COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

CAÇADORES DE MITOS

Tenho um amigo que é um “conspiracionista” incorrigível. Tipo de cara que tem certeza absoluta de que, por trás de tudo que acontece, há o interesse escuso de alguém. Se falta salmão nos restaurantes japoneses, é por causa da ação da máfia das churrascarias. Se acabou a luz na sua casa ontem à noite, é porque o vizinho fez um gato para roubar o sinal de sua TV a cabo. Sua garganta inflamada não sara? Jogaram no ar um vírus para vender remédio.

Ele também é um eterno desconfiado. Acha que o saudoso polvo Paul morreu durante a Copa do Mundo da África do Sul, mas só divulgaram agora. E não tem dúvidas de que há um revezamento orquestrado entre as seleções campeãs mundiais. Você sabe, para dar emoção.

Esse meu amigo gosta de Fórmula-1. Na época em que Rubens Barrichello era companheiro de Michael Schumacher na Ferrari e deixava de completar provas por um problema diferente a cada domingo, ele acreditava na lenda do “homem da maleta metálica”. Dizia que havia um misterioso senhor, sempre vestindo um terno preto, circulando pelos autódromos. Costumava andar pela área dos boxes antes das corridas, mas desaparecia ao final. A lenda conta que a tal maleta era um computador que controlava o carro de Barrichello. Um botão para pane seca, outro para pneu furado, outro para mais um pit stop. O cara escolhia um e Rubinho parava.

Na quarta-feira passada, já tarde da noite, meu celular tocou. Era meu amigo, com uma notícia inacreditável: o homem da mala metálica tinha sido visto entrando num táxi em frente à Arena do Jacaré, pouco antes do final do jogo entre Atlético Mineiro e Palmeiras.

Agora, é preciso voltar à realidade. E perguntar se o estranhíssimo caso do pênalti revertido vai ficar assim mesmo, sem mais detalhes. Jogada pela esquerda do ataque do Palmeiras: Lincoln – impedido – lançado, entra na área e é derrubado por Jairo Campos. Pênalti. O assistente Erich Bandeira – que não levantou seu instrumento – corre para a linha de fundo. Kléber pega a bola e se prepara para a cobrança. Jogadores do Atlético cercam o árbitro Marcelo de Lima Henrique, que vai conversar com Bandeira, o bandeira. Mudança de planos: Lincoln estava impedido, o pênalti não aconteceu. Sério, vamos tratar esse interessante episódio como algo sem importância?

Veja, não há nada de errado em reformar uma decisão. Se o assistente tem convicção do que viu e pode ajudar o árbitro a corrigir a marcação, palmas para ele. Mas tem algo que não fecha nesse caso específico: Erich Bandeira viu ou não viu que Lincoln estava impedido? Essa é uma pergunta que gera outras, numa versão futebolística do ovo e da galinha. Se viu que Lincoln estava impedido, por que não levantou a bandeira ou alertou o árbitro imediatamente após a marcação do pênalti? Se não levantou a bandeira e não alertou o árbitro imediatamente, como concluiu que Lincoln estava impedido? Há elementos suficientes para imaginar que houve interferência externa, o que, como sabemos, é proibido no futebol.

Há uma versão de que o assistente pensou que a jogada tinha se iniciado em cobrança de lateral, o que eliminaria o impedimento. Cola? Meu amigo acha que não. Se o homem da maleta estava lá, aí tem.



  • Thiago Mariz

    Ironicamente, quando há, de fato, uma história a ser discutida, ela é rapidamente esquecida.

  • luís

    Qual seria o erro maior? O Palmeiras vencer o jogo (sem merecer), com gol de pênalti, estando o jogador em completo e escandaloso impedimento, ou, como aconteceu, com o bandeira assinalando o impedimento, com ou sem interferência externa? Vocês, da imprensa, que pregam tanto o chip na bola, para assinalar se a mesma ultrapassou a linha do gol, não acham que o chip também seria uma interferência externa? Tem certas afirmações que eu não consigo entender. Não estaria havendo bairrismo no caso?

    AK: Você está falando sério? No dia em que o chip na bola for usado (se esse dia chegar), será um recurso oficial, permitido. Bem explicado a todos, e a serviço de todos. Um abraço.

  • Renato Faria

    Eu bem poderia ser o incorrigível rapaz com sua síndrome conspiratória.

    Não sou. 

    Mas farei tal papel. 

    SE fosse a jogada, na outra grande área, com o Tardelli entrando em impedimento e com o mesmo desenrolar, teríamos um POST com os mesmos dizeres: “…sério, vamos tratar esse interessante episódio como algo sem importância?”

    Já disse que sou incorrigível diante da minha síndrome. Tão incorrigível quanto minha paixão pelo Cruzeiro ou pelo desejo de queda do rival alvi-negro. 

    Mas repito, o questionamento seria o mesmo? 

    No mesmo dia que o Cruzeiro teve um gol mal anulado contra o Gremio por impedimento, a imprensa(sorry, mas não dá pra escrever uma centena de nomes aqui, por isso a generalização, incluíndo a vossa pessoa) passou dois dias falando do gol mal anulado do Ronaldo contra o bugre. 

    Simples assim, Simples assado.

    AK: Você tem todos os sintomas da síndrome. E antes de me incluir, leia o que escrevo. Procure as notinhas sobre aquela rodada. Veja se gol mal anulado do Wellington Paulista está lá. Sorry.

  • Érico Oyama

    Todas as vezes que via um amontoado de jogadores indo protestar com o árbitro a marcação de uma penalidade máxima eu pensava: “Que idiotas, não adianta nada reclamar, um juíz nunca vai voltar atrás”. Esse episódio de quinta-feira me fez repensar essa premissa, não é a tôa que jogador de futebol é o ser que mais reclama na faze da Terra.

  • Anna

    Também não acredito em teoria da conspiração. Bem legal o texto.

  • Wanderson – Rio de Janeiro

    Cada dia que passa acha que futebol Brasileiro e um piada em todos os meios. Tudo por causa do Jogo entre Atletico MG X Palmeiras. Como magica descobriram que Sr Luiz Henrique Lima e pessimo.

    Masa engraçado de tudo e o fato deste juiz esta envolvido em jogos polemicos contra o Botafogo. Na eqpoca todos diziam que era time do chororooo. Sera por que era contra o Flamengo?

    Outra Sr Felipão, esse mesmo que foi citado reclamando do campo do Botafofo o famoso engenhão. Deixo cloro que acho um bom profissional, mas na epoca quis questionar o presidente do Boitafogo por revelar a bagunça que deixaram no vestiario. Sr Felipão e mesmo que reclamou do Engenhão e foi elogiado, e o mesmo que chamou a impressa de palhaço e sinceramente esperava ver isso e sua coluna. Quanto ao campo do Engenhão e ao estadio seria bom conhecer, pois o gramado hoje esta uma beleza que até o Ronaldo fez gol lá.

  • Com chip na bola, com tira-teima, com 2 árbitros, mesmo com todas essas inovações, os erros continuarão a existir.

  • Renato Mello

    Sou atleticano. E totalmente favorável a qualquer investigação sobre qualquer coisa errada (SE estiver errada) na vida, não somente no futebol. Portanto, sou a favor que se investigue sim, se o pobre porco foi “garfado” por alguma interferência externa neste jogo; desde que…
    – Se investigue o Brasileirão de 1980, e Aragão dando a vitória para o time carioca
    – Se investigue a Libertadores da América de 1981, onde a arbitragem de José Roberto Wright é tida até por cruzeirenses que conheço como a PIOR da história… e NUNCA vi NINGUÉM da imprensa (fora a Mineira) comentar o caso.
    – Se investigue o Brasileirão de 1985, onde Luís Carlos Félix ANULA um gol LEGALÍSSIMO de REINALDO, onde a bola entra MAIS DE UM METRO, na semifinal contra o coritiba. Segundo muito se disse à época, houve “interferência externa” de Castor de Andrade, famoso bicheiro e Bangu ROXO, que preferia o coritiba na final do que encarar o GALO, armando tudo (não creio nem descreio, apenas repasso a história da época que circula até hoje… mas seria interessante “investigar”, não???)
    – Se investigue porque, em 1994, na semi do Brasileirão entre GALO x corinthians, com Éder suspenso de um lado e Branco do outro do segundo jogo, com os 2 sendo os jogadores mais decisivos de suas equipes, foi concedido o “efeito suspensivo” a Branco para jogar para o “Timão”, e foi NEGADO o efeito suspensivo a Éder; resultado: em uma falta, Branco decidiu a partida…
    – Se investigue porque, em 1996, pela Copa do Brasil, o sr. Wilson de Souza Mendonça conseguiu dar “pé alto” em um gol de BICICLETA do jogador do GALO Fábio Augusto, sendo que a jogada não teve nada de mais. O palmeiras tinha um grande time, e não precisava daquilo. Seria o gol da virada. Depois da anulação, o time morreu em campo.
    – Se investigue porque, em 2000, na Libertadores, no mineirão, entre GALO e corinthians, o árbitro deixou de dar 4 (é, QUATRO) pênaltis para o GALO. O primeiro jogo ficou 1×1. No segundo, o “timão” venceu por 2×1. Quem teve prejuízo???

    Resumindo: Se investigarem e decidirem fazer alguma coisa em relação a todos esses fatos estranhíssimos, ok, vamos lá. Vamos investigar o jogo entre GALO x porquinhos, onde NADA está definido ainda, e onde o GALO jogou com um time reserva a maior parte do tempo, e no 2º tempo com 5 titulares em campo apenas, enquanto o time de verde estava completo e foi INCOMPETENTE e não conseguiu ganhar. Se é assim que tem de ser, ok. Mas no caso de investigarem os OUTROS fatos acima, lembrem-se: TÍTULOS foram perdidos e ABAFADOS, inclusive com a conivência e o silêncio de boa parte da mídia. Então, de boa, André: fazer essa tempestade imensa por causa de um EMPATE incompetente do palmeiras.. tem coisa muito mais séria pra ser “investigada” por aí. Adoro sua coluna, a leio todo dia, e o considero o melhor colunista esportivo do país na atualidade; mas desta vez, creio que exagerou sem motivo. Claro, é apenas minha opinião; e se formos cobrar este jogo, cobremos os OUTROS absurdos citados acima também. Muitos dos “responsáveis” ganham uma boa grana hoje em dia comentando ARBITRAGEM, ainda por cima.Daria uma boa CPI, não…? Desde que haja interesse…
    É duro…
    Um abraço,
    Renato Mello 😉

    AK: Obrigado pelo comentário. Mas seu argumento é clubístico, enquanto a discussão proposta pela coluna é maior. Torcedores de todos os clubes podem fazer uma lista de reclamações como a sua, com todos os exageros que normalmente aparecem nessas horas. E certamente haveria quem não concordasse. A torcida do Palmeiras, por exemplo, poderia citar o pênalti marcado no Obina neste mesmo jogo (aliás, eu estaria, sim, fazendo uma “tempestade”, se escrevesse uma coluna sobre esse lance). Se erros de arbitragem do passado forem usados para legitimar erros do presente, realmente não há motivo para nos preocuparmos com nada. Vamos seguir com a vida, e com as listas de reclamações. Também não concordo com sua referência ao que você chamou de “incompetência do Palmeiras”, para relevar o estranhíssimo episódio que é o tema da coluna. Como se times que não jogam bem “mereçam” ser prejudicados, ou não possam reclamar.

    Mas nada disso, nada mesmo, tem a ver com o ponto central da coluna: não estamos falando sobre erros de arbitragem. Estamos falando sobre um caso que sugere, com todas as letras, interferência externa na decisão do árbitro. Isso é muito, mas muito mais sério do que um pênalti mal marcado ou um impedimento não existente. Se fosse contra o Atlético, eu teria escrito a mesma coluna. E seu comentário (se houvesse), provavelmente seria para concordar comigo. Ou não? Obrigado de novo. Um abraço.

  • Marcel Souza

    Pior do que ninguém mais comentar o assunto é maioria que comenta aqui achar que você escreveu a coluna reclamando que o Palmeiras foi prejudicado. Impressionante!!!

  • O link da IUPST ainda funciona? Tem que redirecionar direto, assim que der ‘send’ no comentário!

  • David

    Nossa, sinto mto pela grosseria, mas permita-me dizer.. como tem clubista enchendo de lixo o blog dos outros… ta loco.. fico morrendo de curiosidade pra saber qual a idade desse povo! Se é tipo, muleque de 13 anos q ja virou cego fanatico e ta aprendendo a opinar sobre futebol assistindo o baixo escalao de comentaristas da TV, ou se é marmanjo de 36 que ainda mora com a mãe e não tem nada de importante acontecendo na vida.

  • Renato Faria

    Marcel, o ponto não é o Palmeiras ter sido prejudicado.

    Também não foi intenção do post falar sobre erros de arbitragem e sim sobre interferência externa. 

    Mas os comentários são legítimos quando dizem que, se a mesma jogada ocorrece do outro lado (não de erro de arbitragem), o senhor colunista não faria o mesmo post. Isso é fato notório. 

    Senhor André, leia novamente, mas não com o estômago. Falei de intensidade. A notinha(inha) que consta o erro de impedimento do WP não corresponde as HORAS de programas sobre os gols mal anulados do Timão(zão). 

    Abraço.

    Renato Faria

    AK: A notinha sobre o erro no gol do WP corresponde à notinha sobre os gols anulados do R9. Cada jornalista é responsável, apenas, pelo que diz e escreve. Por isso, não diga que eu não escreveria a mesma coluna se o prejudicado fosse o Atlético. Você não tem esse direito. Um abraço.

  • Willian Ifanger

    O bairrismo é um câncer.

  • Irineu Curtulo

    A sua intenção no texto foi clara. É evidente que erros ocorrem em todas as partidas, uns mais decisivos, outros nem tanto. Nesse caso, não é a questão do erro em si, e nem mesmo do “voltar atrás”. A questão é: por que, e como se resolveu “voltar atrás”. Nos meus 50 anos de futebol, jamais vi algo parecido. Sua importância a fato jornalístico de suma gravidade é quase que isolado, e, lhe sugiro que continue a tocar nesse assunto, pois merece realmenre ser investigado. Mesmo que seja isolado, continue, para o bem do esporte.

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