ERA MENTIRA



A opinião corrente, entre muitas pessoas que acompanharam o processo de licitação que estava (ou está, pois o edital será publicado nesta quinta-feira) em curso no Clube dos 13, era que se tratava de algo muito bom para ser verdade.

Um empresário, Ataíde Gil Guerreiro, foi contratado para levar a negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro a um patamar inédito.

Guerreiro fez um trabalho diligente. Foi buscar informações sobre como a Uefa trabalha nessa área, encomendou um estudo sobre a exposição das marcas dos clubes na televisão, conversou de forma respeitosa com as empresas interessadas em participar da concorrência. Televisão aberta, fechada, pay-per-view, internet. As conversas trataram até de um ponto sensível quando o assunto é transmissão de futebol na TV: os horários dos jogos.

O processo tinha todas as características que seriam naturalmente esperadas na Europa ou nos Estados Unidos. Profissionalismo, conhecimento técnico, transparência. Propostas em envelopes fechados, vitória da melhor oferta. O objetivo principal era que não restasse dúvida sobre a lisura do resultado.

Como dissemos, muito bom para ser verdade. Até em relação ao tamanho do bolo que seria dividido pelos clubes: no mínimo R$ 500 milhões para a TV aberta. O dobro do valor atual.

O momento poderia ser histórico. Os maiores clubes do futebol brasileiro, juntos, fazendo valer sua força e negociando um contrato de meio bilhão de reais.

Aqui, é necessário um intervalo na conversa: tem se falado muito, nesses dias, na necessidade de distribuir igualmente o montante entre todos os clubes, como forma de diminuir as diferenças de orçamento e promover um equilíbrio de condições. O modelo da NFL tem sido usado como exemplo.

Calma. Analisando os números dos últimos 10 anos:

NFL, cotas iguais: 8 campeões diferentes (Patriots ganharam 3 Super Bowls)

NBA, com teto salarial: 5 campeões diferentes (Lakers ganharam 4 títulos, Spurs ganharam 3)

MLB, cada um por si: 9 campeões diferentes (Red Sox ganharam 2 World Series)

Portanto, no beisebol americano, esporte no qual o abismo entre os times mais e menos ricos é gigantesco, a “alternância de poder” foi maior, nas últimas 10 temporadas.

Se você diz que A leva a B, é melhor ter argumentos para provar.

A divisão das cotas de TV não precisa, necessariamente, ser igual. Mas precisa ser estipulada de forma justa, coerente, e com a assinatura de todos. Era esse o caminho que se trilhava.

De volta ao tema principal. O que era realmente muito bom para ser verdade era a aparente união dos clubes. O que se viu foi a repercussão dela. Os clubes brasileiros, fechados num bloco maciço, formam um interlocutor difícil de enfrentar para quem está do outro lado da mesa.

Um embrião que tem (tinha) o potencial para dar a virada que há muito tempo se cobra: ganhar cada vez mais dinheiro da TV e depender cada vez menos desse dinheiro. Clubes fortes não pedem adiantamento de verba, não se relacionam com emissoras de televisão como se elas fossem bancos.

A discórdia interessa a quem quer continuar mandando no futebol brasileiro.

E foi exatamente fomentando a discórdia, estimulando as relações frágeis e cínicas que existem entre nossos clubes, que a CBF dinamitou o Clube dos 13.

Dirigentes de clubes brasileiros acham que o desaparecimento de seus adversários é uma coisa boa. Acham que defender os interesses de suas instituições é implantar um embargo que sufoque os “co-irmãos”. Cada um olha para o seu cofre, o seu estádio, a sua taça de bolinhas. E jogam o jogo dos bastidores para que o resto vá pelos ares.

A oportunidade que se desperdiçou era muito boa. Boa demais para ser verdade.

ATUALIZAÇÃO, quinta-feira 24/02, 08h19 – Um pouco mais sobre o mito da divisão igualitária de cotas. Analisando o que aconteceu nas 3 principais ligas americanas, a partir  do ano de 1971, em que foi disputado a primeira edição do Campeonato Brasileiro de futebol:

A NFL, tida como exemplo de equilíbrio produzido por cotas iguais, teve 16 campeões.

A NBA, que tem teto salarial, teve 13 campeões.

A MLB, em que os maiores ganham mais dinheiro, teve 20 campeões.

O Campeonato Brasileiro teve 17 campeões (contando Sport e Flamengo em 1987) até hoje.

Novamente, portanto, a liga (MLB) em que “poucos times têm chances” produziu mais campeões do que a liga (NFL) em que “todos têm chances”, desde 1971.

Se você diz que A leva a B…

O que acontece é uma interpretação errada daquilo que a NFL promove. A NFL afirma, até em campanhas publicitárias, que, a cada domingo, ninguém sabe o que vai acontecer em suas arenas.

Ou seja: compre o ingresso, vá ao estádio, compre o pacote de pay-per-view, veja o jogo. Seu time pode ganhar.

Isso não é exatamente o que acontece no Campeonato Brasileiro? O futebol, o nosso, não é o esporte em que o mais fraco pode ganhar do mais forte?

Agora, ser campeão é uma conversa inteiramente diferente. Todos os anos, vários times da NFL começam a temporada sabendo que não estarão no Super Bowl.

Socializar as cotas, como se vê nos números acima, não resolve o problema.



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