COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

SIMULAÇÃO DE EFICIÊNCIA

O nome Robert Fitzgerald lhe diz algo? Provavelmente não. Ou talvez seja apenas uma questão de ligar os pontos. Aí vai: Fitzgerald é o desocupado que, no dia 8 de janeiro, invadiu um campo de futebol na Inglaterra e deu um soco na cara de um jogador. Aconteceu depois da surpreendente derrota do Newcastle para o Stevenage, clube da quarta divisão, em jogo da FA Cup.

Fitzgerald diz que agiu por amor. Sua atual namorada teve um relacionamento anterior com Scott Laird, o jogador que ele agrediu. Laird não teria tratado a moça como ela merece e por isso Fitzgerald bolou um plano para vingá-la. Durante a partida, atirou uma garrafa de água e um hamburguer na direção do jogador. Depois, tentou cuspir no rapaz. Quando o campo do pequeno estádio do Stevenage foi invadido na comemoração, ele achou Laird e o derrubou com um murro no rosto.

Tudo foi captado pelas câmeras de televisão. Fitzgerald foi rapidamente identificado e indiciado três dias depois do jogo. Repetindo: três dias depois. Anteontem, uma juíza o informou sobre detalhes importantes de seu futuro próximo: doze semanas de cadeia e seis anos proibido de freqüentar estádios de futebol na Inglaterra e no País de Gales.

Você sabe para onde vai esta coluna, não sabe? É evidente. Três dias depois que um policial civil entrou armado num estádio paraibano e disparou um tiro para o alto, como poderíamos evitar a relação entre os episódios? São situações diferentes, claro. E é importante dizer que o policial em questão já foi afastado e responderá a processo. Mas o ponto aqui é outro. Suponha que um ato de estupidez como o de Robert Fitzgerald aconteça num estádio brasileiro. Sabe qual é a chance de terminar em punição parecida? Mínima. E não é por falta de leis. Nem mesmo por falta de aplicação delas.

O que Fitzgerald fez está previsto pelo nosso Estatuto do Torcedor, alterado em julho de 2010 no que diz respeito à violência em competições esportivas e outros crimes, como fraude e cambismo. É o artigo 41-B: “promover tumulto, praticar ou incitar a violência, ou invadir local restrito aos competidores em eventos esportivos”. A pegadinha está na pena: reclusão de um a dois anos e multa, o que dá aos Juizados Especiais Criminais a competência para julgar essas infrações.

Não era para ser assim. A proposta de modificação do Estatuto, formulada depois do escândalo da “Máfia do Apito”, previa pena maior. O texto aprovado, no caso da violência, não resolve o problema. No JECRIM, a punição se transforma em pagamento de cestas básicas.

Nós temos a legislação específica para lidar com a violência nos estádios, mas é uma legislação ineficiente. A oportunidade de avançar nessa área surgiu e não foi aproveitada, o que leva a crer que há gente interessada em deixar as coisas como estão.

Se Robert Fitzgerald freqüentasse nossos campos, ele estaria apenas constrangido por ter socado um jogador do time para o qual torce, após uma vitória histórica.



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