COLUNA DOMINICAL



Nota 1: puxei o plug na alta madrugada de sábado para domingo, e só me reconectei hoje. Por isso a coluna chega com um dia de atraso.

Nota 2: o texto, obviamente ficou antigo. Foi publicado para manter o costume.

Nota 3: respondi as perguntas que chegaram em comentários no post do jogo. Passem lá.

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(publicada anteontem, no Lance!)

COMO ERA?

Conhecer Wembley sempre foi um sonho. O lendário estádio londrino era o Palácio de Buckingham do futebol. Conferia ao esporte um ar aristocrático, religioso até. Nas fotos e imagens pela TV, Wembley parecia uma catedral, era como tantas e tantas igrejas espalhadas pela Europa, pontos turísticos obrigatórios seja qual for o motivo da visitação.

De certa forma, o sonho acabou em 2002, quando o que existia desde 1923 foi demolido para dar lugar a uma nova arena. Lembro das cenas dos guindastes demolindo as icônicas torres e da sensação de que aquilo era um terrível erro.

Nada tenho contra a modernidade, tudo a favor. Apenas acho que certos símbolos devem ser preservados. Que lugares onde aconteceram fatos importantes para várias gerações não podem simplesmente desaparecer. Eles têm vida.

Por isso, quando o novo Wembley surgiu, mesmo apesar da vontade de conhecer o que ergueram no lugar da antiga catedral, nunca me interessei em fazer uma dessas visitas guiadas. Estádios de futebol, por mais belos e históricos, são apenas construções dormentes quando nada acontece dentro deles. É brutal a diferença entre ir a um estádio e ir a um jogo.

É possível ver Wembley do estacionamento do hotel. A estrutura gigantesca, o arco que substituiu as torres como principal característica arquitetônica, a fachada imponente. A aparência remete imediatamente às mais novas arenas de futebol americano. De fato, o novo Wembley não é só um estádio. É uma enorme casa de espetáculos.

Uma das boas coisas dessa profissão é que ela te proporciona sensações. Claro, você vai a lugares, vê coisas, testemunha momentos especiais. Lembranças ficam guardadas, em imagens ou apenas na memória. Mas o que fica impresso em algum lugar, da forma mais profunda, é o que se sente.

Não falo necessariamente de grandes emoções. É apenas a maneira como a mente registra esses momentos. É difícil de explicar e mais difícil ainda, talvez impossível, de recuperar “o arquivo”. Mas creio que quando lembramos de cenas que nos marcaram, estamos tentando reviver o que sentimos quando elas aconteceram.

Passei os últimos dias imaginando como seria entrar no novo Wembley, e foi exatamente como antecipei. O lugar é belíssimo, vasto, imponente, impecável no jeito inglês de ser e parecer nobre. Exala importância. Em sua configuração para futebol, é realmente o cenário perfeito para um jogo decisivo. Mas não é Buckingham, ou a catedral. Os efeitos da transformação ficam evidentes no momento em que nos perguntamos (e não dá para evitar a pergunta) “como será que era antes?”. A resposta só tem quem esteve no velho palco.

Mas essa ainda não foi uma visita “oficial”. Durante os treinos de Barcelona e Manchester United, ontem, só havia jornalistas do lado de fora do campo. Um ambiente em que faltava algo. Não tinha clima, nem jeito, nem barulho de jogo. O jogo será hoje, final da Liga dos Campeões da Uefa.

Dia para conhecer o novo Wembley. E lamentar não ter conhecido o antigo.

 



  • Thadeo Pinhão

    André,

    Uma pergunta dentro desse tema: qual a sua opinião sobre o que estão fazendo com o Maracanã?

    Um abraço,
    Thadeo.

    AK: Um crime hediondo. Um abraço.

  • Exatamente o que pensei sobre o Maracanã. Inacreditável. Sorte para quem conseguiu assistir ao menos um jogo no “Maior do Mundo”. Bom, pelo menos ele será “ecologicamente correto”, já que o resto estará tudo errado…
    Um abraço.

  • Leandro Azevedo

    Me senti mais ou menos assim em relacao ao Yankee Stadium… por mais que o novo seja luxuoso, muito bonito, o “verdadeiro” Yankee Stadium tinha a tradicao, aquele senso de historia dentro dele… e ficou ainda mais assim quando os dois estadios ainda estavam lado a lado.

  • Santiago Carrau

    André, tenho 35 anos e em 1999 morei um ano em Londres para aprender inglês e trabalhava de qualquer coisa, pra pagar as contas. Pois fui trabalhar para uma grande empresa de catering que, entre outros locais, prestava serviços no antigo Wembley. Algumas vezes trabalhei como garçom nos salões de café, debaixo das arquibancadas (onde não via-se bulhufas, obviamente). Mas eis que um dia me escalaram para um local que se parecia como uma “sala de jantar em forma de arquibancada”, com as mesas viradas para o campo, na posição mais nobre do estádio, na lateral do campo, no alto, mais ou menos na linha do meio de campo, para nada mais nada menos que a final da FA Cup de 99 entre Manchester United e Newcastle, é mole? Eu me sentia quase que um “André Kfouri dos garçons”, pois estava assistindo o jogo de graça, do melhor lugar do estádio, e ainda estava ganhando umas 5 ou 6 libras por hora de “trabalho”… foi demais… Depois ainda trabalhei num jogo amistoso de rugby entre Inglaterra e País de Gales (vencido pelo País de Gales no finalzinho, imagine a cara dos ingleses) e em outros eventos menos importantes… Desta viagem fiquei com o aprendizado do inglês bem razoável que me ajudou na minha profissao atual, pois trabalho com comércio exterior, e experiências memoráveis como a que acabo de te relatar. Abraço!

  • Como você se sentiu com o jogo rolando?

  • Luís Fellype

    Aí André.Depois desse frenesi barcelonista tomando conta do mundo,expandindo ainda mais o reconhecimento do futebol aonde quer que seja,não podemos esquecer o que está acontecendo lá na terra do Tio Sam.
    “The Finals” da NBA começam HOJE.Por favor,faça um post a respeito,seu palpite,suas análises.Você também manja desse esporte.

    Valeu.

  • Marcos Vinícius

    André,não concordo que seja um crime hediondo,como vc disse,o que estão fazendo com o sexagenário Mário Filho.O que estão fazendo é com que ele atenda aos padrões da entidade máxima do futebol para receber jogos do quilate de uma Copa do Mundo.Já começaram a fazer isso quando,infelizmente,muito infelizmente mesmo,acabaram com a geral.Geral era sinônimo de festa,de torcidas adversárias,não inimigas,ocupando o mesmo espaço.Era o lugar do cara que ia ao jogo fantasiado,era o lugar do “Guerdal”,lendário torcedor do Flamengo.Acabaram com a geral em prol de um bem maior.E estão remodelando o Maraca pelo mesmo motivo.

    Concordo com vc em número,grau,gênero e espécie quando vc diz que é brutal a diferença entre um estádio vazio e o mesmo em dia de jogo.

    Com todo o saudosismo que me é permitido…:

    Janeiro de 2000.Mundial de Clubes da FIFA.Vasco 3×1 Manchester United.

    Naquele dia quem estava no estádio arrepiou-se.Foi algo pra guardar pro resto da vida.

    E eu estava lá.

  • Anna

    Não conheço nem Wembley velho, nem o novo, mas lendo a coluna foi como se lá eu estivesse. Obrigada!

  • Cássio Parra

    Também acho que o antigo Wembley deveria ser fantástico e histórico, mas esse deve ser sensacional.
    Deu para ir a pub´s por lá ? encontrou Mick Jagger ou Eric Clapton novamente ?

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