NOTA PÓS-RODADA (e um texto que merece sua leitura)



Pergunta para quem mora em São Paulo: procurou seu time na TV aberta no fim de semana?

Pois é. O Carnaval fez com que todos os jogos fossem realizados na sexta ou no sábado, porque o domingo de samba é sagrado. E só quem tem televisão paga pôde ver o que se convencionou chamar de “melhor campeonato estadual do país”.

Nos estádios, o Corinthians (2 x 0 no Linense: Bruno Quadros-contra e Liédson) jogou para 6.234 pagantes em Lins.

O São Paulo (2 x 0 no São Caetano: Rhodolfo e Jean) jogou para 5.744 pagantes no Anacleto Campanella.

O Palmeiras (0 x 0 com o Santo André) jogou para 6.059 pagantes no Pacaembu.

E o Santos (2 x 0 no Oeste: Zé Love-2) jogou para 2.213 pagantes em Itápolis.

O fato de nenhum desses jogos ter sido exibido em rede aberta mostra (se ainda fosse necessário) como o campeonato estadual é legal.

No Rio de Janeiro, o maior público da rodada foi 5.038 pagantes, na vitória do Flamengo (3 x 2 no Olaria: Danilo, Thiago Neves-2, Ronaldinho e Rafael) em Volta Redonda.

O Fluminense fez 2 x 1 no Resende (Araújo, Kim e Leandro Euzébio), para QUINHENTOS E OITO pagantes, em São Januário.

O público pagante da vitória do Botafogo (4 x 2 no Volta Redonda: Herrera, Jhonattann, Ávalos, Rodrigo Mancha e Alex), no Engenhão, foi 2.520.

E o da derrota do Vasco (3 x 1: Luis Mario, Siston, Elton e Bill) para o Macaé foi 4.290 pagantes, no interior.

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Para uma análise interessante sobre o tema, entre outras coisas, reproduzo abaixo o ótimo texto publicado na “Camisa 12” do Lance! deste domingo.

De autoria de Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil:

PONTOS CORRIDOS ASSIM É UMA PIADA

Quando deixei a Inglaterra para tentar a sorte no Brasil, em 1994, o futebol da minha terra nativa gerava pouco interesse por aqui. Passava na TV o jogo de segunda-feira, normalmente com times menores, e assisti-lo era considerada a maior prova imaginável de amor ao futebol.

As coisas mudam, culturas se transformam, o mundo evolui. Dezessete anos mais tarde, a Premier League é referência do sucesso, o grande sonho de consumo de todas as emissoras aqui que transmitem futebol internacional. Claro, diferenças existem. O Brasil não pode e nem deve imitar todos os aspectos do sucesso inglês. Mas, em linhas gerais, há alguns conceitos
do outro lado do Atlântico que podem ser úteis nesse momento fascinante que vive o futebol brasileiro.

O primeiro é o valor de uma negociação coletiva dos direitos de transmissão. Basta comparar a Inglaterra com a Espanha. O Real Madrid e o Barcelona ganham fortunas vendendo individualmente – os outros clubes nem tanto. O desequilíbrio é enorme, e o campeonato perde. Antes da temporada atual, na janela de transferências, os clubes espanhóis venderam mais do que  compraram. O grande comprador foi o futebol inglês, onde, com mais dinheiro da televisão, até os times menores foram capazes de adicionar qualidade aos seus elencos.

Claro, o Brasil não é a Espanha. Vender os direitos individualmente aqui não representa exatamente o mesmo perigo, por causa do tamanho do país e da quantidade de clubes grandes. Mas há um assunto mais importante do que a venda dos direitos, mais fundamental para o futuro do futebol brasileiro, onde a união dos clubes é essencial – e, neste caso, o exemplo que vem da Inglaterra é perfeito.

Um voto por cada clube, 92 clubes profissionais, e o peso de um Workington Town é igual àquele do Manchester United. Aí, o futebol inglês vivia uma ditadura dos pequenos, com uma divisão de renda entre os 92. Tratava-se de uma estrutura inadequada para os interesses dos clubes que investiam mais e atraíram mais interesse do público. Resultado: em 1992 veio o ponto de partida do sucesso atual. A Primeira Divisão caiu fora para criar a sua própria estrutura – exatamente o desenvolvimento que o futebol brasileiro está precisando agora.

No Brasil, a ditadura dos pequenos é mais nociva ainda. Quem controla os pequenos controla as federações, e quem controla as federações controla a CBF e o calendário. Consequência: os grandes clubes passam meses no início do ano desperdiçando seu tempo e seus recursos jogando contra times sem torcida em campeonatos estaduais que já foram necessários, mas
que deixaram de ser há um tempão.

O pior é que os Estaduais matam o início da atração principal, o Brasileirão. Um campeonato de pontos corridos tem que ter uma pausa antes – aí que cresce a magia do torcedor (“este vai ser nosso ano!”). É desta forma que o jogo ganha o poder de um grande evento. A primeira rodada deve ser a maior festa do futebol.

Mas o futebol brasileiro adotou os pontos corridos em uma maneira que joga fora a grande vantagem do formato. A bola começa a rolar sem magia nem mistério. O Estadual acabou de terminar. O torcedor já está bem ciente dos defeitos do seu time – que, além do mais, pode ser cheio de reservas na primeira rodada, os jogadores-chave guardados para a fase decisiva da Libertadores ou da Copa do Brasil.

Fazer pontos corridos assim é uma piada de mau gosto, uma aula de incompetência organizacional – causada pela existência dos Estaduais. A estrutura do poder do futebol brasileiro não vai acabar com os Estaduais – seria que nem um peru votando a favor do Natal. Portanto, como aconteceu na Inglaterra, os grandes clubes têm que ter a união para criar uma nova estrutura.

Brigar sobre quem foi o campeão de 1987 é o de menos. O futuro está em jogo.

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Recado aos cinéfilos: postei alguns comentários sobre “Bravura Indômita”, no Mais Gelo. Quando tiverem tempo, passem lá.



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