CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

O APITO CASEIRO, EXPLICADO

Se você gostou de “Soccernomics”, e lê em inglês, corra para sua livraria virtual preferida. Acaba de sair mais um livro formidável para quem acredita que o que acontece num campo de futebol (e em outras arenas) pode ser explicado.

“Scorecasting”, escrito pelo economista Tobias Moskowitz e pelo jornalista L. Jon Wertheim, ambos americanos, não trata só de futebol. Mas, quando trata, é interessantíssimo. Uma das propostas dos autores é desvendar a vantagem do mandante nos mais variados esportes. Não é segredo para muita gente que, no futebol profissional, em qualquer lugar, cerca de 60% dos jogos são vencidos pelo time que joga em casa. Mas talvez seja surpreendente descobrir que esse é basicamente o percentual de vitórias do mandante em qualquer esporte, e em qualquer época. Os números são assustadoramente constantes.

Moskowitz e Wertheim decidiram investigar os motivos. Começaram pelos mais aceitos. O argumento do apoio da torcida caiu quando eles conseguiram quantificar o impacto do comportamento do torcedor no desempenho dos jogadores. Foi necessário isolar o momento em que a performance independe de companheiros, adversários ou arbitragem, e só pode ser influenciada pela pressão externa: no basquete, o lance livre; no futebol, o pênalti. Os autores descobriram que, em casa ou fora, o aproveitamento é o mesmo. Individualmente, jogadores não erram mais quando a torcida está contra.

Os argumentos do cansaço pela viagem do visitante e da melhor adaptação do mandante ao “seu” estádio também tiveram vida curta. Bastou analisar o histórico dos confrontos entre times que dividem o mesmo estádio, ou que jogam em arenas diferentes na mesma cidade ou região. Mesmo quando o visitante não precisa viajar e conhece perfeitamente o local do jogo, o percentual de vitória do mandante se mantém.

“Scorecasting” apresenta uma teoria para a vantagem do mandante. Ela aponta para a arbitragem, mas não da maneira que você imagina. Um estudo feito usando jogos da Liga Espanhola de futebol isolou decisões de árbitros num ponto em que eles raramente são questionados: os acréscimos. A diferença de tempo adicionado quando o time mandante está ganhando, em oposição a quando está empatando ou perdendo, é gritante. Os números de faltas marcadas e cartões distribuídos também são desequilibrados. E quanto mais gente no estádio, maior é a discrepância. O livro traz muitas outras análises instigantes.

“A psicologia mostra que a influência social é uma força poderosa que pode afetar o comportamento humano e as decisões, sem que as pessoas percebam. Psicólogos chamam essa influência de conformidade, porque ela faz com que a opinião de uma pessoa acomode-se à opinião de um grupo.”, escrevem os autores.



  • Anna

    Excelente dica! Vou comprar o livro. A Psicologia é fator importantíssimo nos esportes!

  • Leandro Azevedo

    Andre,

    Na Sports Illustrated o Wertheim e “O” jornalista de tenis. Ele fez algum comparativo com performances de Copa Davis, em que o fator casa normalmente pesa bastante e o atleta esta muitas vezes sozinho na quadra? Esse seria um estudo interessante.

    Terminei de ler a pouco tempo o livro “GM” sobre o ano do Giants e foi muito bom realmente. Se voce se interessa sobre livros de ficcao (jornalistico / policial) recomendo a trilogia do autor Sueco Stieg Larsson em que o 1o livro em ingles chama “The Girl with the Dragon Tatoo”.

    Abraco

  • alex

    por isso que o safado do só ganha algo no Brasil…

  • Marcel Souza

    André, muito interessante! Mas essa justificativa se ajusta ao futebol, mas e quanto aos esportes que o relógio para, tipo basquete? Aliás, falando em basquete, como foi bem dito no “Jordan Rules”, cada time mandante tem suas “manhas” em casa, como o a cesta do Detroit que era um pouco inclinada e facilitava os rebotes do time da casa. De qualquer forma é uma questão complexa. Ainda bem que tem loucos pra estudar o assunto. Nós curiosos e apreciadores dos esportes gostamos!

    AK: O livro fala muito de NBA e basquete universitário, e mostra como as arbitragens são caseiras especificamente no que se chama de “non-call”, ou seja, os lances faltosos que não são apitados. Mas a NBA é um caso diferente de vantagem do mandante, porque a Liga estimula abertamente que os times vençam em casa, para que o “cliente” vá embora satisfeito. Um abraço.

  • Fred Ferreira

    “A psicologia mostra que a influência social é uma força poderosa que pode afetar o comportamento humano e as decisões, sem que as pessoas percebam. Psicólogos chamam essa influência de conformidade, porque ela faz com que a opinião de uma pessoa acomode-se à opinião de um grupo.”

    Imagine só se esses grupos que formam as opiniões forem veículos de comunicação poderosos,com “infinitos” interesses financeiros e comercias….Dá pra entender bem as diferenças de tratamento que a imprensa tem com os clubes. Aliás, o que a mídia não faria se o Ronaldinho tivesse jogado a bola que o Rivaldo jogou na estréia ?

    AK: Acho que seria uma boa ideia se você resistisse à tentação de comentar posts relacionados ao Flamengo. Para a sua própria paz de espírito e para evitar exposições de ignorância. Que tal? Um abraço.

  • Fred Ferreira

    Paz de espírito eu já tenho, ser revoltado com a postura da imprensa pra mim é um hobbie.
    Tendo em vista que, nos últimos tempos, a classe de jornalistas esportivos se tornou num bando de interesseiros e bajuladores profissionais.

    Da mesma maneira que a ESPN faz tudo pra confrontar os interesses do governo, eu faço tudo pra confrontar o interesse da mídia. Você também dá conselhos pros seu “coleguinas” pararem de criticar a CBF e o COB ?

    Se você e seus coleguinhas, que são pagos e nem precisam de diploma, falam e escrevem um monte de asneiras e bajulações, por que eu teria vergonha de me expressar ?

    AK: Você não deveria ter vergonha de se expressar. Deveria ter vergonha de se expressar de forma tão ignorante. E a única pessoa que se engana com essa conversa de hobby é você. Sinal de falta de ocupação. Um abraço.

  • Fred Ferreira

    Um dos motivos da minha paz de espírito é porque, graças a muito esforço e trabalho, já sou bem sucedido e realizado financeiramente, portanto, esse papo de ocupação, pra mim não serve, é pra quem ainda precisa correr atrás….Porque, quem não precisa de mais dinheiro, ocupa o tempo da maneira que achar melhor.

    Se, eu me expresso de forma agressiva com a imprensa , é justamente para deixar bem claro o meu ENORME descontentamento com postura geral existente na mídia atual.

    Numa boa, não tenha nada contra você. Gosto de ser respondido e confrontado. Sei que sou bastante agressivo mesmo nas minhas críticas, e gero sua antipatia por causa disso. Vou procurar ser mais moderado, mas, se você quiser, eu para de escrever pro seu blog. Um abraço

  • Maurício

    Caro André,

    Muitas vezes é preciso tomar cuidado com as análises econométricas que isolam variáveis para verificar sua significância. Isolar o momento em que a performance independe dos companheiros, tomando o penalti como variável, é um argumento sofrível. Outros tantos momentos dependem da pressão externa exercida pela torcida, positiva ou negativamente. Um jogador que é xingado o tempo todo não estaria mais disposto ao erro ? Ou um time que se vê pressionado pela torcida o tempo todo jogará da mesma forma que em uma situação normal ? acertará o mesmo número de passes ? Um time que é apoiado o tempo todo não teria mais disposição ? 
    O recorte de variáveis é sempre perigoso, porque se escolhendo apenas um momento se perde o contexto onde ele foi criado, e o contexto pode ser, muitas vezes, determinante. Seu pai que é formado em c. sociais deve saber bem disso.

    A dica é interessante e sucita boas discussões!
    Abraços

    AK: O livro também aborda as variáveis que você aponta, além de muitos outros temas interessantes, como por exemplo o mito do jogador que aparece na “hora da verdade”. O problema é que minha coluna não pode passar dos 2700 caracteres… Mas acima de tudo, a ideia dos autores é essa mesmo: discutir. Um abraço.

  • Alexandre

    Como não li o livro, meu comentário pode estar equivocado, mas o momento do pênalti não deveria ser usado para analisar a influência do “fator torcedor” na performance dos times, pois se neste momento a performance independe de companheiros, adversários ou arbitragem, ela também independe do torcedor, que geralmemente fica calado e nervoso, não apóia como o faz durante o resto do jogo.
    Aliás, a impressão que tenho é que durante os pênaltis o clima de tensão entre os torcedores mais atrapalha o time da casa do que o inverso.
    Mais apropriado para analisar a influência do “fator torcedor”, independentemente de outros fatores, seria comparar a performance dos times em jogos com estádio cheio e jogos com pouco público.
    Por fim, metendo o bedelho no seu “debate” com o Fred Ferreira, creio que ele erra na forma, mas acerta no conteúdo. Toda generalização é leviana, mas que há falta de isenção por parte da mídia devido a interesses comerciais, isto é evidente, e não se trata só da mídia esportiva.  
    Imprensa independente é uma bênção da democracia, mas opinião (do torcedor ou do cidadão) independente da opinião majoritária da imprensa, é uma bênção ainda maior.

    AK: O livro examinou casos de jogos de futebol com portões fechados. Os achados são curiosos. 

    Sobre a segunda parte de seu comentário: como sempre digo, cada jornalista é responsável pelo que fala/escreve. Generalizações e confusões, especialmente as desprovidas de educação, são perda de tempo. Um abraço.

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