NÚMEROS E PERGUNTAS



O blog reproduz abaixo a ótima coluna do meu camarada PVC, na Folha de S. Paulo de hoje.

Faça um favor a você mesmo e leia.

Ao final, temos algumas considerações a fazer.

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A CONTA DAS MIGALHAS

O Coritiba é um dos clubes que pretendem negociar separadamente os direitos de transmissão do Brasileirão, triênio 2012/2014. Surpreendentemente, o presidente Jair Cirino estava no Clube dos 13 na abertura do envelope da licitação, sexta-feira.

O Coritiba recebe atualmente R$ 13 milhões por ano. A Globo oferece R$ 27 milhões, mas a projeção é que arrecade R$ 34,5 milhões, pelos valores mínimos estipulados pelo Clube dos 13. A diferença é de R$ 7,5 milhões.

Um dos bons argumentos para assinar com a Globo é que ela dá mais visibilidade aos patrocinadores. Hoje, o Coritiba vende o patrocínio de sua camisa por R$ 6 milhões, menos do que a diferença entre o que a Globo se dispõe a pagar e o que o Coritiba arrecadaria negociando em conjunto.

Ainda há quem aposte que a guerra dos direitos terminará quando a Rede TV! depositar a primeira parcela, em um mês. Serão R$ 300 milhões, o equivalente a 20% do total a ser pago pelos três anos de contrato. Jair Cirino não estava na sede do Clube dos 13, na sexta, por causa da cor dos olhos de Fábio Koff. Estava pela cor do dinheiro.

Seu clube tem dívidas bancárias com vencimento na segunda-feira. Não há dinheiro em caixa, e seu avalista é o Clube dos 13.

Contas desse tipo existem em quase todos os clubes. O Botafogo deve R$ 61 milhões ao Clube dos 13 e já recebeu todo o dinheiro a que tinha direito pelo contrato de TV até outubro. O presidente Maurício Assumpção alega que decidiu sair da negociação conjunta por não conseguir se livrar de uma divisão de receitas que faz com que arrecade 40% a menos do que o Flamengo.

Hoje, o Botafogo recebe R$ 22 milhões. “Vou dobrar esse valor negociando sozinho”, diz Assumpção. Em conjunto, a projeção é que o Botafogo saltaria para R$ 53,5 milhões.

Clubes de torcida média, como Coritiba e Botafogo, podem perder negociando sozinhos. Flamengo e Corinthians podem ganhar mais.

O Botafogo também considera a visibilidade de seus parceiros na Globo. O clube avalia o patrocínio de sua camisa em R$ 10 milhões – a diferença entre negociar sozinho ou em conjunto, R$ 9,5 milhões-, mas jogou a maior parte da Taça Guanabara sem patrocinador.

Esse dinheiro faz diferença. Ou não seria necessário receber empréstimo de R$ 8 milhões da CBF, seis dias antes da eleição do Clube dos 13. Maurício Assumpção votou no candidato que agradava Ricardo Teixeira.

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Atenção especial ao quarto parágrafo, onde há a referência ao adiantamento de 20% do contrato de 3 anos que vale mais de R$ 1,5 bi.

São R$ 300 milhões na mesa, à disposição das sólidas contas bancárias dos clubes brasileiros. Alguém está interessado?

Claro, é sabido que a vitória da Rede TV na licitação não será concreta enquanto todos os clubes (exigência da emissora, em contrato) não estiverem de acordo. Hoje há muitos dissidentes. Quantos haverá, em um mês?

Em entrevista pouco convincente (ainda que a disposição a debater o tema, ao vivo, mereça elogios) à ESPN Brasil na última sexta-feira, o presidente do Botafogo, Maurício Assumpção, revelou alguns detalhes preocupantes sobre o racha no Clube dos 13.

Assunção, que era membro da comissão de TV do C13, disse que um dos motivos que o levaram a discordar do processo de concorrência foi o “despreparo” de algumas emissoras participantes. “Eu vi emissoras que não tinham a menor condição de transmitir o campeonato”, disse ele. “Emissoras que nem equipe tinham”, completou.

Assunção não revelou o nome da emissora, mas suspeito que não seja necessário.

Louvável a preocupação do dirigente. Mas e o dinheiro?

Temos ouvido muitos cartolas declarando que seus clubes podem “ganhar mais” negociando sozinhos. Alguém já ouviu um dirigente dizer que pode “garantir a qualidade da transmissão” negociando sozinho?

Não é muito mais provável que as exigências dos clubes (já que parecem tão preocupados com outros aspectos), sejam elas técnicas, financeiras, de exposição de patrocinadores… sejam atendidas se eles negociarem coletivamente?

E voltando ao dinheiro, como certos cartolas explicam a desobediência à lei de mercado que diz que quanto mais gente quer comprar um produto, mais caro esse produto fica?

Ao justificar a debandada de clubes do C13 com um argumento que não leva em conta a concorrência de valores, Maurício Assumpção está depreciando os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.

Não creio que esse seja seu papel.

Importante lembrar que a proposta da Rede TV foi de R$ 516 milhões por ano. A divisão desse valor pelos percentuais que, no contrato atual, são direito de cada clube, já garantiria um interessante aumento. Dinheiro só de TV aberta.

E era para ser muito mais.

O executivo da Rede TV que levou o envelope ao anúncio das ofertas disse que tinha outro guardado, com um valor entre R$ 700 e 800 milhões. Como não havia outras emissoras presentes, entregou o envelope com a menor proposta.

Não é preciso ser um analista financeiro para perceber que a cisão no C13 jogou contra a valorização dos direitos dos clubes. Uma estratégia formidável.

No caso dos clubes de maior torcida, não duvido que as negociações em separado podem levar a propostas maiores. Eles têm representatividade popular e índices de audiência que os permitem dizer “danem-se os outros”.

Não é o melhor para o futebol, para o campeonato, mas pelo menos é um raciocínio que faz sentido.

Mas e os de torcida menor, que parecem não perceber que a diferença entre eles e os que ganham mais vai aumentar? Isso, se eles realmente conseguirem ofertas melhores do que a que já se conhece.

Na mesma entrevista à ESPN Brasil, o presidente do Botafogo disse que há um grupo de executivos do mercado trabalhando para o clube. Fico curioso para saber o que eles pensam.



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