que marca a hora local e outro com o fuso do país de onde vêm). Ou então por loiras magras que bebem Campari com gestos lentos. Em maio, o hotel estava cheio de dirigentes da Fédération Internationale de Football Association, a Fifa, que realizava seu sexagésimo-primeiro congresso na capital da Suíça.”

COMENTÁRIO DO BLOG: Parágrafo de abertura. O esmero nas descrições permeia toda a reportagem. Quando você lê algo e se pega “vendo” a cena, é porque o material é bom. No caso, é muito bom.

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“Ele tem as feições pouco marcadas, rechonchudas. Como anda um pouco curvado, devagar e tem pigarros recorrentes, aparenta mais idade. Parece estar sempre irritado porque, mesmo relaxado ou de bom humor, mantém o cenho contraído, como se o sol do meio-dia ou uma forte dor de cabeça lhe atingisse em cheio a fronte. Quando se desarma, ou toma uma taça a mais no fim de noite, é espirituoso e atencioso com todos. Ele se veste de maneira formal, padrão: calça marrom, camisa branca, blazer azul com botões dourados e gravata vermelha. Antes de se casar – sua mulher contou – usava sapato preto com meia soquete branca.”

Sapato preto com meia branca não dá. Pelo jeito, o layout do presidente melhorou. Eu jamais usaria um blazer com botões dourados, mas aí é questão de gosto, né?

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“Os convivas eram cartolas de confederações sul-americanas, suas esposas e assessores. Parecia um jantar do elenco do seriado Chapolin, com muita tinta acaju, pulseiras de prata, calças de tergal e sobrancelhas feitas com um risco em forma de meia-lua. Estava lá o octogenário Julio Grondona, jefe da Associação de Futebol Argentino. Ele é acusado de ter ganho 78 milhões de dólares para votar no Catar para sede da Copa de 2022.

Também apareceu Nicolás Leoz, um paraguaio de 82 anos que preside a Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol. Além de ter recebido suborno da ISL, diz-se que ele teria pedido um título de nobreza a David Triesman, em troca de seu voto pela Inglaterra. ‘Don Leoz, donde está su corona?’, gritou-lhe Teixeira, trazendo à baila o almejado título de sir. Leoz fez um bico de muxoxo e levantou os braços sobre a cabeça, fingindo estar sendo coroado, e todos gargalharam. ‘Se nos derem as Malvinas, eu voto em qualquer coisa!’, gritou Grondona, que usa um anel de ouro no mindinho com a expressão Todo pasa.”

1 – A segunda frase é impagável.

2 – Veja, uma vez mais, em que mãos está o futebol sul-americano.

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“(…) Em Zurique, o presidente conversou por duas vezes com advogados sobre a possibilidade de negar credenciais para jogos da Seleção Brasileira. Foi orientado a conceder pelo menos uma aos desafetos, de maneira a não se caracterizar a discriminação.”

Poderíamos usar aqui a expressão “apropriação indébita”? De quem, afinal, é a Seleção Brasileira de futebol?

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“No futuro, Teixeira considera montar uma estrutura jornalística própria, que produzirá conteúdo de interesse da CBF. Seja para responder aos ataques dos críticos, seja para comercializar o acesso privilegiado que a entidade tem sobre os jogadores.”

Os jornalistas contratados para essa futura estrutura certamente não serão “vagabundos” e “escrotos”, termos usados pelo presidente para caracterizar a imprensa esportiva brasileira.

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“No salão de chá do Baur au Lac, o argentino Julio Grondona estava esparramado numa poltrona, com o rosto afogueado. ‘Ah, fui ver os vitrais do Chagall, comi um risoto maravilhoso, bebi uma garrafa de Chianti e brindei à eleição da Fifa’, disse, caindo na gargalhada.

Teixeira pareceu surpreso ao saber que um dos principais pontos turísticos de Zurique, os vitrais de Marc Chagall, ficava a menos de 500 metros do hotel. Ainda que frequente a cidade há mais de trinta anos, seus trajetos são inalteráveis: hotel, Fifa, os mesmos restaurantes, onde é atendido pelos mesmos garçons – a quem pede os mesmos pratos. As paisagens deixaram de deslumbrá-lo.”

Uma pena…

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“Durante a CPI da Nike, em 2001, a rede levou ao ar uma reportagem no Globo Repórter sustentando que a renda de Ricardo Teixeira era incompatível com  seu patrimônio e padrão de vida. A CBF anunciou pouco depois, do nada, uma mudança no horário de uma transmissão de uma partida Brasil x Argentina, clássico sul-americano que costuma bater recordes de audiência. Em vez de ser exibido no horário de praxe, depois da novela das oito, o jogo foi marcado para as 19h45.

‘Pegava duas novelas e o Jornal Nacional. Você sabe o que é isso?’, cochicou-me Teixeira, no Baur au Lac, quando o caso foi relembrado. Como a Globo transmitiu a partida, amargou o prejuízo de deixar de mostrar diversos anúncios no horário nobre, o mais caro da programação. A partir daí, não houve mais reportagens desagradáveis sobre o presidente da CBF na Globo.”

O “dono” da Seleção Brasileira ataca novamente. Ah, o poder…

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“Teixeira quis almoçar de novo no Zeughauskeller. No caminho, o celular de Rodrigo Paiva tocou e, do Rio, alguém lhe contou que o prefeito Eduardo Paes havia divulgado que a sede do centro de imprensa da Copa seria na cidade. O anúncio, no entanto, deveria ter sido feito pelo Comitê Organizador, ou seja, por Ricardo Teixeira. O que se falou no carro é impublicável.”

Eu queria ser uma mosca.

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“A empresa Match alugara uma sala no hotel para que caciques da Fifa assistissem ao jogo do Manchester contra o Barcelona. Teixeira ajeitou-se numa cadeira na primeira fileira, em frente à televisão. Havia salgadinhos e bebida, mas ele tomou suco. Um cartola uruguaio lhe perguntou detalhes dos times brasileiros e ele repondeu de forma lacônica: ‘Santos es muy fuerte. El problema es que sólo tiene dos jugadores’, ‘Problema de Palmeiras es que gastó mucho y no ganó nada”.

Ao contrário dos outros, que vibravam, comentavam, gritavam e xingavam, Teixeira parecia ver um filme repetido da sessão da tarde. Fez comentários sobre os passes errados do Barça, e apertava os lábios quando o time perdia uma boa jogada. No meio do jogo, pegou seu iPad. Quando Messi marcou um gol, mal levantou os olhos por cima dos óculos para conferir o tira-teima.

Ao final, comentou que detestava ver jogo rodeado de ‘muita gente’ (…).”

Poderia ter subido ao quarto, não? Ou será que a final da UCL não tem tanto apelo ao presidente da CBF?

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“Antes de começar a votação da Fifa, Jérôme Valcke avisou aos 203 delegados presentes que deveria testar a maquininha de voto. Ele faria duas perguntas pró-forma, e os representantes dos países deveriam apertar verde para sim, amarelo para abstenção e vermelho para não. As instruções foram traduzidas em sete idiomas. ‘Esse Congresso está ocorrendo na Hungria?’, foi a primeira questão. Para espanto geral, 45 delegados responderam que sim. ‘Foi a Espanha que ganhou a última Copa do Mundo?’ No painel, viu-se que sete responderam negativamente.”

Sem comentários.

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“Como de hábito, responsabilizou a imprensa pela celeuma (Nota do blog: sobre o estádio paulistano para a Copa de 2014): ‘Olha a merda que foi a Copa na França; a Seleção jogou num estádio de 27 mil lugares, ficamos concentrados no meio do nada. E algum jornalista reclamou? Não, né? Afinal, estavam indo para Paris.’ Quando se falou em aeroportos, ele deixou claro que o problema não lhe diz respeito. ‘Isso é governo. E se o governo acha que a Copa não é prioridade, não posso fazer nada. Esse é o SEU país’, disse.”

Como é?

SEU?!



  • Aff, que horror. Será que ela presenciou ao menos uma cena de seriedade e postura desses dirigentes?

    Posso reproduzir a sua resenha no meu blog?

    Abs,

    AK: À vontade. Um abraço.

  • Anna

    A entrevista é conduzida, o entrevistado é patético e a resenha, impagável. Muito boa! Ainda não li na íntegra. Farei assim que for possível.

  • Anna

    Quis dizer, a entrevista é bem conduzida. 😉

  • Um esse Ricardo Teixeira.

    Ainda bem que a galera vai descobrindo o .

  • Leonardo atleticano

    André, esse País é inacreditavel. Essa turma tem a cada dia testado os limites para as suas cafagestagens, e não encontram um basta nunca. A podridão está a níveis inacreditáveis.
    Feliz de quem nasce burro, vive besta e morre ignorante. Ler, pensar e ter consciência dos acontecimentos que povoam esse País está dando asco.

  • Guga

    Essa “independência” das federações/confederações de futebol ao redor do mundo é uma lástima.

    Elas não precisam prestar contas para nada e ninguém, nem aos próprios governos ou cidadãos. Enquanto isso não mudar, é impossível parar as ações desses senhores. Eles fazem o que bem entendem. E com poder de sobra, porque conseguem derrubar todos que passam pelo seu caminho, sejam eles parte da imprensa, emissoras de TV e até os clubes que ousam questioná-los.

    Muita coisa deveria mudar. Primeiro acabar com reeleições infinitas (dois mandatos no máximo). Voto secreto (para não haver retaliações aos clubes). Espécie de conselho fiscalizador e prestações de contas, etc… Muita coisa a mudar.

    Do contrário cultivaremos esse “poder paralelo” alimentado pelo esporte mais popular do mundo.
    Sou a favor de intervenção do estado para efetuar essas mudanças. Mas confiamos no estado?…

  • Paula

    Boa pergunta. De quem é a seleção brasileira? Se a CBF acaba hj, como fica a seleção? Tai uma relação que não consigo entender…
    Como uma entidade se apodera de tantos jogadores, lhe coloca um emblema e lhe atribui o nome do pais e não paga praticamente nada por isso (só lucra)!

  • Leandro Azevedo

    “No futuro, Teixeira considera montar uma estrutura jornalística própria, que produzirá conteúdo de interesse da CBF. Seja para responder aos ataques dos críticos, seja para comercializar o acesso privilegiado que a entidade tem sobre os jogadores.”

    Ainda vai criar? E a Globo, vai virar o que quando isso acontecer?

    Cada nova reportagem sobre o Barao da CBF, fica mais claro que ele nao gosta de futebol, so de dinheiro mesmo. A “patroa” volta hoje de uma viagem de negocios pelo Brasil e a revista ja foi encomendada… na espera para ler o restante.

    Abraco

  • Marcel Souza

    Que nojo!

    Só vou destacar um ponto que você também comentou. O futebol sulamericano realmente está na draga… Dá uma olhada nos dirigentes…

  • Henri Coelho

    André, qual a saída pra que o RT não mais fique a frente do futebol brasileiro?
    Seria a liga dos clubes, com todos rompendo com a CBF?
    Você vê alguma possibilidade disso ocorrer sem que a Globo patrocine a ideia?
    Você vê alguma possibilidade da Globo se mexer, mesmo sendo taxada de, no mínimo, passiva e preguiçosa (não achei a palavra que queria) em relação ao RT? Ou o que vale mesmo é a garantia de transmissão dos jogos, o aceite quanto aos horários da programação e enquanto estiver assim, tudo bem, não importa quanto e o que o RT fale?
    Abraços,
    Henri

    AK: A vontade dos clubes. Talvez. Não. Não. Sim. Um abraço.

  • Sabe o que me ocorreu agora?

    Acho que RT, apesar de gostar de luxo, não gosta de “muito” dinheiro… ele deve fazer tudo isso porque gosta do PODER.

    Abraço!

  • André, é realmente deprimente a figura do Teixeira. Como você disse na resposta ao Henri, somente os clubes podem acabar com isso. O que me assusta é escolherem uma pessoa assim para representá-los.

    Na minha opinião, teixeira está conseguindo tornar a seleção cada vez menos importante. Acho que só a Copa ainda gera algum apelo.

    Suponhamos que no mesmo dia acontecesse a final da Copa América (Brasil X Argentina) e o último jogo do campeonato brasileiro, decideindo título, entre Flamengo e Corinthians, qual das partidas você acha que a Globo transmitiria?

  • Joao CWB

    Ricardo Teixeira é isso, Ricardo Teixeira é aquilo… A todo instante aparecem na “mídia traço” (segundo o cartola) notícias acerca das atividades e do caráter desse cidadão, com exceção da Globo. Mas e daí? O tem a cara de pau de dizer que não liga para as consequências das suas “maldades” em 2014 pois em 2015 ele estará fora, e daí? Eu sinceramente estou cansado de tanto ler sobre a conduta absurda e as falcatruas do Tricky Ricky e nada lhe acontecer.
    É muita arrogância, muito desrespeito, muita falta de valores e, e, e…..Ah, sem palavras, apenas indignação e raiva. Indignação, indigna, indigna nação.

  • eduardo pieroni

    Boa André, cara na verdade eu não acredito mais no BRASIL em termos de justiça e politica , não tenho esperança de ver alguma coisa de novo neste pais,politicos , pessoas mesquinhas e TVS que só querem lucros nem pensam nos otarios(incluindo eu) que ficam perdendo tempo em frente da tela para ver seus times,noticias e outras coisas que não são tão importantes.

  • Fred Ferreira

    André,

    Acho que o nosso problema é mais sério do que parece. Se pararmos pra analisar, vamos ver que praticamente todas as instituições brasileiras, com poderes importantes, apresentam casos escancarados de corrupção e falta de vergonha na cara.

    A impressão que tenho é que a corrupção virou parte da “cultura brasleira”, parece que é quase obrigatório o cara que tem poder virar corrupto. Fica a sensação que se não fosse o RT, seriam outros cometendo coisas parecidas. Cada vez mais difícil de ter esperança em um país justo e limpo por aqui.

    Um abraço

  • thiago

    André, depois desta entrevista, eu te pergunto: você trabalharia na Globo se fosse convidado?

    AK: Não sei. Esse tipo de pergunta a gente só pode responder quando acontece. O que posso dizer é que as pessoas que trabalham na Globo – e fazem o que eu faço – nada têm a ver com as decisões tomadas acima delas. Um abraço.

  • Rodrigo

    Acho que, depois dessa entrevista, teve gente do departamento de esportes da Globo sendo escalada. Não sei não, mas a declaração do RT sobre a emissora pode significar o começo do fim do que se vê hoje nas relações Globo x CBF.

  • Marcelo Coelho

    Tenho a mesma curiosidade do Thiago.

  • Obrigado.

  • Marcos Vinícius

    Nicolas Leóz,Julio Grondona e Ricardo Teixeira.

    Alguém sabe dizer,exatamente,a quanto tempo essas pessoas estão à no comando de suas respectivas confederações?

    Não se deem ao trabalho.Duas décadas,no mínimo.

    Agora todos sabemos por que o futebol sulamericano,muito mais rico tecnicamente falando,está a anos luz do europeu.

    E que ninguém se iluda:vai continuar assim por muitos anos.

    Vou comprar a Piauí.

  • Lucas

    E não vai acontecer nada com ele mesmo! Se o perturbarem muito, nem rolará a copa por aqui em que muitos dos apaninguados do Teixeira estão contando para poder erguer obras faraônicas com dinheiro público (isenção fiscal é a mesma coisa!) de forma populista e pensando apenas no ópio das torcidas dos chamados times de massa. Infelizmente, quem votou nele e o mantém no topo, é farinha do mesmo saco! O futebol brasileiro é apenas um outro tipo de negócio! Muito triste, porém real! E as entidades que controlam o futebol em todo mundo são coisa privada e não de governo. Até que algum comunista de plantão por aqui venha sugerir que a saída será estatizá-las! Abraços…

  • Marcel Souza

    André, permita-me perguntar, se não achar conveniente responder, tudo bem. O thiago perguntou algo na linha da minha curiosidade (sobre você ou qualquer profissional trabalhar na Globo após uma entrevista dessas). Concordo quando você diz que os profissionais que fazem o que você faz estão anos-luz dessas decisões grotescas dos patrões, mas como fica as questões ideológicas e/ou éticas? Como pessoas que eram seus colegas (e não preciso citar nomes) se sentem ao não poderem dar uma opinião mais crítica, a ser duramente regido por códigos e convenções as vezes discutíveis? Só pra ficar em coisa nem tão polêmica, a questão do horário dos jogos por exemplo. Como você se sentiria se fosse “encorajado” (pra dizer o mínimo) a não dar a sua opinião?

    Tento fazer um paralelo talvez com outras profissões, mas acho dificil chegar numa conclusão.

    1 abraço!

  • Edouard Dardenne

    Alejjandro, é exatamente isso.
    As brigas partidárias por cargos políticos são um bom exemplo. Os partidos não brigam apenas porque queremroubar para si o dinheiro movimentado, mas porque boa parte desse dinheiro alimentará os caixas de campanha. É um Projeto de Poder.
    Claro que eles querem o dinheiro no bolso. Mas interessa tanto quanto, ou mais, a manutenção do Poder. É um ciclo vicioso. Rouba-se para permanecer no poder. Permanece-sela para roubar.
    Os estudos sobre as organizações pré-mafiosas e mafiosas demostram isso.
    É só prestar atenção. Nenhum deles rouba, faz um pé de meia, e vai embora. Eles não querem abrir mão do poder. Vicia.
    Se te interessar, dá uma lida em ‘Na linha de frente pela cidadania’, do Walter Maierovitch.
    Um abraço.

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