CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

2011: O ANO EM QUE EVOLUÍMOS?

Um dia após a FIFA anunciar a reabertura da discussão sobre tecnologia na arbitragem de futebol, Michel Platini fez o impensável para quem o viu jogar: um gol contra. O imortal francês, presidente da UEFA, se disse contrário ao auxílio eletrônico.

Não estamos falando de alguém tão desconectado da realidade (e da capacidade humana de consertar o que está quebrado) a ponto de achar que os erros sustentam a popularidade do futebol, que a polêmica é necessária e psicoses similares. Não. Estamos falando de uma autoridade esportiva, do comandante do segundo órgão mais importante do futebol.

Platini vislumbra uma arbitragem melhor com a adoção dos assistentes atrás dos gols e com mais respeito pelas decisões dos juízes. Não percebe que o uso da tecnologia na linha de gol contempla as duas situações.

Determinar se a bola atravessou ou não a linha do gol jamais deveria ser, em pleno século 21, uma decisão do árbitro ou de um assistente. Somos capazes demais para permitir tamanho atraso. Somos inteligentes demais para insistir nos mesmos erros. E como os sistemas já existentes garantem precisão instantânea, nada poderia ser melhor para que se respeite a determinação da arbitragem num lance que, a olho nu, seria discutível. A tecnologia é o milagre que impede o erro e protege o apito.

No início do mês, a FIFA convidou 17 empresas especializadas a apresentar suas idéias. O encontro produziu 13 sistemas diferentes para determinar se a bola entrou. Eles podem ser divididos em dois grandes grupos: um que trabalha com câmeras instaladas no gol e outro que utiliza um chip dentro da bola. Na semana passada, no País de Gales, o International Board deu prazo até novembro para receber as propostas. A decisão, potencialmente histórica, sai em março de 2011.

O sistema de câmeras tem sido testado, e aprovado, no críquete desde 2001 e no tênis desde 2006. É o chamado “Olho do Falcão”: 6 câmeras captam a trajetória da bola a 500 imagens por segundo. Um computador processa os resultados e, se a bola ultrapassar a linha, um sinal é enviado ao árbitro em meio segundo.

A bola com chip está em desenvolvimento pela parceria entre uma empresa de material esportivo (adivinhe qual) e outra de tecnologia, ambas alemãs. Um campo magnético criado na pequena área e dentro do gol é capaz de “falar” com o transmissor. Quando a bola entra, um computador envia um sinal de rádio para o árbitro, também em menos de um segundo.

Com a quantidade de patrocinadores e os valores que giram em torno do futebol, onde ele é importante, o argumento do custo não fica em pé. E se a questão é a “universalidade” do jogo, por favor… quem não quer a tecnologia na linha do gol deveria também combater a iluminação artificial.

Parece mesmo um gol contra de Platini. Mas a bola entrou? Saberemos em março.



  • Fábio Enik

    Bom dia André,

    Gostaria de saber sua opinião sobre os seguintes comentários:
    – É instalado o sistema de chip na bola e, por alguma eventualidade, ele falha. A bola entra, o juíz viu que entrou mas o chip não acusou. O árbitro terá a prerrogativa de confirmar o gol mesmo indo contra a tecnologia?
    – Vários times no Brasil, inclusive da série A, atrasam os salários de jogadores e funcionários. Eles teriam que financiar o uso dessa tecnologia? Se não, quem financiaria, as confederações?

    Não sou contra a melhoria do esporte. Mas acho que a discussão é maior do que colocar um chip na bola e sair chutando.

    Abraço

    AK: Cara, há uma forma – equivocada, a meu ver – de olhar para o uso da tecnologia na arbitragem, como se ela só fosse válida se fosse infalível. Tipo “se não resolver 100% das dúvidas, não serve”. Ora, cirurgias cardíacas feitas com microcâmeras também não são infalíveis, mas é muito melhor tê-las, não acha?

    Sobre suas perguntas: os testes da bola com chip têm se mostrado absolutamente confiáveis. Mas no exemplo que você citou, penso o seguinte: se o árbitro viu que a bola entrou, qual é a dúvida? No mais se a tecnologia falhar (o que é possível), qual será o prejuízo?

    Os torneios de tênis que utilizam o “Olho do Falcão” não gastam um dólar com o sistema. Ele é financiado por patrocinadores. Não há por que imaginar que o mesmo não pode ser feito no futebol. Na Inglaterra, os inventores do sistema já se propuseram a instalá-lo gratuitamente em todos os estádios da Premier League, em troca dos direitos de divulgação. Nos principais campeonatos do mundo, simplesmente não há desculpa para deixar de usar essa tecnologia por causa dos custos.

    Um abraço.

  • Fábio Enik

    O meu comentário é que mesmo o juíz tendo a convicção de que a bola entrou ele pode se sentir pressionado a não validar o gol pelo fato do chip não ter indicado. Eu ainda acredito que a maioria dos árbitros erram lances tendo a convicção de estarem certos na sua indicação.
    Quanto a questão do investimento é óbvio que as empresas custearam a tecnologia apenas em centros cujo retorno é garantido (Premiere League e torneios de tênis famosos, por exemplo). Caso o uso de tecnologia seja permitido e não obrigatório para todos os campeonatos, acredito que seria benéfico para o futebol. Mas como a FIFA se enxerga como responsável por ditar as regras do futebol em todos os níveis (desde a Copa do Mundo até o Campeonato Campolarguense), acho muito difícil ela permitir essa abertura.

    Obrigado pela resposta,

  • Edouard Dardenne

    Acho que o interesse dos patrocinadores para bancar a implantação destas ferramentas seria maior se a FIFA não pretendesse que apenas o árbitro tenha acesso à solução. O interessante para os patrocinadores seria que, como no tênis, a revisão fosse transmitida pela TV. Aquela inserção de 10 segundos durante a partida em que uma arte de computação gráfica mostra onde a bola quicou vale uma fortuna.
    No mais, o comportamento geral dos torcedores acerca do problema com o assistente no jogo do Palmeiras dá uma mostra de como será quando tivermos uma decisão revertida após o uso da tecnologia.
    Apenas uma pequena parcela das pessoas ficou brava, chocada ou agravada porque parece ter havido uma interferência externa à revelia das regras do jogo. A grande maioria, na verdade, não gostou da sensação de ver um pênalti a favor virar um impedimento contra. Estas pessoas parecem esquecer que de fato houve impedimento.
    Vai acontecer o mesmo quando, um dia, a tecnologia for permitida.
    Mas acho que esta é uma questão de hábito.
    Sou totalmente favorável à utilização ostensiva da tecnologia para ajudar os árbitros (deveria haver uns 3 em campo) a aplicar as leis do jogo.
    Um abraço.

  • Marcel Souza

    Do jeito que esse pessoal da FIFA e UEFA são contra, querem colocar mais auxiliares na linha de fundo e tal, dá a impressão é que eles estão buscando um meio de legitimar a roubalheira… De fato, se tem como solucionar de vez o problema da bola ter ultrapassado a linha, pra que insistir em colocar mais auxiliares?

  • Leonardo Pires

    André, me pareceu muito coerente o comentário do Fábio Enik. Afinal, se o juiz permanecerá tendo a liberdade de, por convicção pessoal, contrariar o que indicar o chip na bola (e o cito meramente como exemplo), a relevância da tecnologia não se torna de menor valor? Aqui não estou fazendo referência a uma falha explícita, entretanto, se o juiz entender por contrariar a marcação apontada pela tecnologia, não estaremos, novamente, reféns da interpretação do árbitro. É nesse sentido que, ainda não – ao menos no caso de aferição sobre a entrada da bola no gol – me posicionando totalmente contra a tecnologia, tenho dúvidas sobre a justificativa para mobilizar tal aparato. Por fim, André, você não vislumbra, sabendo como vive o mundo do futebol, possibilidade de, dissimuladamente, patrocinadores de times também patrocinarem a tecnologia utilizada, contrariando, em tese, a lisura dos resultados?

  • Willian Ifanger

    Acho que só há uma forma de saber se vai funcionar ou não: testando e colocando em prática. Senão serão apenas muitas e muitas especulações e hipóteses.

    Tecnologia geralmente se aprimora com o empirismo.

    E quem é a favor da tecnologia sabe que não teremos 100% de precisão e tudo será perfeito. Mas os erros serão minimizados.

    Na NFL se usa recurso eletrônico há um bom tempo…..melhoraram muito as arbitragens, mas vira e mexe toda semana tem um ou outro erro que ainda depende de interpretações……mas aí o árbitro explica o que interpretou e segue a vida.

  • Tudo aquilo que vêm para ajudar é bem-vindo.
    O chip instalado na bola, pode salvar muitos árbitros, e também, muitos resultados de jogos. A Copa-2010 nos mostrou isso, e esse chip teria salvo a Inglaterra, por exemplo.
    Talvez é a hora de Platini rever os seus conceitos.

MaisRecentes

Gato



Continue Lendo

A vida anda rápido



Continue Lendo

Renovado



Continue Lendo