COLUNA DOMINICAL



(Publicada ontem, no Lance!)

O PIOR É QUE É SÉRIO

O drama de escrever sobre assuntos relacionados a políticos brasileiros é que, salvo raríssimas e honrosas exceções, o texto tem apenas duas opções de roteiro: policial ou tragicômico.

Se esta fosse uma coluna sobre o ex-deputado federal que ficou multimilionário durante seu mandato, escolheríamos a rota policial. Seria, no entanto, um considerável desvio da vocação deste jornal. Por isso fizemos a opção pela tragicomédia, pois a semana nos brindou com um material que é bom demais para ter sido inventado.

As notícias sobre as obras dos estádios para a Copa de 2014 são cada vez mais assustadoras. Estamos construindo arenas das quais não precisamos, a custos que não têm explicação, com dinheiro que deveria ser utilizado para uma infinidade de projetos mais urgentes. Os cronogramas estão tão atrasados que parecem ter sido feitos por gente que não é do ramo. Ou talvez tenham sido feitos propositalmente para não serem cumpridos. O mesmo ocorre com os orçamentos. Claro que uma coisa está ligada à outra. E o dinheiro de impostos jorra como se fosse um poço de petróleo recém-aberto.

Nossos representantes, quando não aplaudem a festa, assistem a tudo como se fosse absolutamente normal num país subdesenvolvido como o Brasil. A CPI (sim, proposta por um político que não inspira nenhuma confiança, mas que não deveria ser confundida com ele) que poderia esclarecer alguns pontos interessantes foi tranquilamente abafada por visitas do presidente da CBF à Brasília. Faltaram assinaturas.

Entre elas, a de um deputado federal que concebeu um Projeto de Lei transformador. Jovair Arantes (PTB-GO) está indignado com os rumos da Seleção Brasileira de futebol. É questão de soberania nacional para ele. Muitos jogadores “estrangeiros” estão tomando o lugar de atletas que atuam por aqui, vítimas de claro preconceito.

Mas que a nação, consternada, se acalme. O nobre deputado Arantes tem a solução: um sistema de cotas para quem joga no exterior. “Estrangeiros” só poderiam representar 10% do total de convocados da pátria de chuteiras. Perguntado por que arregaçou as mangas e se debruçou sobre o tema, Arantes disse ao Lancenet! que “o futebol é uma coqueluche da sociedade”.

Não, ele não está brincando. Não mesmo? Em conversa com o portal UOL, Jovair Arantes nos iluminou sobre as motivações de seu projeto: “Quando sai uma convocação, vem Gomes, que joga não sei aonde, Julio Cesar, que joga não sei aonde e Euller, enquanto o Rogério Ceni, que é um baita jogador, não foi convocado por discriminação absoluta”. Memorando para o deputado: Euller, o filho do vento, não aparece numa convocação há mais de uma década.

Mas o argumento definitivo é esse aqui: “A grande prova disso foi o Afrânio, da Dinamarca. Na última tinha um ‘não sei o quê Luiz’. O Benitez só foi chamado quando foi jogar lá fora”. Legenda: Afrânio, da Dinamarca, é Afonso, que Dunga convocou quando jogava na Holanda. O ‘não sei o quê Luiz’ é David Luiz, do Chelsea. E o Benitez é Ramires, que também joga no Chelsea, mas foi convocado pela primeira vez em maio de 2009, quando estava no Cruzeiro.

Pare de rir. É triste.



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