COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

BATE O SINO, PEQUENINO

O espírito natalino dominou a FIFA. Ninguém verá o presidente Joseph Blatter ao comando de renas puxando um luxuoso trenó pelas ruas geladas de Zurique. Não, normalmente os presentes fazem o caminho inverso, como mostraram as recentes denúncias publicadas pela imprensa inglesa, sobre o processo de escolha das sedes de Copas do Mundo. Jornalismo “de emboscada”, método discutível e revelador.

Mas isso não significa que Noel, o bom velhinho, não tenha capacidade para inspirar o dono da bola mundial. No caso em questão, a rota do trenó trocou o frio da Suíça pelo calor dos Emirados. Em Abu Dhabi, onde a Copa do Mundo de Clubes termina (ainda?) amanhã, Blatter mandou avisar: “Talvez tenhamos que tocar o sino no Brasil para dizer que a Copa é em três anos e meio”.

É refrescante perceber que o alarme do presidente da FIFA disparou, ainda que os alarmes nacionais pareçam vítimas de falta de energia. Talvez eles até toquem mas sejam interrompidos pelo bendito botão “snooze”, que remarca o barulho para dez minutos mais tarde. O problema é que a soneca por aqui está mais longa.

Um pouco de matemática (que já não era meu forte vinte anos atrás, quando era importante) de nível psicotécnico: se a Copa do Mundo no Brasil vai acontecer em três anos e meio, a Copa das Confederações acontecerá em dois anos e meio, correto? Acho que é isso. Bom… de acordo com o que temos ouvido de gente que conhece a matéria, ergue-se um estádio desse nível em dois anos sem muito drama. Foi o que fizeram na África do Sul, onde vários alarmes sobre atraso de obras soaram, mas a Copa ficou em pé.

Antes, os sul-africanos fizeram a Copa das Confederações com quatro sedes. A pergunta é se há alguma razão prática para crer que o Brasil fará igual, lembrando que o evento tem dois propósitos: testar a capacidade local de organização e mostrar à imprensa estrangeira o que está pronto para o Mundial. De fato, há uma pergunta mais urgente, sobre o número de estádios da Copa de 2014. Quantos serão? A ideia original era doze. Recentemente, um executivo de uma grande construtora falou em dez, talvez oito. Hoje não temos nenhum, mas esse não é o motivo principal da preocupação da FIFA.

“Quanto aos estádios, eles estão caminhando. Mas quanto à infraestrutura, não estou certo”, disse Blatter. Por infraestrutura, entenda-se aeroportos (ou “aeropartos”, como tão bem escreveu José Simão, na Folha de S. Paulo de ontem), setor em que a situação consegue ser pior. Mas é muito pior para quem viaja no Brasil do que para quem viaja ao Brasil. E é assim há tempos. A Copa do Mundo ser a razão para que se decida modernizar os aeroportos brasileiros diz o suficiente a nosso respeito.

O Mundial é bônus para alguns, ônus para muitos. Se os problemas do Brasil estivessem restritos a estádios, aeroportos e hotéis, o Natal seria melhor. A FIFA também estaria menos preocupada com nossa infraestutura. Será que Blatter não quer tocar o sino da habitação, das escolas e dos hospitais?



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