CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

O ANTI-SÉPPTICO

Grant Wahl é um jornalista americano. Escreve para a tradicionalíssima revista Sports Illustrated sobre futebol. Futebol mesmo, o nosso. É autor de um livro sobre David Beckham, esteve em cinco copas do mundo, tem 37 anos.

Wahl quer ir para o andar de cima. Não do prédio da SI, mas do esporte que é objeto de seu trabalho. Na verdade, ele quer ir direto para a cobertura. Wahl pretende ser presidente da FIFA.

Essas coisas inspiram cuidados. Muitas vezes, o objetivo é apenas fazer barulho, aparecer. O sujeito sabe que a chance é zero, põe a cara na janela e aproveita (no linguajar dos ex-BBBs) “a mídia”. Não parece ser o caso de Wahl. Ele tem bons motivos e interessantes ideias para tentar o que aparentemente não passa pela cabeça de ninguém – ser adversário de Sepp Blatter na eleição que acontece em junho.

A possibilidade de Wahl se eleger não é zero. É negativa. É mais provável que eu seja o atacante da Seleção Brasileira na Copa de 2014. Mas ele resolveu ser o representante de todos os torcedores que acham que há algo errado no quartel-general do futebol mundial. Num pleito com voto aberto aos fãs, suspeito que ele ganharia. O slogan da campanha é insuperável: “Wahl, o anti-SÉPPtico” (fica melhor em inglês, porque não tem acento).

Mas o voto é fechadíssimo, como se sabe. Qualquer pessoa pode se candidatar, desde que seja indicada por pelo menos uma associação nacional filiada à Fifa. Se algum país indicar Grant Wahl, terá de lidar com a ira de Blatter para toda a eternidade. Mas ele diz que está conversando com possíveis interessados no risco.

A plataforma é atraente. Wahl é a favor da introdução da tecnologia para ajudar a arbitragem, é contra o cartão amarelo para jogadores que erguem a camisa quando comemoram um gol, quer uma mulher como secretária-geral da entidade. Ele também acha que os melhores árbitros do mundo devem apitar na Copa, sem limite por país. E que os apitadores têm obrigação de explicar publicamente suas decisões polêmicas.

O mais importante: Wahl pretende limpar o prédio divulgando todos os documentos oficiais. Promover uma investigação independente depois que a caixa preta for aberta. E acabar com o sistema de reeleição que permite que apenas duas pessoas tenham presidido a FIFA nos últimos 37 anos.

O problema é que a FIFA é um clube exclusivo que só se interessa por poder e dinheiro. O modelo se replica na CBF e em nossas federações. O adversário de Blatter dificilmente virá de fora da sala. Dentro, as ideias de Wahl provocam gargalhadas.

Mas o noticiário tem mostrado que coisas mais surpreendentes estão acontecendo no mundo. Jovens egípcios, armados com telefones celulares inteligentes, derrubaram um governo tirano. As mudanças no futebol não precisam acontecer com Wahl. Mas podem começar com ele.



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