COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MÃO NA BOCA

“Foi você que ligou agora há pouco?”, perguntou meu interlocutor, um bem informado “infiltrado” (no bom sentido) do futebol. Respondi que sim. “Desculpa, eu estava na outra linha, falando com um pessoal de Porto Alegre. O Giuliano foi escolhido o melhor jogador da Libertadores…”, ele contou.

Nosso assunto, ou melhor, meu assunto com ele era outro. Tarde de quarta-feira, eu estava em busca de um tema para a coluna do dia seguinte. A informação sobre o jogador do Internacional ficaria para depois, mas lembro do que pensei na hora: merecidíssmo.

Esses prêmios de “melhor…” sempre são discutíveis, porque é muito difícil separar o desempenho individual de um jogador do desempenho do time do qual faz parte. Mas é bem capaz que Giuliano tenha sido mesmo o cara que jogou mais bola na Libertadores 2010. Se não foi, provavelmente foi o jogador crucial na trajetória do Inter campeão, o que significa muito. Por não ser titular do time, seus seis gols na Copa foram realçados pela pinta de predestinado. O garoto era chamado no banco e mexia no placar.

Giuliano fez dois gols contra o Deportivo Quito, um contra o Estudiantes, um contra o São Paulo e dois contra o Chivas Guadalajara. O mais importante foi o gol marcado na derrota para os argentinos, no segundo jogo das quartas de final. O Estudiantes vencia pelos 2 x 0 necessários, até Giuliano ser lançado por Andrezinho na área e tocar cruzado, com a crueldade de um goleador experiente. Aos 43 minutos do segundo tempo, quando a eliminação já era palpável. Não há muitos jogadores de 20 anos (ele ainda tinha 19 naquela noite) por aí capazes disso.

Poucas horas depois da conversa telefônica que mencionei, o Inter recebeu o Fluminense, na trigésima-terceira rodada do BR-10. E o talismã da segunda Libertadores colorada, o melhor jogador da competição na opinião de jornalistas de todos os países envolvidos, foi vaiado no Beira-Rio. Pela torcida do Inter.

O 0 x 0 meio que significou o fim da linha no Campeonato Brasileiro para o Internacional. Como só o título (que não vem desde 1979) interessaria, ficou evidente que o melhor a fazer é tratar de ser campeão do Mundial de Clubes, em dezembro. É possível, por mais impossível que pareça, que alguns torcedores tenham visto nos três ou quatro passes que Giuliano errou no jogo, a explicação para a posição do time na tabela, que, lembre-se, não é ruim. Em sexto lugar, o Inter teria chances de brigar pela Libertadores 2011. Mas espera um minuto: foram os gols de Giuliano que tornaram essa tarefa desnecessária, não foram?

Um meia que tem ótima chegada no ataque, chuta bem e gosta de ser decisivo. Pouca idade, muito futuro. Não dá para imaginar um torcedor do Internacional que não perceba que Giuliano é especial. Vaiá-lo é nonsense.

Não se pretende aqui elevar o garoto, desde já, ao nível de imunidade de Guiñazu. Mas qual é o ponto de mexer com a cabeça dele? Como disse o vice de futebol do Inter, Fernando Carvalho, “o torcedor tem de pôr a mão na consciência”.

Ou na boca.



  • Roberto Carlos

    Desculpe a curiosidade, já que o assunto era outro que originou a ligação para o seu interlocutor que assunto era esse?
    Abraços
    Roberto Carlos

  • Bruxel

    E daonde saiu o Giuliano tem mais, André. O Paraná Clube revelou agora um menino chamado Kelvin que, anote, jogará mais que Neymar muito em breve. Pergunte para quem você quiser.

    Claro que venderemos ele por meia dúzia de prato de comida, à prestação, assim como foi o Giuliano, graças à nossa gloriosa diretoria que pensa em apagar incêndios sempre, gastando muito com apostas de empresários amigos e liberando os diamantes da base por 700 mil reais.

    Sucesso ao garoto e paciência à torcida do inter.

    Abs

  • Eduardo

    Moro em Londrina-PR, sou colorado e não acreditei quando ouvi aquilo. Foi lamentável a falta de respeito e reconhecimento por parte da torcida. Ele decidiu a Libertadores para o Inter. Memória curta é pouco para esses imbecis.

    Eu posso concluir que os vermelhos estão muito mal acostumados, pois se o Giuliano estivesse num time que nunca conquistou a América receberia uma estátua e não ouviria vaias mesmo marcando gol contra.

  • Eduardo

    A propósito, acabei de mandar uma mensagem e quero te fazer uma pergunta que não é o mesmo assunto do tópico, se puder me responder por e-mail eu agradeço.

    Gostaria de saber se você já leu o livro Money Players que fala sobre os bastidores da Nba na década de 90. Eu não consegui achar ele em nenhum lugar. Eu tenho uma curiosidade em saber qual foi o escândalo que o Isiah Thomas se envolveu com apostas após ter sido campeão. Ele assim como Michael Jordan eram viciados em jogos. Muitas apostas dentro da casa do Isiah e ele tinha várias dívidas é isso? Ou as apostas eram relacionadas aos resultados dos jogos da NBA e ele tinha participação nisso?
    Valeu!

  • Thiago Mariz

    Vale aquele clichê: torcedor tem memória curta.

  • Acho que torcedor brasileiro não entende sua função. Tem muito torcedor mal acostumado por aí que acha que só o time dele pode ser campeão. Essa mesma visão é projetada na seleção durante as Copas. A torcida só está ao lado quando a seleção é campeã, quando perde, enche o aeroporto para (sem nenhuma explicação plausível) xingar os jogadores e cobrar (como se tivessem direito para tal) a má atuação (mesmo que não tenha sido uma má atuação).

    Considero que tudo isso está incluído em um contexto maior, no qual há um desrespeito à liberdade do atleta, que muitas vezes é vigiado. É como se o torcedor se sentisse dono do clube a ponto de agir como patrão dos jogadores. Extremamente exagerado!

  • Luiz Felipe

    Concordo com todo o teu texto.

    Eu tava no estádio (estou sempre, na verdade), e fiquei com vergonha por quem vaiava. Até porque o Giuliano é super humilde, guri família, jogador de grupo mesmo, que nunca reclamou quando esteve no banco.

    Agora, uma coisa é fato: fala-se muito da “tuma do amendoim” do palmeiras. Eu não tenho nenhuma dúvida que, perto da arquibancada social do beira-rio (aquela embaixo das cabines de imprensa, de onde veio a vaia), essa turma do amendoim seria um bando de beatas.

    O próprio Muricy volta e meia repete que, quem trabalhou no inter, aguenta qualquer tipo de pressão.

  • Érico Oyama

    Memória é algo que o torcedor possuí apenas na hora de zombar da cara de um rival ou se defender das tirações de sarro. Além disso, gratidão não costuma ser um sentimento recorrente, isso ajuda a explicar o enorme êxodo de jogadores.

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