COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O FATOR TORCIDA

A calçada na frente da empresa de cosméticos foi tomada pelos manifestantes. Eram centenas deles, num protesto que começou pela manhã e prometia se intensificar na hora do almoço, quando estava previsto o retorno do principal executivo da companhia. A polícia foi chamada e chegou com cinco viaturas, para evitar uma invasão. Dezenas de carros de imprensa, entre eles três caminhões de TV via satélite, praticamente bloqueavam a rua.

Os manifestantes carregavam faixas e cartazes. “Até quando, presidente?”, perguntava um deles. “Joaquim é o fim!”, dizia outro. “Fora Joaquim!”, gritavam os megafones. Um homem que vestia uma camiseta com o logotipo da empresa estampado no peito parou para falar com os repórteres. Logo foi cercado por câmeras, microfones, gravadores. “Nós não vamos mais aceitar tanta incompetência e tanta vergonha”, ele afirmou. “Nosso xampu está sendo humilhado pelos adversários, e o presidente não toma nenhuma atitude. O Joaquim tem que cair, não dá mais. Desse jeito vamos desaparecer das prateleiras…”, completou. Ele se apresentou como fundador do fã-clube da empresa.

A situação era mesmo preocupante. O xampu “Caspol” estava em queda livre nas vendas. Depois de liderar o mercado por dois anos, sumiu da lista dos dez produtos mais procurados do gênero, para a decepção de milhões de consumidores fiéis à marca desde seu lançamento, em 1916. Para eles, os problemas têm um responsável: Joaquim, o diretor da divisão de produtos para cabelos da companhia. O protesto era uma tentativa de forçar o presidente a demiti-lo.

Já viu essa cena? Claro que não. E nem vai ver. Elas não têm lugar no chamado mundo corporativo. São quase exclusivas dos esportes, em várias partes do mundo, e representam a principal diferença entre a “indústria esportiva” e todas as outras. O mercado do esporte tem algo que os outros não têm: o torcedor. Ele também é um consumidor, mas um consumidor totalmente diferente.

Você pode ser fiel a um produto por décadas, mas não verá problemas em trocá-lo se aparecer outro melhor. Mas jamais abandonará seu time de futebol, por pior que seja o “produto” que ele apresente em campo. E enquanto empresas compram as outras, fundem-se e se beneficiam com o desaparecimento de concorrentes, clubes de futebol dependem da existência de seus adversários. Por causa do torcedor, clubes são perenes. Sobrevivem ao tempo, às crises, às más administrações.

A necessidade da transformação dos clubes em empresas não deve ser vista como uma comparação entre esses dois mundos. Mesmo porque clubes de futebol devem existir para ganhar títulos sendo economicamente viáveis. Empresas servem para dar lucros. Por razões parecidas, profissões não devem ser comparadas.

Toda vez que um técnico deixa um clube no meio de seu contrato, por opção própria, o argumento “corporativo” é usado para defendê-lo. Afinal, todos nós temos o direito de escolher o que é melhor. Respeitosamente, discordo. Nossas decisões têm impacto interno e em nossas carreiras, apenas. De certa forma, ninguém mais se importa. O que se faz no futebol tem ramificações.

Evidente que a responsabilidade não é só dos técnicos, que não agiriam (há exceções) assim se os clubes respeitassem contratos. Mas esse é um assunto para outra coluna.



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