DISPENSAS (e uma sugestão)



Sem entrar no mérito do que aconteceu no Atlético Mineiro, é preciso lembrar que não é todo dia que um clube abre as portas (de saída) para dois dos principais nomes de seu elenco.

Quem roda, normalmente, é o técnico.

Quando se anuncia a demissão de um treinador, sem que a razão seja evidente nos resultados, se diz que “chegou a hora de uma mudança no trabalho” e/ou similares.

É quando jogadores e técnico não têm mais um relacionamento produtivo. E nesse cenário, as famosas “igrejinhas” são frequentes.

Dirigentes tomam a decisão mais simples: cortam apenas uma cabeça e começam de novo.

Alexandre Kalil, presidente do Atlético, escolheu outro caminho. Revelou as manifestações internas de descontentamento com treinadores, disse que Zé Luis e Ricardinho são reincidentes e explicou sua decisão.

Suspeito que os outros jogadores do time tenham sido consultados. Suspeito, também, que as dispensas sejam um recado a quem gosta desse tipo de comportamento.

Ricardinho e Zé Luis devem oferecer suas versões da história.

Independentemente disso, dessa vez, o técnico venceu.

É raro.

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Falando nisso, há situações em que nem as vitórias garantem o emprego de um treinador.

Geninho foi demitido do Atlético Paranaense com 83% de aproveitamento em 10 jogos.

Repetindo: 83%.

O raciocínio que leva à demissão de um técnico que venceu 8 jogos, empatou 1 e só perdeu 1 é algo que desafia a minha compreensão.

Em todo caso, o diretor de futebol do Atlético, Valmor Zimermann disse ao Lance! de hoje que “o aproveitamento de Geninho foi ótimo”, e que, se fosse o técnico, “também estaria chateado”. Zimermann também declarou que “por ele, Geninho não sairia”.

O dirigente explicou que a decisão e a ordem de demitir Geninho foram do presidente Marcos Malucelli.

Adílson Batista já começa a trabalhar hoje e, imagino, deve dar mais detalhes sobre como sua contratação se desenrolou.

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Como sugestão de leitura, o blog reproduz abaixo a coluna do jornalista argentino Juan Pablo Varski, publicada na Folha de S. Paulo de hoje.

De vez em quando, alguém escreve exatamente o que a gente pensa sobre um determinado assunto.

Varski, que é colunista do La Nación, escreveu exatamente o que penso sobre Juan Román Riquelme.

SEM DISCUSSÃO

RIQUELME É o jogador mais discutido da Argentina. Deveria ser indiscutível. O futebol deveria ser jogado como Román o joga. Sempre sabe o que fará com a bola antes de recebê-la. Sempre faz aquilo que a jogada requer. Riquelme vive do passe. Como recurso defensivo, para que seu time mantenha a posse de bola e a vantagem no resultado. E, sobretudo, para traduzir a posse de bola em perigo, com as adagas que crava no coração da defesa rival.

“Prefiro fazer a assistência para o gol de um companheiro do que fazer um gol”, ele disse. Dita o tempo e o ritmo de seu time. Não pode ser coadjuvante.
Ou líder futebolístico, ou nada. Em novembro, completará seu 15º aniversário na primeira divisão argentina. Ganhou quatro Argentinos, três Libertadores, um Mundial juvenil e o ouro olímpico. Deveria ter jogado a Copa-2002, mas Bielsa preferiu Verón e Aimar, que preferem a velocidade à pausa.

De 1999 a 2004, ficou fora da seleção. A chegada de José Pekerman lhe valeu a volta. “No Brasil, Román seria amado e valorizado. A torcida o chamaria de Riquelminho”, disse o técnico certa vez. Os dois uniram seus destinos na Copa-2006, na Alemanha. Riquelme acabava de errar o fatídico pênalti contra o Arsenal que eliminou o Villarreal na semifinal da Copa dos Campeões. Não fez má Copa. Mas com ele não há meio-termo. Ou é um gênio ou é um desastre.

Há quem considere que ele sempre joga bem. Outros pensam que nunca joga bem. Seus críticos encontraram motivo válido para os ataques em sua saída do Villarreal. Seu comportamento temperamental foi reprimido pelo técnico Manuel Pellegrini. Mas seus defensores se recobraram em seguida. Voltou ao Boca em 2007, jogando em nível espetacular, vencendo a Libertadores e voltando à seleção após se aposentar do time nacional no fim da Copa-2006.

Román não gosta de meio-termo. Divide o mundo entre amigos e inimigos. Neste ano, uma temporada repleta de lesões e um contrato milionário alimentaram seus detratores. Após uma derrota por 4 a 1, o técnico Falcioni decidiu tirá-lo do time. Sem ele, a equipe virou um desastre. Não vencia e não tinha padrão de jogo. O técnico voltou a escalá-lo. Desde seu retorno, o Boca venceu dois jogos, e Riquelme fez dois golaços de falta. Agora é sua vez de rir.

Não percam tempo em discuti-lo. A classe de Riquelme terá sempre a última palavra.



  • Teobaldo

    Zé Luis já se manifestou: Não sabe dos motivos que levaram à sua dispensa e disse estar surpreso com a decisão, afinal, teve uma proposta do futebol chinês em janeiro e o Kalil não o liberou por entender que ele era importante para o time. Ricardinho também manifestou: “Os treinadores não gostam de jogadores que enxergam o jogo”, teria dito ao jornalista Jaeci Carvalho. Nas entrelinhas pode-se concluir que ele tentou, de uma forma ou de outra, impor seu ponto de vista ao Dorival Jr (entendimento meu) e o treinador não concordou. Logo, criou-se o impasse e a diretoria ficou ao lado do Dorival Jr. Pouco convencional, é verdade, mas perfeitamente compreensível. Concordo com o Ricardinho num aspecto: Os jogadores que “enxergam o jogo” não são os preferidos do treinadores.

    Em relação ao futebol argentino, se eu ganhasse um “par ou impar” e tivesse que escolher entre Riquelme e Verón, não teria dúvidas e ficaria com o segundo. O toque refinado, preciso, inteligente e sempre de primeira que ele dá na bola jogando-a sempre no “ponto futuro” para seus companheiros, é fantástico. O modo de jogo do Verón sempre encantou-me. Para mim é um monstro.

    Um abraço a todos.

  • SENSACIONAL, André! Obrigado por compartilhar esse texto!

    Riquelme foi um dos melhores meias que vi jogar, um craquaço de bola!

    O que me incomoda profundamente no futebol é a mania que a maioria tem de julgar o jogador pelo seu momento atual e/ou pior momento… e não pelo conjunto da obra… isso aconteceu com:

    Zico – “nunca ganhou nada pela Seleção”
    Romário – “só fica parado, esperando a bola!”
    Ronaldo Fenomeno – “está gordo e blablabla”
    Edmundo – “encrenqueiro”
    Evair – “só sabia bater penais!”
    Neto – “só sabia bater faltas”
    Zinho – “enceradeira”

    Jogadores como Riquelme deveriam ser reverenciados pelos excelentes serviços prestados ao futebol!

  • Leandro Azevedo

    Vamos por partes…

    1) O Ricardinho, se nao me falha a memoria, tinha sido votado por jogadores como o “traira” do futebol brasileiro, entao nao me espanta a decisao do Kalil.

    2) Quanto ao Geninho, o Presidente do Atletico agiu muito mal… segundo o proprio Geninho, ele teve uma reuniao com o Presidente no Sabado que nada falou sobre uma possivel demissao, e deixou a “missao” de demitir o treinador nas maos de um diretor, o que deixou o Geninho bastante magoada e ate disse que nunca mais treina o CAP.

    3) Quanto a Riquelme… nao ha muito mais a dizer depois desse texto, mas fico abismado com aqueles que dizem que ele nao joga bem etc. O cara eh CRAQUE, joga muito mas tem um estilo anos antigos, de um futebol cadenciado, sem velocidade o que talvez tenha atrapalhado muito nessa parte. Ele tem um passe como poucos, visao de jogo e cadencia que falta em muito time por ai, e no Boca, SEMPRE resolveu quando o time mais precisou e nas Libertadores era mortal. Os Argentinos foram pouco inteligentes no trato dele na selecao, e acho que algo tem a ver com a eterna rivalidade River-Boca no comando tecnico por lah.

  • fabio

    André…sou fã do futebol do Ricardinho…mas já tinha ouvido histórias de que ele é tão traíra que na Copa de 2002 os demais jogadores pediram para ele não entrar no time (quando foi escalado de última hora para o lugar do emerson lesionado).
    Uma pena pois ele joga muita bola.

  • Anna

    Temperamental ou não, Riquelme é craque indiscutível. Qualquer um ia querê-lo em seu time, sempre. Fato! Ficou feio o que o Furacão fez com o Geninho, sendo que ele tem 83% de aproveitamento no time. Não deu, realmente, pra entender.

  • Marcel Souza

    O Riquelme joga o fino! É pena que tanta gente discorde e cria-se tanta polêmica. Só pel oque jogou nas Libertadores que ganhou já deveria estar num outro patamar de discussão.

  • Edouard Dardenne

    Eu não pretendo defender a decisão da diretoria do CAP. Mas quero apenas sugerir um possível argumento. Do mesmo modo que nós defendemos, às vezes, a demissão de um técnico por conta dos resultados obtidos pelo time, sustentando que o profissional deve ser avaliado pela filosofia de trabalho, o elenco que se tem em mão, etc., é possível a demissão de um técnico mesmo quando um time vai bem. Neste caso, quando há um profissional disponível no mercado cujas ideias e forma de trabalho sejam reputadas mais interessantes pelo Clube, será que não é correto contratá-lo? Tem gente q diz que em time que está ganhando não se mexe. Eu não sei. Se for pra melhor, talvez seja o caso de mexer sim.
    Um abraço.

  • Edouard Dardenne

    Ops, “Do mesmo modo que nós condenamos, às vezes, a demissão de um técnico por conta dos resultados obtidos pelo time…
    Desatenção…

  • Igor Vinicius

    Riquelme, é o tipo de jogador raro, como foi dito por Varski com Riquelme não existe meio termo. Ele cadencia o jogo, acelera. Mas como não fica correndo igual um alucinado é criticado por uma parcela que acompanha o futebol. Admiro muito o futebol de Riquelminho.

  • Kurt

    André, junte a sua observação do gol do Palmeiras no Santos com a coluna sobre o Riquelme e veremos que muitas das críticas sobre criação de jogadas está na maioria das vezes no setor errado, ou no jogador errado.

    É impossível que um jogador que tenha tenha uma boa visão de jogo e passe preciso desequilibre um jogo se o setor ofensivo não lhe dá opção para passe. Hoje é muito comum ver times jogando com 2 ou 3 atacantes, que são atacantes apenas na escalação. Ou eles vem constantemente buscar jogo no meio campo e reclamam que a bola “não chega” (eles deveriam dar opção para o passe e não voltar pegar a bola e ficar sem opção de passe ofensivo), ou quando esão com 3 atacantes, por mais estranho que isso pareça, fica um jogador no meio tentando um pivot para os outros atacantes que ficam isolados nas pontas sendo marcados por laterais. Depois ainda perguntam porque os volantes quem aparecem no ataque estão desiquilibrando jogo, simplesmente porque estão dando opção para um passe ofensivo, oferecendo mobilidade ao ataque.

    Se colocar o Riquelme com um ataque lendo e sem movimentação, ele realmente não vai jogar nada, e será chamado de sonolento, burocrático entre outros adjetivos

  • Luiz Felipe

    O fossati foi demitido com o time classificado para a semi da TLA ano passado. Pena que não fizeram o mesmo e não demitiram o roth quando ela acabou.

    Pelo menos os hermanos ainda podem discutir os seus meias que cadenciam o jogo. Isso não existe mais no brasil.

    Alex fenerbach e o próprio ricardinho foram os últimos.

    abraços

  • Fernando

    Se Riquelme fosse contratado pelo SP, iriam dizer que o time fica lento e ele nunca sairia do banco…. ou seria colocado aos 43’… pobre Rivaldo…….. ops, digo, Riquelme, rs

  • Renato

    Andre,
    Nao sei qual os reais motivos da demissao do Geninho e consequente vinda do Adilson Batista pro CAP. O duro eh ver o presidente do cube “tirar” o time de campo e mandar o diretor de futebol fazer isso. Esse sim deveria ser demitido.
    Porem, voltando ao lance de aproveitamento do Geninho, transfiro essa comparacao para com o Tite e o time do Corinthians. O aproveitamento deve ser proximo, ainda que o Tite tenha feito mto mais jogos, mas a maior parte da torcida do Corinthians nao quer ve-lo dirigindo a equipe no Campeonato Brasileiro, pq ele montou um time de covardes que so se defende e quando ganha, ganha de pouco. Isso sem falar que a explicacao dada pro baixo rendimento do Bruno Cesar no comeco do ano eh uma piada. O cara eh canhoto e joga na meia esquerda, porem so eh escalado como ponta direita! Incrivel como ninguem da imprensa especializada comenta isso! E tudo comecou com o Prof. Pardal que entregou o titulo de graca pro Flu e nem chegou a esquentar direito o banco de reservas do Santos depois. Os dois, empaTite e Adilson deveriam ser relegados ao esquecimento do futebol brasileiro.

  • Marcelo

    André,

    Escrevo no seu blog pois considero q vc tenha seriedade suficiente para tratar do assunto. O jornalismo esportivo brasileiro se revoltou (de forma correta) com os atos racistas contra Neymar e R. Carlos na Europa, porém, não vejo nenhum blogueiro falar sobre a homofobia coletiva no jogo do Volei Futuro contra o jogador Michael (transmitido ao vivo pelo Sportv) – cada vez q o rapaz ia sacar ou tocava na bola o ginasio inteiro gritava, viado ou bicha. Sugiro q faça um post a respeito.

  • Massara

    Vi, ao vivo, Roman jogar no Mineirao, em 2008, contra o Cruzeiro, semi-final da LA.

    Acabou com o jogo.

    O que mais chama a atencao realmente e a capacidade de utilizar o passe como recurso ofensivo e defensivo, dependendo do que o jogo pede.

    Vi o Ganso jogar ao vivo tambem e me lembrou um pouco o futebol do Riquelme.

    Detalhe: não estou comparando os dois. Apenas me lembrou.

    Abs.

  • Massara

    Desculpe, era oitavas de final da LA 2008.

    Abs.

  • Leonardo atleticano

    André, o Ricardinho me pareceu justo, o Zé luiz eu não entendi. mas o Kalil falou com muita seriedade e colocou todos os nomes aos bois, inclusive citando treinadores anteriores que já haviam pedido a cabeça dos mesmos. Fico com versão do Kalil.

    Quanto ao Riquelme, craque demais, acho o Zidane um dos melhores de todos os tempos e Riquelme era um jogador quase do mesmo nìvel, cabeça levantada, categoria e inteligência.

    André, muito está se falando do jogo do Sada Cruzeiro contra o Vôlei futuro, a torcida do cruzeiro agil muito mal realmente, mas não agiu diferente de todas as demais torcidas, querer tranformar um ato que é rotineiro, embora totalmente errado, numa tempestade somente para tentar tirar proveito da situação tambem não é correto. A diretoria do Vôlei futuro está usando o Michael, para levar alguma vantagem, o jogador já ouviu as mesmas coisas milhões de vezes e nunca foi defendido pela sua própria equipe, agora vislumbrando uma possível perda de mando de campo por parte do cruzeiro, estão usando o Michael descaradamente. É o que penso.

  • Luiz

    André, a minha dúvida no que se refere ao texto: quem vc acha que se sairia melhor no São Paulo, o Aimar ou o Riquelme? Queria um dos dois no meu time… Acho que pela velocidade do time, o Aimar se encaixaria melhor…

  • Anna

    Sentimos falta dos links da Liga com os gols, mas provavelmente eles virão nesta quarta-feira! Seus tweets são muito bons a respeito dos jogos!

  • A demissão de Geninho, foi uma das coisas mais injustas no futebol. Pior do que isso, só o ‘sim’ de Adílson Batista, antes mesmo de Geninho ser demitido do comando da equipe Atleticana.
    Riquelme é dos raros talentos do futebol mundial, uma pena não ter dado certo no Barcelona, quando lá esteve.

  • Ótima lembrança fez o Marcelo, sobre a homofobia no vôlei, direcionada ao jogador Michael… merece um debate fervoroso para, quem sabe um dia, acabarmos com essa chaga…

    Michael mandou muito bem em suas declarações e entrou para a história… teve a coragem de enfrentar essa situação de peito aberto… virei fã do cara!

    E pensar que jogador de futebol com muito mais notoriedade teve essa oportunidade, no auge de sua carreira, e deixou passar batido, com medo de retaliação do clube contratante… uma pena, teria entrado p/ história, dando esse 1º e importante passo, que Michael acaba de fazer, com muita coragem!

    Enquanto torcedor ficar chamando adversário de Bambi e Macaco, não sairemos do lugar… pelo contrário, regrediremos cada vez mais como sociedade… e isso serve para todo mundo aqui. Não podemos tolerar mais essas atrocidades! Sujeito fez qualquer comentário desse tipo ao seu lado, tem que repudiar na hora, seja o chefe, o pai ou o papa…

    Palmas Michael!

  • Leonardo atleticano

    Felldesign, infelizmente, a evolução e a maturidade de uma sociedade, não curam essa doença. Vide esses problemas na Europa. Acho que o preconceito é um sentimento já embutido na alma humana, tanto quanto o amor e o ódio, todos temos anjos e monstros dentro de nós. Incrivel como em arenas esportivas, muitas vezes, as pessoas liberam o pior de si.

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