COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ANESTESIA GERAL

Seria interessante se pudéssemos fazer uma comparação. O percentual da população brasileira que era a favor da Copa do Mundo em nosso país, logo depois do anúncio em 2007, versus os números atuais.

Impossível saber o que o exercício revelaria, mas dá para imaginar uma queda sensível no apoio. Sim, a realização do Mundial no Brasil independe da opinião pública. As “autoridades” que comandam o processo, no governo ou fora, estão se lixando (pensei em usar outro termo…) para o que as pessoas pensam. Mas valeria a pena.

Por exemplo: como os atrasos nas obras dos estádios repercutem no pensamento de quem os via como “o legado” da Copa em nossas cidades? Será que alguém se assusta com os milhões e milhões dos orçamentos, jogados para o alto como se fossem centavos? Ou se incomoda com os claros sinais de que, contrariando tudo o que foi divulgado e prometido, as contas serão pagas com o dinheiro de impostos?

Outro temas: a tentativa de aprovação da “MP do sigilo”, aquela que faria com que os contribuintes pagassem a conta sem saber do valor, pegou bem? O adiamento, para outubro, da decisão sobre as sedes é bom ou mau sinal? Utilizar nossos aeroportos aumenta ou diminui a expectativa de um fluxo decente de passageiros durante o Mundial?

E seria obrigatório falar da reportagem feita pela revista Piauí com o presidente da CBF e, nunca se pode deixar de frisar, do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo de 2014. O perfil de Ricardo Teixeira, traçado magistralmente pela jornalista Daniela Pinheiro, teve qual impacto na opinião geral sobre o dirigente?

Se você não leu, leia o quanto antes. Se leu apenas as, digamos… asquerosas aspas divulgadas por jornais e sites, saiba que a matéria não é só o que Teixeira disse. Na verdade, é muito mais. Há sutilezas no texto, imunes a leituras apressadas ou malfeitas, que revelam mais sobre o personagem do que as grosserias ou “conceitos” ali publicados. Saborosas histórias desnudadas com habilidade pela autora da peça. Na eventualidade de você nutrir simpatia pelo principal cartola do futebol brasileiro, é possível que termine a leitura gostando mais dele.

Mas se você tem senso crítico e capacidade de colocar assuntos em perspectiva, a reportagem da Piauí o surpreenderá por outro motivo. Na sociedade brasileira, não apenas é possível viver ignorando toda e qualquer instituição, como também é possível oferecer bananas a elas, publicamente. Nas páginas da revista, o presidente da CBF esculacha o país. A três anos da Copa, para o mundo ler.

Estamos tão acostumados a conviver com absurdos (e diga-se: há coisas incomparavelmente piores acontecendo todos os dias) que ficamos anestesiados quando eles se repetem. Quem os comete, ri. A maioria aplaude ou finge que não viu. Pouquíssimos agem.

Há um email voando por aí contando que aquele ex-deputado federal, o que era ministro e deixou o governo recentemente, correu de um restaurante paulistano por causa das vaias dos clientes. Não posso crer, essas coisas não acontecem aqui.



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