COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

NINGUÉM GANHA SOZINHO

A distância entre a negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro e o impasse trabalhista na NFL é maior, bem maior, do que os 7.700 quilômetros que separam Rio de Janeiro e Washington. São planetas diferentes.

Lá, há uma divergência entre a Liga e a Associação dos Jogadores, que não chegaram a um acordo sobre as normas que regem as relações de empregadores com empregados. Aqui, há a incapacidade da cartolagem de enxergar o poder de uma negociação coletiva para a valorização do produto que nossos clubes oferecem.

Na NFL, o problema é que os donos dos times querem uma fatia maior do lucro gerado pela liga. No futebol brasileiro, o problema é que cada clube quer ganhar mais dinheiro da TV do que o outro. Num caso, o desentendimento se dá, talvez, por falta de sensibilidade para dividir um bolo gigantesco (US$ 9 bilhões de lucro por ano). No outro, a discórdia é alimentada pela ganância que só desvaloriza o que deveria valer muito mais (R$ 516 milhões, de acordo com a única proposta oficial conhecida).

Nos Estados Unidos, os jogadores estão diretamente envolvidos na discussão. O sindicato que os representa não aceita a mudança nos termos do contrato coletivo de trabalho, num processo em que defende os interesses dos atletas de hoje e do futuro. No Brasil, os jogadores estão alheios a tudo. Verdade que o assunto não tem impacto em suas contas bancárias, mas não se percebe qualquer demonstração de interesse.

Mas num detalhe da celeuma no futebol americano se encontra um exemplo útil ao futebol brasileiro. É sobre a força da união, como diz o ditado. A popularidade da NFL chegou a tal ponto que quase conseguiu inverter a relação entre os clubes e a televisão. Como a Liga sabia que haveria discussão trabalhista após o campeonato de 2010 (e conseqüente possibilidade de greve), negociou o atual contrato de TV com uma exigência: os clubes seriam pagos independentemente da realização da próxima temporada.

Pense na cena. De um lado da mesa, os times disseram algo como “pode ser que não haja campeonato em 2011, mas vocês vão pagar os direitos assim mesmo”. Nenhum clube resolveu tratar diretamente com as emissoras. Ninguém tentou estimular a discórdia entre eles. Do outro lado da mesa, os executivos das redes de TV (a temporada é exibida por 5 canais), mesmo contrariados, assinaram o papel. Não poderiam arriscar ficar sem futebol americano profissional em suas grades de programação.

Por aqui, vivemos o “cada um por si e danem-se os outros”. Nas negociações individuais com as televisões, o que se ouve é que os clubes conseguirão dobrar o valor que recebem atualmente. O Grêmio, já acertado, deve pular de R$ 26 milhões para 53 milhões, soma que deixaria o Botafogo, por exemplo, extasiado. Flamengo e Corinthians podem fechar por, no mínimo, R$ 110 milhões.

Maurício Assumpção, presidente do Botafogo, diz que seu clube não pode receber menos de 60% do que ganha o Flamengo. Faça as contas. A distância entre os andares vai aumentar. E quem reclama vai continuar reclamando.



  • Marcel Souza

    Já disse em outros posts aqui, essa negociação da NFL é interessantíssima! É algo inconcebível na nossa realidade. Amigos meus ontem juraram que um ano sem NBA ou NHL até pode ser, mas NFL não tem como. A ver….

  • Cesar

    Sinceramente, eu não consigo acreditar que os dirigentes esportivos brasileiros não saibam que todo time precisa de um adversário para jogar (seja futebol, basquete, volei, natação, atletismo)… E, se o adversário também for forte e estruturado, o espetáculo será melhor, o torcedor irá com mais frequência ao estádio, à quadra…. As emissoras de TV pagarão mais por um jogo de mais qualidade, com equipes mais bem preparadas, com jogadores de melhor nível… Enfim, não consigo acreditar que os dirigentes não enxerguem isso. Não enxergam? Não dá para acreditar que não?

    Abraço.

  • Alexandre

    Enquanto houver dirigentes acreditando que a audiência dos campeonatos de futebol é graças à emissora responsável pela transmissão, e não ao próprio produto transmitido (futebol), teremos de aguentar esta ridícula subserviência.

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