COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

OBRIGADO PELAS MEMÓRIAS

Era para ser um domingo tranqüilo em Paris. Um dia para encerrar os trabalhos em Roland Garros a tempo de aproveitar a primavera na cidade mais bela do mundo. Ligar para a redação, saber que o material chegou sem problemas e tratar do jantar. Escolher o lugar, sentar numa mesa na calçada, admirar o pôr do sol quase às 10 da noite.

Não, um desconhecido americano não atrapalharia planos tão importantes. Gustavo Kuerten daria a ele a honra de uma derrota rápida e indolor. O rapaz se sentiria homenageado apenas por estar na mesma quadra de um bicampeão. Ouviria o próprio coração batendo, tentaria conter os tremores nas pernas e entender o vazio no estômago. As mãos úmidas e a garganta seca seriam as principais lembranças.

Seu nome era Michael Russell. Naquele domingo, aos 23 anos, ele ostentava a posição número 122 do ranking. Tinha superado o torneio qualificatório do grand slam francês e vencido três jogos na chave principal. Um deles, contra o espanhol Sergi Bruguera, duas vezes campeão do torneio, abriu alguns olhos. Até se notar que Bruguera vencia por 2 sets a 1 quando abandonou a quadra, por lesão. O encontro de oitavas de final com Kuerten, número 1 do mundo, seria seu retorno à Terra.

Paris estava pronta para coroar o brasileiro pela terceira vez. O carisma de Kuerten já tinha conquistado os franceses, enquanto seus golpes agressivos do fundo da quadra faziam o mesmo com os adversários. A esquerda com topspin era uma aula. Deslocava os oponentes para fora da quadra em ângulos impossíveis, preparando a finalização dos pontos com certa dose de maldade. Até as estátuas de Brugnon, Borotra, Cochet e Lacoste, na “Praça dos Mosqueteiros”, diziam que Guga seria campeão.

Mas o recado não chegou a Russell. O jovem tenista americano se recusou a fazer seu papel. Apesar do perfil pneumático, exibiu uma elasticidade de dar inveja a bailarinas. Negou-se a acreditar em bolas perdidas, ofereceu à quadra Philippe Chatrier a oportunidade de uma das maiores surpresas de sua história: 6/3, 6/4, 5/3, saque e match-point.

Na tribuna de imprensa, jornalistas brasileiros se olharam, pasmos. Houve quem pensasse se haveria lugar no voo de volta, no dia seguinte, uma semana antes do previsto. Não, isso não está acontecendo. Mas estava. O grande Gustavo Kuerten se agarrava a seu último ponto em Paris. A mente de Michael Russell tentava processar a tarefa de vencer o jogo. O que se seguiu talvez sejam os mais tensos 36 segundos da carreira do maior tenista brasileiro em todos os tempos.

Vinte e seis golpes. Houve quem não conseguisse olhar. O silêncio era tal que se poderia ouvir a queda de um lenço. No décimo-sexto golpe, uma direita em paralela de Guga saiu um pouco mais longa do que ele gostaria. Limpou a linha de fundo, produzindo um murmúrio do público. Poucas trocas depois, uma esquerda cruzada abriu a quadra para uma direita vencedora. Iguais em quarenta.

Foi demais para Russell. Kuerten fez 7/6, 6/3 e 6/1, fechando o jogo em quase três horas e meia. A final aconteceria no domingo seguinte, que fez dez anos ontem. Mas Guga ganhou o torneio naquele ponto épico. Que momento.



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