COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

A OPINIÃO E A PREGUIÇA

Uma frase creditada a um político americano deveria estar em destaque nas redações de todas as empresas jornalísticas existentes, especialmente agora que o “eu acho” é a grande estrela da profissão. A tradução é mais ou menos assim: “todo mundo tem direito a uma opinião própria, mas não a fatos próprios”. A triste polêmica criada em torno da declaração de Roberto Carlos sobre o Mundial de Clubes de 2000 é mais um exemplo do jogo em que a conjectura goleia a informação.

Descobrir o que aconteceu é uma atividade trabalhosa, às vezes cansativa e a cada dia menos valorizada. O “eu acho” é mais legal. E se não for precedido por esforço, mínimo que seja, é mais legal ainda. É a preguiça profissionalizada, estimulada, premiada. É o barulho vazio, a repercussão insignificante.

O que foi mesmo que Roberto Carlos disse (em entrevista à ESPN Brasil)? Foi isso: “O Real Madrid… eu lembro que a gente ficava acordado até 5, 6 horas da manhã, o pessoal não dormiu. Os caras vieram aqui ‘de passeio’. E eu tentando passar para eles que era um campeonato importante. Para o futebol sul-americano, era um campeonato importante”. De algum jeito que a Língua Portuguesa não explica, a declaração se transformou em desmerecimento, menosprezo ao título que o Corinthians ganhou. Tente entender como.

Roberto Carlos também disse que “para o futebol europeu não é importante aquele título”. Uma novidade incrível, não? Onde está o plantão do Jornal Nacional? Será que ninguém se lembra das fotos dos jogadores do Manchester United na praia de Copacabana? Os caras chegaram ao Brasil brancos como ursos polares e foram embora parecendo camarões. Estavam declaradamente em férias.

José Mourinho falou sobre o tema na véspera da final da última Champions League, em Madri. “O ‘Intercontinental’ é pequeno perto de uma final da Liga dos Campeões”, disse o português. A esmagadora maioria de jornalistas europeus na sala nem se importou, pois, lá, sempre foi assim. Já viu alguma bandeira do Japão no estádio onde se joga a final da UCL? Na Europa, o título continental é o ápice de prestígio esportivo que se pode conquistar. O Mundial, seja o da FIFA seja o anterior, tem valor simbólico. E é tratado com níveis variáveis de importância, conforme a situação do clube. O Barcelona, por exemplo, importou-se com a derrota para o Internacional em 2006. Preparou-se melhor e ganhou em 2009, com o argumento de que era o único troféu que o clube não tinha.

Há relatos parecidos na História de todos os torneios. A primeira Copa do Mundo não foi disputada, por todas as seleções, como algo sagrado. Durante décadas, clubes brasileiros descartaram o “santo graal” atual, a Copa Libertadores. Nossos campeonatos estaduais valiam mais. Nada disso desmerece os títulos conquistados.

A questão é que nos mundiais, nós, sul-americanos, sempre botamos a faca entre os dentes. Somos exportadores de pé de obra para os clubes europeus, nos sentimos como colônias no mundo do futebol, queremos ganhar de quem tem mais dinheiro, mais organização, mais moral.

Roberto Carlos mostrou como pensa o outro lado. Nada mais.



  • Christiano

    André, perfeito seu artigo! Nada a acrescentar!

  • Andre Nunes

    Como sempre seus textos são de uma precisão cirúrgica. Não que eu quero comparar (mas já comparando) seu pai foi um dos que massacrou o R.C. mandando calar a boca, e o texto dele ontem na Folha (sobre o Pele) foi de uma falta de sensibilidade tremenda. Você com a qualidade dos seus textos e com a sua linha de pensamento esta escrevendo melhor que seu Pai. 
    Grande Abraço.

    AK: Obrigado pelo elogio. Mas tenho de discordar em relação ao texto sobre o Pelé. Um jornalista tem a obrigação de ser neutro e crítico ao analisar quem quer que seja. Poucos (neste caso, nenhum outro) conseguem. Um abraço.

  • Fabio

    André,
    Senão me engano, logo que foi perguntado sobre o Mundial de 2000, RC retrucou: “MUNDIALITO!”. Acho que essa é a declaração polêmica. Ele realmente pareceu considerar uma importância menor ao campeonato. Não acha?
    Abraço

    AK: Não. De novo: ele apenas relatou o pensamento europeu. “Mundialito” é o termo que sempre foi usado pela imprensa espanhola para se referir aos mundiais. Um abraço.

  • bruno

    André isso todos sabem, que os europeus não dão tanta bola para o mundial como nós, o que gerou toda essa polêmica é que sempre gera é que tem muitas pessoas, eu por exemplo que desconsidero esse título um Mundial. Para começar os critérios que colocaram o corinthians na disputa, puramente políticos! Os últimos 2 vencedores da UCL, real 98 e manchester 99 – Atual campeão.  E a Libertadores!? o atual campeão na época não jogou que foi o palmeiras!? Como isso acontece? que mundial é esse em que o campeão continental não joga! e que convidam “o campeão” brasileiro que nunca ganhou um torneio continental.
    Por isso não considero o corinthians campeão mundial, nem mesmo a fifa considerava há alguns anos atrás e depois mudou de opinião. Mundial por definição é o embate entre os campeões continentais (Comebol vs UEFA) podem até falar dos outros continentes mas esses outros times além de serem de nível quase amador esses sim também não dão a menor bola para esse torneio.

    AK: Confusão de opinião com fato, exatamente o tema da coluna. O regulamento do torneio previa a participação do campeão do país sede (foi assim, também, no Mundial da Fifa de 2009 – Al Ahly, e será assim no de 2010 – Al Wahda). Um abraço.   

  • Fabio

    André,
    Discordo em partes. Se o problema era de tradução, não havia motivo para interpelar o intrevistador dizendo mundialito no meio da pergunta. Tive a impressão clara de que a intenção era de classificar a importância do campeonato. Todavia, cabe destacar que RC tem todo o direito de pensar dessa forma e não cabe a nós ficar criticando. Não disem que “a unanimidade é burra”?
    Abraço,

    AK: O problema não era de tradução, mas de informação. Um abraço.

  • edison

    Andre, excelente comentário, sempre sigo o seu blog. só acho curioso que o seu Juca foi um dos que desceram a lenha no RC. para quem quer se informar sobre o ocorrido, basta acessar o blog do PVC que foi um dos jornalistas que entrevistaram o RC.

  • Willian Ifanger

    Bela coluna, André.

    Muita má vontade dos fazedores de caso não interpretando que ele deu a opinião do quando jogava pelo Real. Mas os fazedores de caso precisam garantir seus empregos e então torcem todos os dias por esse tipo de declaração. E como sabemos que pouca gente se importa em verificar a fonte…

    Acho que sou dos poucos que não ligam pro tal de Mundial. Ainda quando era um jogo só, tinha seu charme…..mas esse torneinho é uma bela armadilha que um dia um dos favoritos vai cair nela (ou os dois).

    É lógico que Libertadores e UCL são muito mais importantes que o tal do Mundial. Imagine a graça que teria o Inter (ou qualquer outro time) se tivesse perdido a final pro time mexicano e ganhado a vaga no Mundial. Garanto que a torcida não estaria nada feliz não.

  • Marcel Souza

    André, eu gostaria de colocar 2 pontos sobre a sua bela coluna.

    1) O que tem de gente que se diz jornalista e gosta de soltar frases sem contexto nos seus blogs, twitters e afins não é brincadeira. O pior é quando meios grandes e supostamente sérios como Uol, Globo.com, Terra e etc entram na onda e estampam nas suas manchetes “Roberto Carlos diz que título ganho pelo Corinthians foi um Mundialito”. Na minha opinião quem faz isso sabe que vai causar polêmica e faz isso de propósito.

    2) É uma pena que aqui não se dá tanto valor à Libertadores como na Europa dão à UCL. Atualmente no Brasil parece que tudo leva ao Mundial. O time quer ser campeão da Copa do Brasil para chegar na Libertadores do outro ano pra ganhar o Mundial. A Copa Sulamericana só passou a ser considerada quando começou a dar vaga pra Libertadores pra depois o time ter chance de ir pro Mundial e assim por diante. Parece que ninguém quer ganhar pelo valor do título em si.

    1 abraço!

  • Bem, acho que é aquela história meio colonial. Para a colônia futebolística bater na metrópole é sempre mais gratificante do que o contrário. Acho que quando houver mais glaumor no mundial, os europeus passarão a disputá-lo com mais vontade e, consequentemente, passarão a vencer mais vezes o campeonato.

    Abraços!

  • Leandro

    Este torneio que o Corinthians ganhou não vale nada. Foi só uma piada de mal gosto da FIFA. Se é fato ou não, é a minha opinião.

  • Leonardo Pires

    André, mas como pode um ‘campeonato mundial’ de clubes não receber entre os times participantes o campeão da Libertadores? Isso só já não é motivo bastante para municiar, justificadamente, aqueles que relativizam a importância daquele título?

    AK: O campeão da Libertadores jogou o torneio. Vamos, uma vez mais, aos fatos. Os participantes do Mundial de 2000 foram os seguintes:

    Vasco – campeão da Libertadores 98
    Man Utd – campeão da UCL 99
    Al Nassr – campeão da Super Copa da Ásia 98
    Necaxa – campeão da Copa dos Campeões da Concacaf 99
    South Melbourne – campeão da Copa dos Campeões da Oceania 99
    Raja Casablanca – campeão da Copa dos Campeões da África 99
    Real Madrid – campeão da Copa Intercontinental 98
    Corinthians – campeão brasileiro de 98

    A pergunta óbvia que se faz é a seguinte: por que o Palmeiras, campeão da Libertadores de 99, não jogou? Quem tem a resposta é o presidente do Palmeiras à época, Mustafá Contursi, que aceitou um acordo com os organizadores para que o clube jogasse o Mundial do ano seguinte (que teve até o sorteio de grupos mas não foi realizado). Os organizadores queriam um cabeça de chave brasileiro em SP e outro no RJ, por isso o Vasco. Um abraço.

  • Marcos Torres

    Excelente coluna, André! Uma pena que este fato foi mais um exemplo de jornalismo preguiçoso ou mesmo inescrupuloso de alguns veículos, que pegaram uma frase fora de contexto e extrapolaram-na à última potência. Não só o RC não menosprezou o mundial como (pelo menos é o que ele afirma) procurava fazer seus companheiros valorizarem-no mais. Abraços!

  • Paula

    Sensacionalismo eh o mote das manchetes dos portais. qdo vc vai ler a materia toda não eh nada daquilo. È bem semelhante ao q o presidente do sao paulo disse. Ele falou que o são paulo era o merecedor do trofeu por ser referente a campeonatos organizados pela CBF mas que para o sao paulo o flamengo ganhou o campeonato de 87 (ou 89 nao lembro :)).

  • BASILIO77

    Onde eu assino?
    Nenhuma novidade.
    Lembro da “marra” do Barça contra o SPFC em 92. Os caras sempre “se acharam”…a ultima bolacha do pacote. Tanto que torci pro tricolor naquela final. No ano seguinte não…aí chega, né?
    Quanto a pergunta anterior…se não me engano…a SEP foi indenizada, acho que U$700mil, pelo fato da não realização do torneio no ano seguinte, devido à falencia da empresa organizadora do evento.
    Enfim, mais uma da TCiPC. Teoria da conspiração intercontinental Pró Corinthians.
    Abraço.

  • Luiz Felipe

    Que eles não valorizam como nós o “mundialito”, não é novidade.

    O que eu considero, no mínimo, engraçado é que o pessoal (torcedores, mídia, dirigentes, jogadores, comissão técnica) trata os demais clubes – os campeões da ásia, do oriente média, da américa do norte, campeão do país – exatamente com a mesma empáfia que os europeus; a única diferença é que estes nos colocam junto àqueles!!!

    Só que daí o tupiniquim não acha graça. É muita hipocrisia!!!

    Felizmentemente, meu time vai jogar o segundo mundial este ano. E eu só escuto uma coisa por aqui: Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão, Inter de milão…

    E foi um baita sufoco para SFPC, em 2005, e para nós, em 2006, passar pela semi-final.

  • Marcos Vinícius

    Ressaltando:

    A FIFA divulgou os clubes que iriam participar do Mundial-2000 dias antes da decisão da Libertadores-99,quando,obviamente,o Palmeiras ainda não tinha sido campeão.Foi jogada política?Claro,sem duvida.Mas há esse “álibi”,digamos assim.

    Essa declaração só teve essa dimensão por partir do Roberto Carlos,um dos últimos jogadores que não dá entrevista ensaiada,fala o que pensa,e as vezes até fala demais.Mas é a mais pura verdade,os europeus não estão muito interessados no Mundial de Clubes,para eles o que vale mesmo é a UCL.E quem é que não sabe disso?

  • Marcos Vinícius

    Deve ser a volta da IUPST.

  • Érico Oyama

    Gostaria de acrescentar a tudo isso uma observação simples, mas que pode explicar muitas coisas. O modo como uma declaração é absorvida tem influência direta no tipo de sentimento que pode gerar. Quem só leu a declaração de Roberto Carlos pode achar que ele, de fato, menosprezou o título do Corinthians, até porque uma frase avulsa dá a impressão que R6 disse isso do nada. Porém, que assistiu a toda a entrevista, percebeu que havia todo um contexto para se chegar a tal assunto e, além do mais, é nítido que a entonação do lateral não possui menosprezo nem desdem em momento algum.

  • Alexandre

    Realmente, sobram opiniões e faltam exposições dos fatos. E não dá para brigar com eles:
    – O Corinthians é o legítimo campeão do primeiro campeonato mundial de clubes da FIFA;
    – O regulamento deste primeiro interclubes promovido pela FIFA contêm alguns equívocos que explicam em parte o “desprestígio” do certame:
    1) O ManU ganhou a Champions League em maio de 1999, o Palmeiras ganhou a Libertadores em junho do mesmo ano, o Necaxa ganhou a Copa dos Campeões da CONCACAF em outubro e o Raja ganhou a Copa dos Campeões da África em dezembro. Não foi o calendário que tirou o Palmeiras deste mundial disputado em janeiro de 2000;
    2) Também não é esportiva razão da participação do campeão nacional do país anfitrião neste certame. É uma concessão ao mercado, sem maiores consequências quando o mundial é disputado na Ásia, mas desastrosa quando foi na América do Sul (e também seria se fosse na Europa);
    3) A FIFA, em 2000, tentou bater de frente com a Copa Intercontinental, que tinha então 4 décadas de história, e perdeu. O mundial da FIFA só voltou a ser disputado em 2005, como uma versão ampliada da Intercontinental e respeitando sua rica história, o que não o ocorrera em 2000.

  • Leonardo Pires

    André, utilizei o artigo definido ‘o’ exatamente por saber que você recepcionaria a menção ao campeão da Libertadores de 99. De todo modo, não deixo de reconhecer a inteligência do sofisma de que você lançou mão na sua argumentação… Afinal, e ao menos a mim me parece óbvio, é de se esperar que no Mundial de 2000 os participantes fossem os campeões do ano anterior. Especialmente porque, em tese, são os mais bem preparados naquele momento. Nesse sentido – e continuo a enxergar motivos que justificam a relativização do título daquele Mundial – vejamos os grandes campeões, representantes maiores do futebol internacional de clubes, que participaram daquele torneio: Al Nassr, Necaxa, South Melbourne, Raja Casablanca, Man Utd, Real Madrid, Corinthians. Não por outro motivo, André, a Copa Intercontinental, mesmo contando somente com o campeão da Libertadores e o campeão da UCL sempre foi considerado efetivamente o Mundial de Clubes. Não analisarei o mérito dos motivos que levaram o campeão da Libertadores 99 não ter participado do Mundial, pois o relevante é a sua não participação. Fato que, combinado a diversas outras questões, a meu ver – e, como sempre, respeitando opiniões divergentes – torna de importância menor aquele título.

  • Peter

    O texto continua atual agora em 2012, mas devemos lembrar que mesmo entre europeus há diferenças: italianos e espanhois costumam dar mais atenção que ingleses e alemães, por exemplo.

    E as vezes temos algumas surpresas: a revista inglesa World Soccer, que, contrariando a regra que os ingleses a desprezam, chamava a Intercontinental de World Club Cup e chegou a dar capas para as conquistas de brasileiros como o Gremio-1983 (procurem na internet, tem o De Leon com a taça) e do Sao Paulo 1992/93 (tenho as ediçoes, obvio que sou sao-paulino. Na de 1992 tem o Muller com a Toyota Cup, e, na de 1993 tem o Palhinha com a Intercontinental nas maos, com o obscuro lateral Jura ao fundo).

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