COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O PAÍS DO PRESENTE

Pronto! Chegou o dia. Pode se enrolar na bandeira e sair pelas ruas, com muito orgulho e com muito amor. É hora de enterrar essa conversa complexada sobre nosso atraso, nossos vícios, nossos problemas. Chega! O mundo inteiro agora sabe que somos vanguarda, estamos na linha de frente, o país do presente. Ou será que você não percebeu os sinais?

Recentemente, reescrevemos as leis internacionais e demos uma aula de diplomacia no caso Battisti. Exibindo nossa vocação pioneira, concedemos liberdade a um criminoso condenado à prisão perpétua na Itália. Produzimos uma nova reforma gramatical ao transformar “assassino” em “ativista político”. Afinal, não é porque o cara matou quatro pessoas “por ideologia”, num período em que seu país vivia sob regime democrático, que os italianos vão nos dizer o que fazer (essa prerrogativa só os cubanos têm).

Mas nosso grande momento chegou no meio da semana, com a brilhante aprovação da Medida Provisória que esconde os valores de obras para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Mais um golpe genial dos nossos representantes, novamente com um bônus gramatical. À legalização da malandragem, deu-se o nome de “flexibilização de licitações”.

Eu sei, já se esperava que fosse assim. Mas é preciso aplaudir. Nossa Câmara dos Deputados se distinguiu ao produzir uma situação inédita, única. Gastos públicos não são mais públicos, a Constituição não vale nada. A chamada “indústria do esporte” fará o preço, nós pagaremos e os órgãos de fiscalização saberão apenas do que for “conveniente”. Bernard Madoff está enciumado.

Ficou mais fácil entender por que organismos sérios (e de imagem inabalável) como a FIFA e o COI escolheram o Brasil para sediar os dois principais eventos esportivos do mundo. Um país com políticos capazes de legitimar a corrupção deve ser um lugar especial. Vamos para lá, então. Na história da Copa do Mundo, jamais houve uma declaração de amor tão avassaladora quanto a frase do deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP), líder do governo na Câmara: “Temerário é não ter a Copa”. Não há limites para nossa disposição, estamos fáceis, fáceis.

Claro que a aprovação da MP não agradou a todos. Sempre há aqueles que não gostam de nada e criticam tudo. Aqueles chatos que se posicionaram contra a realização desses eventos maravilhosos no Brasil, que acham que construir escolas é mais importante do que levantar estádios, que um hospital vale mais do que um velódromo. Os mesmos chatos que não acreditam em nossos excelentes dirigentes esportivos, heróis nacionais. Chatos que se escandalizaram só porque os Jogos Panamericanos de 2007 ficaram 800% mais caros do que o previsto. Não percebem que se as licitações fossem flexibilizadas à época, e os orçamentos secretos, todo mundo ficaria feliz. Antipatriotas, queixosos da vida.

Chega de reclamar. Vamos viver essa energia, essa paixão. Agora ninguém nos olha de cima para baixo. Vá buscar sua bandeira, pinte seu rosto, sorria. Celebre a recuperação de sua auto-estima, seu trouxa.



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