COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

POÇA DE LAMA

Perdoe-me por ter gostado do que aconteceu na Fifa nessa semana.

É o ápice da ingenuidade imaginar que organizações privadas (palavra apropriada) e lucrativas como a dona do futebol mundial – que, diga-se, se apropriou do que não lhe pertence – um dia serão limpas. É equivalente a acreditar que o COI, tantas vezes citado como exemplo de auto-higienização, é um órgão modelo em seus processos de escolha de sedes dos Jogos. Enquanto o dinheiro circular por esses clãs da forma que circula, seus membros sempre terão um curioso conceito de corrupção.

De fato, não creio que veremos o dia em que a Fifa abrirá seus arquivos, mostrará suas contas e liderará uma nova era no futebol mundial. Ninguém lá está interessado nisso. Suas figuras centrais são senhores feudais de idade avançada, mais preocupados em apagar rastros, esconder fundos, garantir o silêncio que manterá a engrenagem funcionando como sempre funcionou. O futebol não importa.

O que me conforta é ver que a lama está exposta. E que é considerável a chance de respingar aqui e ali, dependendo do que acontecer na Justiça da Suíça nos próximos meses. Mas, antes, assistiremos ao show que já está em cartaz mais perto de nós, no Caribe.

O mestre de cerimônias é Jack Warner, presidente suspenso da Concacaf. Não preciso descrevê-lo. Plastifique seu computador, faça um Google no nome e verá mais do que precisa saber. O que aconteceu com Warner é o que, desde que o mundo é mundo, acontece com usurpadores de poder. Traição. Chuck Blazer, seu secretário-geral, mandou um advogado americano fazer um dossiê com denúncias de corrupção na confederação. O dossiê alega que Warner e Mohammed Bin Hammam, também suspenso, gastaram US$ 1 milhão para comprar os votos de dirigentes caribenhos, na eleição para presidente da Fifa.

O que Blazer sabe sobre Warner deve ser interessante. Mas perde a graça perto do que Warner sabe sobre Blatter. O dono do futebol no Caribe não parece ser o tipo de sujeito que cairá em silêncio, ou desacompanhado. Já avisou que, amanhã, divulgará o email que enviou a Blatter logo depois da reunião entre os cartolas caribenhos e Bin Hammam, então candidato ao pleito na Fifa. O encontro foi organizado por Warner e seria uma das provas do suborno.

É um filme de ação. A empresa de um ex-diretor do FBI, Louis Freeh, foi contratada pela Fifa para investigar os dois dirigentes suspensos. É lógico que um dos primeiros passos será conversar com os cartolinhas praianos que teriam vendido seus votos. Talvez eles estejam interessados na boa e velha delação premiada.

Enquanto isso, os movimentos mais importantes se darão na Suíça. Como revelou recentemente o programa “Panorama”, da BBC, os documentos do acordo secreto sobre a falência da ISL (antiga parceira de marketing da Fifa) têm sido alvos de uma batalha silenciosa. Os dirigentes – você sabe quem são – que tiveram de devolver propinas à Justiça suíça precisam evitar a divulgação dos papéis. Há quem tenha certeza de que, cedo ou tarde, eles aparecerão.



  • Conrado Nilo

    O tapete tá ficando pequeno pra tanta sujeira!

  • Para mim nao faz nenhuma diferenca, nao pago impostos no Brasil e nao vivo deste cadaver perfumado que eh o Futebol.

    AK: Que legal…

  • Diogo

    “Organizações privadas (palavra apropriada) e lucrativas” são necessariamente sujas?

    O jornal O LANCE, que é privado e lucrativo, e que paga o seu salário, também é sujo?

    Os Ministérios em Brasília, públicos e não-lucrativos, são limpos?

    Vai pra casa estudar, Kfouri Filho!

    AK: “organizações privadas (palavra apropriada) e lucrativas como a dona do futebol mundial”. Que parte de “como a dona do futebol mundial” você não entendeu? Você é ignorante ou apenas um chato? Um abraço.

  • Anna

    Adoro o andrew Jennings. Vou começar a ler o livro Jogo sujo assim que acabar um pra pós.

  • Leonardo Pires

    Boa, André, tava faltando mesmo um texto seu sobre o assunto, como já havia dito. Faltaram, todavia, os nomes dos bois, mesmo sabendo quem eles são.

    AK: Então não faltaram. Um abraço.

  • André, diante de tudo que estamos vendo, qual a chance das cidades brasileiras estarem pagando para ser sede da abertura da Copa?

  • Renato Mello

    André, bom dia! Gostaria de uma informação, por favor: estou alucinado para ver o “Panorama”, da BBC, mas gostaria de saber se o vídeo do programa já está com legendas. Infelizmente,AINDA não me viro no inglês… rs! O Juca Kfouri tinha colocado o vídeo do programa em seu blog, mas sem legendas… se souber de algo e puder colocar aqui (até mesmo fazendo um post a respeito, se possível), agradeceria. Creio que as informações deste programa devem chegar ao maior número de pessoas possível.
    Grande abraço,
    Renato Mello.

  • Marcel Souza

    O problema de tudo isso é que mesmo que se faça uma limpa nessa sujeirada toda, existiriam pessoas de bem pra assumir o que ficar? O meio me parece que está tão corrupto e sujo que se começar esse processo de limpeza hoje vai demorar ainda muitas gerações pra coisa ficar certa (se ficar). Abraço,

  • Marcos David

    Essa “lama exposta” que você se referiu é um bonito adjetivo, pois se mexer vai feder muito, rsrs!

  • Leonardo atleticano

    O triste disso tudo, é ver bilhões sendo jogados no ralo, é ver tanta roubalheira e corrupção. E ao mesmo tempo ver bombeiros sendo presos, pois não aguentam mais arriscar suas vidas em troca de 900,00 reais por mês. André, o nível de safadeza, falta de respeito, falta de ética, pilantragem em geral, está alto demais. tudo caminha para a anarquia em nosso País com muita velocidade.
    Meus filhos tem a idade dos seus, minha preocupação com o que há para eles no futuro cresce a cada dia.

  • Paulo Pinheiro

    Veja. Numa democracia você elege seus representantes. Se eles não honram seu voto terão a resposta nas próximas eleições. Estão lá para servir a população.

    No caso da FIFA a coisa é mais complexa. Se você trouxer até o chinelo do pé, tudo começa quando sócios de um clube elegem seu presidente. Esses elegem presidentes de ligas e federações, que por sua vez elegem o presidente da confederação (e é mais complexo ainda que isso… tem peso de voto maior dos clubes X, Y e Z, …).
    Os representantes das confederações é que elegem o presidente da FIFA (aqui também tem mais alguma complexidade omitida deste texto).

    Dito isto, tem mais uma diferença fundamental: no caso de cargos públicos temos três poderes que se fiscalizam mutuamente, tudo em função de um povão que é o maior interessado e quem alimenta a máquina do governo com seus impostos.

    Aqui é que tá a ironia da história. No caso do futebol quem alimenta a máquina passa LONGE de todo esse processo. O torcedor que traz a renda. O consumidor que compra das empresas, que fomentam os meios de comunicação que compram os direitos…

    Moral da história, a única coisa que você, de casa, pode fazer é deixar de ir ao estádio ou desligar a TV!

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