COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

BRASILEIRA, DE FATO

Depois de muito, muito tempo, a Seleção Brasileira tem as peças para praticar um tipo de futebol que nos orgulhe. Talvez seja melhor dizer “a peça”, no singular, pois é a existência de Paulo Henrique Ganso que permite essa situação diferente.

Ganso, como já se disse e se escreveu tantas vezes, é um jogador à moda antiga. A caracterização pretende descrevê-lo como um presente do passado ao futebol de hoje. Um enviado da época (anos 80?) em que o jogo aceitava a presença de meias que atuavam, acima de tudo, com neurônios. O fato de PHG jogar e brilhar no século 21 é mais um testemunho de suas qualidades.

Quando se pensa em Ganso, Robinho, Neymar e Pato jogando no mesmo time (desculpe, não consigo encontrar um motivo para chamá-los de “quadrado mágico” – e acho que dá azar), a soma de talento ultrapassa o total das versões mais recentes da Seleção. A última, que esteve na Copa do Mundo de 2010, era configurada para ser impenetrável na defesa e letal no contra-ataque. Era extremamente competitiva, atualíssima nos conceitos do chamado “futebol moderno”. Mas não era brasileira, por DNA.

Aqui, é preciso explicar o seguinte: há quem se contente com times que vencem. Não os critico. Apenas tenho outra maneira de pensar futebol. Posso ver mérito num técnico que dirige a seleção suíça e se fecha para jogar “no erro do adversário”. Falta-lhe material humano para trabalhar de outro jeito. Mas não concordo com quem age assim por opção. Questão de gosto, claro. Prefiro times que vencem, jogando.

A Seleção teve Ganso, Robinho, Neymar e Pato, juntos, apenas uma vez. Na estreia de Mano Menezes, vitória por 2 x 0 em Nova Jérsei, em agosto do ano passado. Esse é o único jogo de PHG de amarelo. De forma que o time que inicia a Copa América amanhã não é um trabalho que engatinha. É um trabalho recém-nascido. A questão é o seu potencial e o ambiente em que ele crescerá.

Copa América não é teste mesmo. É competição oficial, em que o Brasil defende o bicampeonato. A análise instantânea que acompanha a Seleção em todos os torneios estará na Argentina, independentemente das boas relações entre Mano e quem tem por obrigação opinar sobre o time dele. Em 2007, Dunga chegou à final jogando feio e goleou a Argentina, na única boa apresentação na Venezuela.

Quem gosta de ver a Seleção Brasileira jogar tem muita coisa para torcer a partir de amanhã. Que o time se entenda após uma semana de treinos, que consiga juntar futebol vistoso e resultados, que jogadores talentosos não sejam sacrificados por “falhas de sistema”, que jogadores vitais (toc-toc-toc) não se machuquem. E mesmo se as coisas não andarem bem, que Mano não abandone a intenção de recuperar um estilo.

O futebol brasileiro tem marca, tem grife. Posse de bola, supremacia técnica, improviso, drible. Mesmo em tempos de sufocantes sistemas táticos, não há nada mais valioso do que ser o melhor, o mais capaz. E não há nada mais bonito do que ser o melhor com originalidade, sem cópias.

A Seleção precisa jogar o futebol que é nosso.



MaisRecentes

Sete dias



Continue Lendo

Em voo



Continue Lendo

Não estamos prontos



Continue Lendo