CAMISA 12



(Publicada ontem, no Lance!)

ANDRÉ CABEÇA BOA

A essa altura, suspeito que você já saiba tudo sobre André Villas Boas. Os rabiscos que chamaram a atenção de Bobby Robson, a formação como técnico aos 17 anos, o trabalho com José Mourinho e, claro, o sucesso com o Porto, que ontem conquistou a Liga Europa da Uefa.

Claro que você também sabe que o time dele ganhou o Campeonato Português (invicto), ganhou a Supercopa de Portugal e deve ganhar a Taça de Portugal, no domingo.

E você há de imaginar que Villas Boas, o técnico de futebol mais falado do momento, não é um sujeito comum. Quem faz o que ele fez, com apenas 33 anos e sem ter sido jogador, tem de possuir alguma coisa que não está ao alcance da maioria.

Villas Boas não é diferente apenas por sua história e por seu, já notável, currículo. É diferente também pelo que diz. Veja só: “Eu não vejo o futebol de forma tão tática, como digo muitas vezes. O futebol e o esporte são momentos de transcendência e de grandes impactos motivacionais. Obviamente que as organizações são decisivas e treinar bem é importante, mas no futebol chega-se ao sucesso das mais variadas formas. Chega-se sendo um mau líder que treina bem e chega-se sendo um bom líder que treina mal”, declarou AVB em sua entrevista coletiva pré-jogo, em Dublin.

Um técnico que não vê o futebol de forma “tão tática”? Aí está algo novo, refrescante até. E a referência aos diferentes métodos de trabalho, releitura da conhecida dualidade entre o treinador “boleiro” e o “estrategista”, não deixa de ser interessante. Porque colabora para o entendimento do futebol de maneira mais simples e não supervaloriza o papel dos próprios técnicos.

Por falar em método: “Acima de tudo, eu gosto que os jogadores se sintam livres. Defendo até a morte que, para um jogador se exprimir no seu máximo potencial, ele tem que ser libertado. Dentro de uma organização, mas tem que ser libertado nas escolhas que faz em campo”, disse Villas Boas ao repórter André Plihal, da ESPN Brasil. Novamente, simplicidade.

E a lista de diferenças é longa. Villas Boas não gosta de ser comparado com Mourinho, não é auto-referente, não precisa de holofotes. A multa rescisória de seu contrato com o Porto é de 15 milhões de euros, maior do que a de muitos jogadores.

Mas é inevitável que ele trabalhe em outro lugar. Que tal essa aqui: “Pep Guardiola é uma inspiração para mim, todos os dias. Inspiro-me na filosofia do Barcelona, de Cruijff, de Rinus Michels. Lamento apenas não ter conquistado o troféu praticando um melhor espetáculo”.

André Villas Boas considera que o trabalho como treinador é muito desgastante no aspecto emocional. Pretende trabalhar no máximo mais vinte anos. Depois, quer ser jornalista esportivo.

Está fazendo tudo certo.



  • Como voce disse – interessante, e refrescante! E legal ver algo diferente, um tecnico com um sucesso enorme numa temporada mas que nao tem afetacao….

  • Leonardo atleticano

    André, sem dúvidas de que é um diferenciado. Diferenciada da mesma forma foi a atitude do Porto.
    Aqui no Brasil, são sempre os mesmos medalhões, poucos resultados e muita lábia. O Coritiba deu oportunidade para um cara legal, sem vaidade, sem holofotes e simples e se deu muitíssimo bem.

  • Leandro Azevedo

    E o Barcelona acaba de achar o substituto de Pep Guardiola…

    E bom realmente ouvir de um treinador que quer liberdade em campo, e que nao joga atrelado a um esquema tatico, um posicionamento pre-determinado. Uma pena que alguns jogadores brasileiros que estejam querendo sair do Brasil para jogar na Europa, vao preferir o dinheiro frio da Ucrania a uma bela vitrine no time Portugues, e um treinador que parece ser perfeito para o “jeito brasileiro” de jogar.

    Abraco

  • Willian Ifanger

    Bom, se o Barcelona perder o Pepe, já sabe quem continuaria o legado com dignidade.

    Realmente um alívio ver um profissional falando de futebol sem encher a entrevista de códigos, ou números, ou todo aquele jargão chato criados nos últimos tempos.

    Que muitos sigam seus passos.

  • Nilton

    Acho que deveriamos esperar a terminar a proxima temporada, para ver se realmente é um diferenciado ou se foi o encontro da sorte com o trabalho.

    Mas com esta visão de trabalho, bem que ele poderia treinar a seleção Canarinho.

  • Anna

    Eu gosto do André Villas Boas. Ele vai longe. bom final de semana, Anna

  • Leonardo Pires

    Pô, André, e ser jornalista esportivo, no aspecto emocional, é moleza?

    AK: Moleza, não. Mas certamente ser técnico é pior. Um abraço.

  • Como diz o Tostão, o futebol muitas vezes é decidido por coisas que estão muito além das estratégias do treinador. Villas Boas está certo quando diz que tem de haver liberdade para o jogador, até para que ele passe a ter responsabilidade plena sobre sua atuação.

    Tem muito jogador que adora que o treinador diga exatamente tudo o que ele tem de fazer, porque assim ele não precisa gastar massa cinzenta para imaginar o que seria melhor para cada situação de jogo.

    abraços!

  • Edney

    Olá André, como sabe eu moro em Portugal. Na verdade, essa tal liberdade é fruto do elenco que o FCP montou para essa temporada, e que diga-se, já foi trabalho por ele também. Do meio para frente, os jogadores realmente acabam por aparecer em inversões de posição bem interessantes, mas o time tem uma estrutura tática bem definida.. não vamos confundir o que você diz como liberdade, com bagunça.. não é cada um faz o que quer e dá certo, claro. O time marca muito quando não tem a posse de bola, tal como o Barça faz, e no jogo ofensivo, peças como o Hulk e Falcão foram impressionantes… mas também tem que realçar a condição física do time que permite fazer isso.. o FCP terminou a época jogando com a mesma intensidade com a qual começou.. fisicamente, sobrou. Tecnicamente, então, foi covardia. E o Presidente, o famoso e folclórico Pinto da Costa, prometeu que ninguém sairá, e que vão em busca da Champions ano que vem. Com alguns reforços, eles podem ficar ainda melhores… é o que alguém disse ai nos comments, vamos ver ano que vem. Mas, realmente Villas Boas é diferenciado e fez um grande trabalho. Abraço, Edney

  • Marcos Vinícius

    Claro que,como dizem,cada caso é um caso.Mas cabe a comparação.

    Washington Rodrigues,o Apolinho,um dos mais conceituados jornalistas esportivos do Rio de Janeiro,fez caminho inverso ao que Villas Boas pensa em fazer.Foi,durante décadas,jornalista esportivo.Depois tentou a carreira de treinador,dirigindo o Flamengo,em 95.Tinha em seu elenco “só” Athirson,Sávio,Edmundo e Romário,que tinha acabado de ser eleito o melhor jogador do mundo.

    Infelizmente a carreira do Apolinho como treinador não obteve tanto sucesso como a sua de jornalista,o Flamengo,justamente no ano de seu centenário,ficou “sem ter nada”,nem o Cariocão ganhou,foi vice para o Fluminense,e ele voltou à sua antiga profissão.

    É impossível dizer se Villas Boas terá tanto sucesso em sua possível carreira de jornalista como está tendo na de treinador.

    Mas o sucesso de uma não garante o mesmo resultado na outra.

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