COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

“… MORREU NO MEU CORAÇÃO…”

No futebol brasileiro, quando um ídolo decide viver a aventura de voltar ao clube em que foi imortalizado, só há dois caminhos a seguir: como técnico ou dirigente. Seja qual for a escolha, o final será muito parecido. Virá como um segundo capítulo em sua biografia clubística, um capítulo que não será tão bonito quanto o primeiro.

O técnico, mais cedo do que tarde, será derrotado pelos resultados e pela (falta de) cultura que se recusa a entender o que significa “longo prazo”. Não terá o respeito de quem está abaixo dele, não só na hierarquia como na História. Não terá o respaldo de quem está acima, só na hierarquia. Ganhará o apelido que remete ao quadrúpede de orelhas grandes e terá sua cabeça pedida pelos filhos e netos de quem, um dia, chorou de alegria por causa dele. Talvez até pelos mesmos que o consideram um símbolo. Estes escreverão o tal segundo capítulo da biografia, que começará com variações da seguinte frase: “Apesar do enorme sucesso como jogador…”.

O dirigente talvez dure um pouco mais. O que se passa no campo demora a chegar ao escritório e o jogo é jogado em outros setores do clube. Mas também será vencido pela estrutura que não conseguiu modificar. Sua passagem começará com esperança da torcida que o idolatra, desconfiança dos que terão suas galinhas douradas incomodadas, cinismo dos que não têm coragem para enfrentá-lo. E terminará com acusações, desilusão, omissão de alguns, indignação de muitos e risadas inconfessáveis. O prejuízo da perda da oportunidade, e o que ela significa, não será contabilizado. Afinal, o lucro financeiro e político de quem se serve do clube é sagrado.

É essa a grande diferença entre os dois caminhos. O técnico depende “apenas” do que aparece no placar. Pode tocar em vespeiros, ter um desgaste ou outro, mas enquanto estiver ganhando, será intocável. Seus problemas estão ligados ao vestiário, à administração de personalidades e egos, à rotina do time e às dificuldades de cada rodada. Seu inimigo é a avaliação precipitada e/ou incorreta do trabalho que faz.

O dirigente tem desafios mais espinhosos. Os clubes do futebol brasileiro vivem em dificuldades financeiras mas são capazes de sustentar muita gente. Não me refiro a jogadores e funcionários, claro. Para quem tem ideias modernizadoras e, sobretudo, higienizadoras, a missão é quase impossível. Os interesses são profundos. Os inimigos, poderosos. Evidente que estão todos se lixando para o nome, as conquistas, o passado, a memória. Torcedores do clube, ou não, sabotam o símbolo sem constrangimentos.

A maneira como nossos clubes funcionam, em suas salas e corredores, há décadas e décadas, os transformou em instituições essencialmente políticas. Situação, oposição, caciques, tropas de choque, articuladores, assessores, traidores. É exatamente igual. Como é o caso na política, mudanças só virão com transformações na sociedade. Não é o ídolo que reconstruirá o clube. É o clube que, um dia, quem sabe, estará preparado para receber o ídolo.

Muitas relações de amor, como a que existia entre Zico e o Flamengo, acabarão antes desse dia chegar.



  • Willian Ifanger

    Ótima coluna de uma triste realidade.

    Mas você não acha que o Zico (com toda a falta de apoio que teve) também não entendeu o “longo prazo” que envolvia o trabalho dele?

    Veja bem, quando você se envolve com o Poder e quer mudá-lo, você precisa se infiltrar na estrutura vigente, entendê-la, saber dos pontos fracos, saber dos insatisfeitos e tentar tê-los como aliados; até ganhar a confiança de quem está no Poder para poder ter certos acessos….e isso leva um certo tempo também……é quase uma estratégia de guerra. Faltou um toque de Maquiável no trabalho do Zico.

  • Concordo com você, André. Mas também me assusta que um cara como Zico seja tão ingênuo de assumir um cargo de dirigente no Flamengo, com todo o histórico político do clube, e ache que vai ser tudo fácil porque ele foi um ídolo.

    Acho que fica o aviso para quem quiser entrar nessa história, que é necessário muito mais força, persistência e noção de realidade.

    Abraços!

  • Carlos Futino

    É por isso que eu fico com medo toda vez que alguém fala que quando o Rogério Ceni se aposentar, ele vira dirigente no SPFC. Se acontecer, tenho certeza que muita gente vai trabalhar e a relação do capitão com o Tricolor corre o risco de seguir o mesmo caminho da do Zico om o Flamengo.

  • Nilton

    Pelo menos Zico não fez como o Roberto Dinamite.

    Willian Ifanger, com relação ao seu comentário ao se inflitrar no poder qualquer um acaba por se corrompido, principalmente na politica e nos clubes de futebol.

    Eu acredito que se o Flamengo tivesse um eleitorado de mais de 100 mil votos, como o Inter o Zico seria eleito facilmente como presidente mas na atual estrutura é impossivel haver mudança no poder. É uma verdadeira ditadura, pois os flamenguista nunca serão representados dentro do clube, o que é uma verdadeira pena.

  • Alexandre Reis

    Aos amigos que comentaram acima faço um esclarecimento:

    Os Maiores erros do Zico no atual gestão no Flamengo:

    Querer construir um CT. Aonde as divisões de base seriam acompnahadas.

    Querer limpar as divisões de base e acabar com a farra de alguns CONSELHEIROS.

    Fechar as portar pra empresários sujos e desonestos.

    Tentar limpar o Futebol do Flamengo.

    Com Zico sempre !!!!!! Essa é a frase do verdadeiro Rubro Negro.

    Um dia tiraremos aquela corja de safados e ladrões que estão na Gavea.

    André, desculpa algum destempero ou exagero.

    Abs

  • Rita

    Lamentável o que aconteceu com o Zico.
    São lamentáveis as administrações dos clubes de futebol no Brasil.

  • Aureliano

    André,
    O Flamengo de verdade é esse da arquibancada e esse Flamengo ama o ZICO. Esse amor passa de pai pra filho, de geração pra geração. Por isso eu acho que a palavra “existia” não ficou bem no texto…
    Um abraço!

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