COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

OS DRAMAS DA COMUNICAÇÃO

O sujeito se destaca por qualquer motivo e logo recebe um rótulo. Se for bem apessoado, é “bacana”, no mau sentido. Se não for, que Deus o ajude. Uma das primeiras reações será “por que não se arruma melhor”? No futebol, eldorado dos desdentados e desletrados do país em que educação é privilégio, o preconceito muitas vezes aparece no sentido oposto. Aquele que fala português direito é que será ridicularizado. E se dominar outra língua… que o digam Leonardo, Ricardo Gomes, até Raí.

“Nasci na roça”, diz Tite, em conversa telefônica. “Mas tive condições de estudar até o curso superior”, completa o técnico de futebol, professor de Educação Física formado pela PUC de Campinas. Tite fala todos os erres e esses. Não escorrega na concordância verbal, não é dado a estrangeirismos. Seu português é correto como é, em regra, o que carrega sotaque gaúcho. Aí começa o problema. Há quem pense que “a imprensa” o trata com benevolência justamente por isso. É o primeiro passo para o conceito formado com maldade.

Num ambiente caracterizado pelo mau trato ao idioma, o diferente se transforma em filósofo. Digamos que Tite tem sua parcela de responsabilidade. O uso de termos não convencionais em entrevistas coletivas criou uma espécie de glossário, que foge a seu controle. Expressões como “jogador terminal” e “treinabilidade”, por exemplo. Mas no departamento das ideias que dão errado, as que estão carregadas de boas intenções são as que machucam mais.

É evidente que o tal “jogador terminal” não é um boleiro em fim de carreira. É o homem de finalização de jogadas, aquele que termina o lance. Também deveria ser evidente que “treinabilidade” não é neologismo. Nem poderia. A palavra existe, é um princípio, um termo muito utilizado no ambiente acadêmico. Tem a ver com a capacidade de um indivíduo de ser treinado.

E o pior, ou melhor, é que Tite fala(va) assim porque imagina(va) que a conversa ficaria melhor, mais rica. “É uma tentativa de aproximar as pessoas do nosso vocabulário, para ampliar a discussão”, pondera. “Mas vou prestar atenção nisso, porque estou sendo mal interpretado”.

Está mesmo. Por mau humor, antipatia, preguiça, é muito mais fácil aplicar o carimbo. Elevar o nível do debate é incomparavelmente mais complicado. “Uma vez estive na Argentina com o Internacional e vi um programa na TV em que o nosso time foi dissecado taticamente”, conta Tite. “Aqui a gente quase não vê isso, são raras as exceções”, completa.

Os jogadores que trabalham com Tite não têm nenhum problema para compreendê-lo. A bem da verdade, sua terminologia no vestiário e no campo é outra, mais simples. A missão de um técnico, afinal, é fazer a mensagem chegar. Ele só não achava que o mesmo cuidado fosse necessário quando estivesse diante de gente cuja missão é a mesma. Não deveria ser.

E aquele glossário que leva seu nome, como se resultasse da pretensão de formar um vocabulário pessoal, incomoda. Muito. “Eu me sinto pessoalmente desrespeitado”, diz Tite.



MaisRecentes

Terceirão



Continue Lendo

“Algumas tapas”



Continue Lendo

Humanos



Continue Lendo