COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

VIAJANTES DO TEMPO

O campeão de reclamações ao Disque-Árbitro dessa semana não foi o pênalti inventado. Nem o gol em que a bola não entrou. Foi o uso do cronômetro, o (des)controle do tempo, a transformação da segunda etapa de jogos de futebol em versões atualizadas de “A História Sem Fim”.

A esmagadora maioria das ligações partiu de dois lugares: da cidade gaúcha de Caxias do Sul e de Bangu, bairro carioca. O conteúdo das conversas gravadas está em análise, mas não pode ser divulgado. Pelo menos não perto de crianças.

O problema no Sul está ligado à atuação do árbitro Márcio Chagas da Silva, na decisão do primeiro turno do Campeonato Gaúcho. O apitador determinou 8 minutos de acréscimo ao segundo tempo do jogo entre Grêmio e Caxias. Quando a placa subiu, o Caxias vencia por 2 x 1. Aos 50 minutos, o Grêmio empatou. Nos pênaltis, a taça ficou com o tricolor.

No Rio de Janeiro, Djalma Beltrami é quem dá nome ao arquivo. Por ordem dele, o jogo entre Bangu e Flamengo foi esticado em 5 minutos no segundo tempo, com o placar em 1 x 1. Beltrami conseguiu causar até mais polêmica do que seu colega gaúcho, pois quando o Flamengo marcou o segundo gol os minutos adicionais já tinham acabado. O gol saiu nos acréscimos dos acréscimos.

Não espere uma investigação sobre a subjetividade do número que aparece na placa do quarto árbitro. É garantia de frustração. O juiz não sabe como chegou a ele, o comentarista de arbitragem também não. Os times nada podem fazer além de jogar até o último apito. O público fica no limbo. E as leis do futebol não podem nos salvar.

A regra 7, que trata da duração do jogo, diz que “os acréscimos devem ser feitos só quando os atrasos são excessivos” e que “o anúncio do tempo adicional NÃO indica a exata quantidade de tempo restante no jogo”. Vê? Não poderia ser menos conclusivo. A regra também informa que o tempo pode ser aumentado se o árbitro considerar apropriado. Ou seja, o acréscimo do acréscimo é oficial. Basta o árbitro achar “apropriado”.

O tempo adicional é o único momento de um jogo de futebol em que a decisão do árbitro não pode ser questionada. Não há elementos para confrontá-lo. É o encontro da bola com o totalitarismo, que acoberta os excessos.

Um estudo feito em 750 jogos da Liga Espanhola, publicado em um dos capítulos do livro “Scorecasting” (já recomendado aqui), aborda o tema e aponta um padrão preocupante no comportamento do apito. Quando o time da casa está vencendo por 1 gol, a média de acréscimo é de 2 minutos. Quando o mandante está perdendo por 1 gol, 4 minutos. Se o jogo estiver empatado, a média é 3 minutos de tempo adicional. O curioso é que quando a partida está decidida, com larga vantagem para alguém, não há discrepância no acréscimo. Não há por que se arriscar.

Na Espanha, o cronômetro ficou ainda mais generoso com os times mandantes a partir de 1998, quando a vitória passou a valer 3 pontos e a diferença entre vencer e empatar dobrou. Os pesquisadores encontraram a mesma tendência em jogos na Inglaterra, Itália e Alemanha. Seria diferente por aqui?



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