COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

BANGUELAS

Imagine que os dirigentes dos maiores clubes brasileiros perderam a cabeça. Entraram para uma seita e se transformaram em megalomaníacos incuráveis (eu sei, alguns já são, mas continue comigo). Reuniram-se na sede do Clube dos 13 Loucos e formataram suas exigências para a cessão dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.

O horário dos jogos, nas noites de quarta-feira e tardes de sábado e domingo, seria determinado pelos clubes. Na noite de quinta, se alguma emissora se interessasse, poderia haver um, e apenas um, jogo às 22 horas. Mas esse jogo custaria mais caro às TVs. Os clubes também gostariam de ser ouvidos sobre o programa que estaria no ar antes e depois de cada jogo, como forma de evitar a associação do produto a algo que não lhes fosse conveniente. E cada vez que uma rede de televisão mencionasse as palavras “campeonato brasileiro”, ou “brasileirão” (mesmo que fosse num programa humorístico), teria de pagar.

As emissoras que adquirissem os direitos teriam de se comprometer com uma configuração mínima de transmissão. Pelo menos 35 câmeras, todas HD. Mais uma microcâmera voadora, operada à distância via blutúfi, para captar lances por ângulos jamais mostrados. Se por ventura tal equipamento não existisse, problema das TVs. O jogo da quinta-feira, às 10 da noite, teria de ser exibido em 4D.

Em campo, apenas cinegrafistas e fotógrafos, para que as imagens fossem as mais limpas possíveis. Nada de repórteres importunando técnicos e jogadores enquanto estão trabalhando. Entrevistas após os jogos só seriam concedidas quando solicitadas com 48 horas de antecedência, por escrito. Realizadas num local escolhido pelos clubes, para maximizar a exposição de seus patrocinadores. Não poderiam durar mais de 2 minutos e custariam R$ 5 mil se fossem gravadas, R$ 10 mil ao vivo. Violações seriam punidas com rigor. Na primeira vez, multa de R$ 500 mil. Na segunda, rompimento do contrato com a emissora, sem devolução do dinheiro.

Os clubes também teriam controle quase total das placas publicitárias colocadas ao redor do gramado. Só uma placa, por transmissão, seria da televisão, desde que a marca exposta também fosse patrocinadora do Clube dos 13 Loucos.

Na rodada de estreia do campeonato, um jogo isolado (escolhido, é lógico, pelos clubes) teria um show de abertura feito por uma das seguintes bandas: U2 ou Rolling Stones. Nomes passageiros como Rihanna, Beyoncé ou Lady Gaga? Sem chance. A produção e realização do show ficariam totalmente a cargo da televisão.

Finalmente, o valor mínimo da licitação, sem exclusividade: R$ 5 bilhões. Se as emissoras quiserem dividir a conta, ótimo. Se não quiserem, obrigado por ter vindo. Você acha muito? Pense de novo. Juntos, os maiores clubes brasileiros seriam um interlocutor poderoso na mesa de negociação. Estruturados empresarialmente, representados por executivos, formariam um bloco capaz de exigir seu devido valor.

Mas são incapazes de ficar juntos, como cães que não se toleram. Um quer o desaparecimento do outro, por achar que isso o tornaria mais forte. São banguelas querendo mastigar um biscoito fino.



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