CAMISA 12



(publicada ontem , no Lance!)

FI-LO PORQUE QUI-LO

Primeiro, o que não se discute: o regulamento do Mundial de Vôlei é vergonhoso, feito para ajudar a Itália a ganhar o campeonato em casa. Talvez seja mesmo algo premeditado para prejudicar o Brasil, que transformou os torneios em eventos mais previsíveis do que as eleições para o governo de São Paulo.

Mas se havia um time que tinha a faca e a bola na mão para se posicionar acima da palhaçada era exatamente a seleção brasileira. Na História dos esportes em nosso país, nenhuma equipe venceu tanto. E por mais criteriosa que seja a pesquisa, não se encontrará um treinador mais intimamente associado ao sucesso do que Bernardinho.

O Brasil não é um país emergente no vôlei. É potência, elite. Diferentemente do futebol, em que a estrutura não acompanha o talento, o vôlei é organizado. Diferentemente do basquete, que está morrendo, o vôlei se renova. Diferentemente de países menos habituados às conquistas, o vôlei brasileiro é notícia quando perde. Mais ainda, quando perde de propósito.

O que se perdeu na derrota sem querer, querendo, para a Bulgária, sábado passado, não foi um jogo que não valia nada. Mas uma chance que valia muito. Uma chance de fazer um protesto significativo contra um formato de disputa absurdo. Ganhar, criticar e dizer: “não fazemos parte disso”.

Apontar o ridículo do regulamento e se servir da manobra que ele proporciona é o equivalente a reclamar da corrupção policial num minuto e, no seguinte, molhar a mão do guarda para não ser multado. Falsa indignação.

A comparação com a Fórmula 1 e seu jogo de equipe não se aplica. O objetivo não é perder a corrida para disputar a próxima contra carros mais lentos. É ganhar a prova, ou fazer mais pontos, com o piloto que tem mais chances de ser campeão.

A mão na bola de Henry, ou a de Maradona, ou até mesmo a de Luís Fabiano, também não. Lances em que a decisão foi tomada em fragmentos de um segundo, fruto muito mais de um reflexo do que de um pensamento.

E o argumento de que a seleção brasileira não faz nada de errado, porque não desrespeitou nenhuma regra, é simplesmente infantil. Se não fosse errado, Bernardinho não se sentiria “horrível” e Giba não falaria em “mancha negra na carreira”. Quem usa o banheiro exclusivo para deficientes físicos também não quebra regra alguma.

Errado está quem procura valores no mundo esportivo, em que o conceito de vitória leva em conta apenas a última imagem. Não fosse assim não haveria doping, resultados fabricados, árbitros de aluguel, sacolas voadoras de todas as cores. E não haveria tanta gente que acha que tem de ser assim mesmo.

Se nossa seleção masculina parecia diferente, hoje sabemos que não é. Mas que chance ela perdeu. Porque quis.



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