CAMISA 12



MÁ-FÉ, MAU GOSTO, MAU CHEIRO
 
(publicada ontem, no Lance!)

A defesa da Confederação Brasileira de Futebol no caso da “Máfia do Apito” é dotada de legítimo nonsense gaddafiano. O ditador líbio quer que o mundo acredite que não há protestos contra seu governo. A CBF quer que você acredite que futebol não tem importância. A principal diferença entre eles é que Gaddafi, em breve, não terá mais palanque.
 
Sério, que tipo de advogado pode produzir tamanho besteirol? E que tipo de presidente não percebe que tal besteirol levará a uma situação tão constrangedora? Fico imaginando a reação do juiz José Paulo Camargo Magano ao se deparar com o rascunho de defesa encomendado pela CBF.
 
Como você deve ter visto, a peça argumenta que a ação da ONG Gol Brasil quis “emprestar ao futebol uma dimensão que um esporte não tem nem pode ter”. É o equivalente a uma empresa aérea, acionada por passageiros descontentes, dizer à Justiça que viajar é bobagem. Um hospital insistir que saúde é coisa para desocupados.
 
Veja que desfaçatez. A CBF conseguiu dez patrocinadores (chegaremos a quanto eles gastam em instantes) para seu time de futebol, a Seleção Brasileira. Realiza o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil todos os anos. Seu presidente comanda o Comitê Organizador Local da Copa do Mundo que acontecerá no Brasil daqui a três anos. E foi uma ação na Justiça que quis emprestar dimensão ao futebol?
 
A contestação da confederação foi ainda mais longe. Numa explosão criativa, argumentou que “o futebol é o ópio do povo”. Suponhamos, por um momento, que a estrutura do futebol brasileiro se assemelhe a uma organização criminosa, responsável pela comercialização e distribuição de drogas. A quem essa estrutura beneficia? Quem efetivamente lucra com ela? Dica: juntos, os patrocinadores da Seleção investem mais de R$ 200 milhões por ano. Mas não se confunda, esse negócio todo não tem importância nenhuma.
 
Talvez o trecho mais infame de todos seja o que trata dos árbitros de futebol do Brasil. “São brasileiros como todos nós e, data vênia, não poderiam ser melhores do que a sociedade de onde se originam. Ora, sabe-se que o Brasil, infelizmente, não figura em lugar honroso (…) no tocante a índices de corrupção social”.
 
Resumindo: futebol é uma coisa qualquer, passatempo de quem não tem o que fazer, meio infestado por ladrões. E a CBF não tem nada a ver com isso.
 
A sentença do juiz José Paulo Camargo Magano condenou a confederação (e os ex-árbitros Edílson de Carvalho e Paulo Danelon) a pagar R$ 160 milhões de indenização. Condenou também a CBF por litigância de má-fé, o que é um retrato bem suavizado. Cabe recurso e espera-se que, neste, a defesa não seja tão ridícula.
 
Que pelo menos disfarce o desdém.



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