COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O W.O. DA RAZÃO

Duvido que algum dirigente do Corinthians tenha se surpreendido com uma declaração recente de Wlademir Pescarmona, diretor de futebol do Palmeiras. São raros, afinal, os cartolas brasileiros que não se expressam como fanáticos, que se preocupam em pensar por um ou dois segundos antes de falar em nome de seus clubes. Seja qual for a pérola, haverá similares.

Na noite de quarta-feira passada, pouco depois que o Goiás tirou o ar do Pacaembu, Pescarmona tratou de recuperar a frequência cardíaca de seu time: “Nossa folha salarial é de time europeu, mas o futebol é de time de segunda divisão”, declarou. Uau. Não se discute que a) ele pode estar certo, e b) tem direito à crítica. Mas os efeitos da chicotada são duvidosos por causa da exposição pública de um time que (surpresa!) tem jogo neste domingo. E no outro também. Há uma explicação, porém: o referido dirigente não está nem aí para as duas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro. E certamente não está sozinho.

O que nos leva à declaração mencionada (sim, tem outra) no início da coluna, mudando a conversa para outro DDD. Imagine que você é um dirigente do Cruzeiro. Seu time está na luta pelo título, apesar de todas as controvérsias do apito que, a seu ver, o prejudicaram tragicamente. A duas rodadas do final, a chance existe, mas depende de outras pernas. Dois times que estão acima precisam perder pontos. O próximo jogo de um deles é contra o Palmeiras. E aí você ouve um diretor palmeirense dizer o seguinte: “Por mim, o time nem entrava em campo, a gente dava W.O.”.

“Eu assisti ao jogo de quarta-feira e acompanhei essa declaração ao vivo”, conta Valdir Barbosa, gerente de futebol do Cruzeiro, por telefone. “É uma irresponsabilidade. Não podemos desmoralizar um campeonato que ganhou credibilidade. Um dirigente não pode dizer uma coisa dessas”, completa. Barbosa entende que esse tipo de devaneio não pode passar despercebido. “É passível de punição pelo tribunal da CBF. Foi uma declaração pública, as pessoas responsáveis precisam estar atentas”, pondera.

Ele está absolutamente certo. Leviandades de outra natureza, como por exemplo as assinadas pelo presidente cruzeirense, Zezé Perrella, sobre a comissão de arbitragem, podem ser resolvidas na Justiça. Sugestões de fraude em jogos do principal campeonato de futebol do país acabam justificadas pela emoção do torcedor. “Mas um dirigente dizer isso é decepcionante e revoltante”, afirma Barbosa, que deve imaginar como as palavras de Pescarmona repercutiram mal dentro do próprio Palmeiras. Além de castigar o time publicamente, o dirigente deixou os jogadores que enfrentarão o Fluminense em situação constrangedora. “Digamos que ele não foi muito inteligente”, diz uma fonte bem informada.

A rivalidade no futebol brasileiro tem sido usada para legitimar diferentes níveis de barbaridades. Há muito tempo deixou de ser produto de admiração, respeito, e da sensação de derrotar alguém que nos obriga a ser cada vez melhor. Dane-se o rival. E dane-se também quem não tem nada com isso, como o Cruzeiro.



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