RONALDO



Em toda conversa sobre Ronaldo, sempre conto uma história que aconteceu em 2002 (já a transformei numa coluna no jornal. Se você já a conhece, perdão pela repetição).

A Seleção Brasileira, em preparação para a Copa do Mundo, faria um amistoso em Barcelona contra a Catalunha. Junto com um produtor da ESPN Brasil, eu estava na porta do hotel em que o time se hospedaria.

O ônibus se aproximou, a segurança se mobilizou e nos separamos. Ficamos em lados opostos do “corredor”. De onde eu estava, podia ver meu colega, prestando atenção no desembarque. Jornalista experiente, com coberturas internacionais e vários jogos da Seleção no currículo.

Os jogadores começaram a descer. Roberto Carlos, Rivaldo, Cafu, Ronaldinho Gaúcho… Ronaldo.

Por algum motivo, olhei para meu colega. Parecia que ele estava diante de um ser extraterreno. Olhos arregalados, boquiaberto, uma expressão que misturava a comoção de uma criança com a certeza de estar diante de alguém incomum.

Isso é Ronaldo. Isso é o que ele provoca nas pessoas.

Lógico que, para muita gente, a maneira de vê-lo mudou no final de 2008, quando Ronaldo voltou ao Brasil. Voltou para deixar de ser “um jogador de todos nós” (ótima frase de Muricy Ramalho), para ser um jogador do Corinthians.

O casamento com a segunda maior torcida do Brasil significou o divórcio com a maior. E sua transformação em ícone do corintianismo o fez vítima de algo quase tão poderoso – o anticorintianismo.

Mas a crítica de que ele não passaria de uma jogada de marketing não sobreviveu ao segundo jogo. O “gol do alambrado” contra o Palmeiras livrou o Corinthians de uma derrota e internacionalizou o Prudentão. O momento será lembrado em cada jogo de futebol realizado lá, para sempre.

Vieram outros gols. Mas não foram apenas gols.

Foram gols como o que ele marcou contra o Santos, no domingo em que a Vila Belmiro o estimulou a emular Pelé.

Como o que ele marcou contra o São Paulo, rasgando metade do campo numa velocidade que parecia impossível.

Como o que ele marcou contra o Internacional, no primeiro jogo da decisão da Copa do Brasil.

Ronaldo também foi campeão duas vezes pelo Corinthians, o que, por si só, já deveria ser suficiente para carimbar sua passagem pelo clube como um sucesso.

Mas ele fez mais, até. O corintiano comum, aquele que não se sente dono do clube e é incapaz de agir como vândalo, sente-se privilegiado por ter visto um jogador como Ronaldo vestido com a camisa de seu time.

Sente-se diferenciado por ter comemorado gols de um dos maiores de todos os tempos.

A hora mais favorável para a despedida teria sido o fim de 2009? Parece consenso que sim.

Mas Ronaldo teve motivos mais do que compreensíveis para jogar em 2010, ano do centenário de seu clube e de participação na Copa Libertadores.

Fora isso, não é justo criticar, por excesso de horas extras, alguém que perdeu tanto tempo de futebol por causa das lesões.

Maior artilheiro da história das Copas, melhor do mundo três vezes, (provavelmente) maior atacante de todos os tempos, jogador brasileiro mais importante pós-Pelé.

Felizes de nós, todos nós, que o vimos do começo ao fim.



MaisRecentes

Vencedores



Continue Lendo

Etiquetas



Continue Lendo

Chefia



Continue Lendo