COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PROCON

A torcedora de 55 anos chegou ao estádio para ver a decisão do campeonato, acompanhada de seu filho. No local especificamente designado, três horas antes do início do jogo, um funcionário os avisou que os assentos ainda não estavam liberados. A próxima comunicação foi mais precisa, mas não menos assustadora: os assentos não seriam liberados.

A pior parte ainda não tinha começado. Com os ingressos em mãos, eles foram “orientados” a procurar um responsável pelo estádio. Depois outro. Depois outro. E depois outro. Cada um contou uma história diferente, se eximiu de culpa e fez a fila andar. Já seria suficientemente enervante se as conversas tivessem acontecido em locais próximos, mas, claro, desgraça pouca é bobagem. A procissão os fez subir e descer escadas, conhecer longos corredores. Uma canseira de números precisos. A torcedora estava usando um pedômetro (não me pergunte por quê) que, ao final da provação, marcava cerca de 16 quilômetros percorridos. Está certo, 16 quilômetros.

Mas o final foi triste. Junto com centenas de outros torcedores que tinham comprado ingressos para o mesmo setor, mãe e filho terminaram alocados num dos bares do estádio. Comida e bebida foram oferecidos de graça, mas jogo, que é bom, nada. Ou quase. Havia uma televisão ao alcance dos olhos, mas não dos ouvidos. E eles ainda tiveram sorte por conseguirem encontrar duas cadeiras. Muitos ficaram no chão.

Terrível. Mas, acredite, teve gente que se deu pior. Nossos personagens estão entre cerca de 3 mil pessoas que foram inexplicavelmente mal tratadas pelos organizadores do jogo. Mas pelo menos estavam dentro do estádio. Um grupo de 400 infelizes nem isso conseguiu. Diferentes níveis de problemas relacionados a cadeiras temporárias (porque o plano era quebrar um recorde de público) os impediram de entrar.

As cenas descritas acima poderiam tranquilamente acontecer no Brasil. Já vimos coisa bem pior. Poderiam acontecer em muitos outros países onde dirigentes esportivos têm muito mais sorte do que juízo. Mas não. Aconteceram nos Estados Unidos, exemplo de realização de eventos. Na NFL, liga esportiva mais bem administrada do Sistema Solar. No Super Bowl, momento mais nobre dos esportes americanos. E no novíssimo Cowboys Stadium, que custou mais de 1 bilhão de dólares.

Mas este texto não deve ser usado para absolver os culpados por nossas freqüentes aberrações organizacionais. Sim, torcedores podem receber péssimo tratamento em qualquer lugar. A questão é o que acontece depois.

A NFL ofereceu “planos” de ressarcimento aos prejudicados. Aqueles que só chegaram a seus lugares depois que o jogo já tinha começado ou foram acomodados em outros setores de cadeiras, poderão optar entre um reembolso do valor oficial do ingresso e uma entrada para um futuro (a escolher) Super Bowl. Quem não entrou no Cowboys Stadium receberá três vezes o valor do ingresso e um tíquete para o próximo Super Bowl, ou ingressos e despesas pagas para um futuro SB. Mesmo assim, duas ações já estão em curso na Justiça americana.

Lá, adianta reclamar.



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