COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

VAMOS JOGAR BOLA?

Conheço gente que “culpou” Lionel Messi por estragar o segundo jogo das semifinais da Liga dos Campeões. Se o argentino não tivesse feito um gol magnífico (ofuscado pela enorme quantidade de bobagens com as quais se perdeu tempo nos últimos dias) no final do clássico de quarta-feira, o jogo de volta não teria se esvaziado.

Sim, porque José Mourinho, em seu monólogo vitimista na sala de imprensa do Bernabéu, declarou o confronto como decidido. E mesmo que a capitulação tenha sido mais uma tentativa de golpe midiático, o técnico do Real Madrid está correto num ponto: se seu time jogar no Camp Nou como fez em casa, o confronto estará mesmo decidido.

Deixemos as opiniões de lado, por um momento. O sistema que Mourinho criou para parar o Barcelona já mostrou que é capaz disso. Parar. Para fazer mais, é preciso contar com a ineficiência e a frustração do Barcelona. Com a complacência do árbitro e a inexistência do cartão laranja. E com a execução perfeita do plano de, finalmente, jogar um pouco de futebol nos últimos minutos. Assim, dá para ganhar de 1 x 0. Mas sabe-se que esse placar não serve.

A ideia foi exposta pelo próprio Mourinho, em todos os detalhes planejados para o primeiro jogo. Segurar o 0 x 0 até o segundo tempo, quando o adversário estaria cansado e descontente. Colocar Adebayor para aumentar o perigo da bola alta. E nos 20 minutos finais, utilizar Kaká mais perto dos dois atacantes para tentar o gol da vitória. Deu errado porque o ator principal dessa maneira de jogar teve de sair de campo.

Pepe é o Messi deste Real Madrid (sim, escrevi isso mesmo, e é verdade). Sem o luso-brasileiro, Mourinho não consegue estacionar um ônibus na intermediária e travar, romper, rasgar o jogo do adversário reconhecido como superior. Não se pode dizer o mesmo de nenhum outro jogador do elenco mais caro da História do futebol. Se você pensa como eu, aí está a prova do absurdo.

Que Real Madrid, então, veremos na terça-feira? O fato de Pepe não jogar é um sinal de escalação diferente. Mas ainda assim pode ser um time que insista em negar seu código genético, desperdiçar seu investimento e ficar olhando o Barcelona praticar o que chamamos há séculos e séculos de futebol.

Pode acabar em outra goleada no Camp Nou? É um risco. Mas pode produzir o jogaço que os últimos não foram. Claro que, a Mourinho, o que se pensa do jogo importa pouco. Mas chegará um momento em que os milhões de euros que recebe, e a fama que tem, pesarão contra ele quando se concluir que seu time apenas especula em campo e reclama do árbitro. “O Especial” não foi contratado para entregar esse produto.

Que vá a Barcelona jogar, para que o último “El Clásico” seja o que o mundo espera. Que utilize os Kakás, os Cristianos e os Higuaíns. Que não se satisfaça com 28% de posse de bola. Que siga o exemplo de seu alter-ego Pep Guardiola, que quando foi perguntado se o Barcelona, desfalcado, iria ao Bernabéu para empatar, respondeu: “não nos ensinaram a fazer isso”.

Afinal, que outra saída Mourinho tem?

 



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