COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

NÃO VIDE BULA

Daqui a alguns milhões de anos, numa galáxia distante, o livro de regras do futebol será atualizado por uma inteligência superior. É como o fim do mundo: sabemos que acontecerá, só não sabemos quando. E no dia em que essa tão esperada revisão for feita, o processo será simples. Primeiro se eliminará o que não faz sentido, e depois, se consertará o que está errado. Cruzemos os dedos.

No departamento do que não faz sentido, a reforma começará pela insistência do livro (uma espécie de Arca Perdida dos esportes) em formatar a sensação de marcar um gol. Emoções, não importa o tamanho, precisam ser reduzidas e enquadradas em algumas poucas linhas.

Está no texto, na seção “Interpretações das Regras do Jogo e Orientações para Árbitros”, com comentários sobre a aplicação da regra 12 – Faltas e Conduta Antiesportiva – no que diz respeito às comemorações de gols: “Enquanto é admissível que um jogador demonstre sua alegria quando marca um gol, a comemoração não pode ser excessiva. Celebrações razoáveis são permitidas, mas a prática de coreografias não deve ser estimulada quando resulta em perda excessiva de tempo e os árbitros são instruídos a intervir nesses casos.”

O que é ou não é razoável depende da opinião de cada um, assim como a avaliação sobre as dancinhas que nos acostumamos a ver. Mas acho que estamos de acordo em relação à necessidade de controlar o tempo. É jogo de futebol, não “Dançando com as (?) Estrelas”.

Estamos chegando ao problema. “Um jogador deve ser advertido se: 1 – na opinião do árbitro, faz gestos que são provocativos, ridículos ou inflamatórios (ok, ninguém quer ver um tumulto gerado porque um jogador mostrou o dedo, ou mais, para a torcida adversária); 2 – ele escala uma grade de perímetro para comemorar um gol (hmmmmmm… ok vai, sabemos que alambrados podem machucar as pessoas. Cair de alambrados pode machucar mais. Estimular uma escalada coletiva não é uma boa idéia); 3 – ele tira a camisa ou cobre sua cabeça com a camisa (aí está a barbaridade).

Na quarta-feira passada, Grêmio Prudente e Flamengo jogaram no interior de São Paulo. O meia Adriano Pimenta abriu o placar para o time da casa, aos 45 minutos do primeiro tempo. Correu para comemorar um gol que poderia evitar que o Grêmio Prudente fosse o lanterna do BR-10. Adriano não provocou a torcida, não escalou o alambrado, mas cobriu sua cara com a camisa. O árbitro Ricardo Marques Ribeiro sacou o amarelo. Era o segundo, e o rapaz foi para o chuveiro.

O propósito da orientação é impedir manifestações ofensivas ou religiosas por baixo do uniforme. Mas em vez de punir apenas quem merece, engessa quem apenas quer extravasar a emoção de um gol. E não contempla o jogador que faz a manifestação apenas erguendo a camisa, sem cobrir o rosto. Esse é punido depois, conforme o que estava escrito.

Temos visto jogadores se recusarem a comemorar gols por aí. Porque estão bravos com o técnico ou com a torcida, por “respeito” a uma camisa que já vestiram, para homenagear alguém que faleceu. Poderiam incluir um protesto contra a “bula das comemorações”.



  • Marcos Vinícius

    Muito oportuna sua colocação.Achei uma grande bobagem do árbitro o segundo amarelo do rapaz.Há uma orientação de punir quem tira a camisa,mas não há orientação de punir quem levanta.

    Mas me responda uma coisa:Essa orientação,pelo que me consta,visa privilegiar o(s) patrocinador(es) do time.Quando o rapaz levanta a camisa,ele também não esconde a marca do patrocinador?

    Em 2005,a campanha do Flamengo nos últimos nove jogos foi quase uma brincadeira.O time era quase medíocre,e precisava vencer oito dos últimos nove jogos.Venceu sete,empatou um e outros resultados colaboraram.
    Será que veremos um revival neste ano?

    AK: A orientação não tem nada a ver com patrocinadores. Ela também vale para jogos entre seleções, em que não há patrocinadores de camisa. Um abraço.

  • Willian Ifanger

    Ótima abordagem André.

    Na quarta-feira, quando estava assistindo aos jogos e apareceu esse lance, e a conseqüente expulsão, eu fiquei extremamente irritado. Como um árbitro pode dar cartão por aquela comemoração?

    A regra é ridícula, se não existir bom senso dos mediadores. Lógico, existem limites e um árbitro com inteligência saberia distinguir os abusos. Mas inteligência e bom senso é cada dia mais raro no futebol.

  • Anna

    Muito interessante esse tema! Bem retratado! Também acho que não teve nada demais para que ele recebesse o cartão amarelo. Grande abraço, Anna

  • Marcel Souza

    É Willian, duro é querer cobrar inteligências dos nossos árbitros…

    É por causas assim que o futebol as vezes parece que está perdendo a graça com o tempo. É tanta frescura, tudo tem que ser controlado, não acontece mais nada que surpreenda. É uma pena.

    1 abraço!

  • Paulo sp

    Seu time está na lanterna correndo sério risco, quando o atacante marca um gol ele comemora tirando a camisa, o que é proíbido e punido com cartão amarelo(todos sabem)…
    A maioria dos jogadores conhecem a regra, porém, a ignoram, acho que para aparecer.
    Se o cara fosse punido(multa de 20% do salário) por levar cartão bobo duvido que isso aconteceria, os únicos prejudicados são o clube e os torcedores…
    Acho uma besteira levar cartão por isso, no entanto, em outros esportes não vemos ninguém fazer isso.(comemorações patéticas)
    Jogo bola na várzea como muitos aqui, nunca vi ninguem tirar a camisa para comemorar um gol, quanto mais um gol que não vale nada, disputado no meio do campeonato com o estádio vazio.
    Se ao menos fosse uma final …

    AK: Comemorar um gol tirando a camisa sempre foi muito comum no futebol. No caso em questão, o jogador não tirou a camisa, mas cobriu o rosto, o que dá no mesmo segundo a regra. Veja que eu não critico o cartão que ele tomou. Critico a regra. Um abraço.

  • Concordo totalmente com a inadequação da regra! Poxa, o gol é maior momento do futebol! Deve ser comemorado sim! Aliás, qual sua opinião sobre as mensagens políticas e religiosas? Eu acho legítimo que fosse liberado!

    Abraços e parabéns pelo texto!

  • Willian Ifanger

    Eu não sei se vi direito, mas quando o Lucas fez o primeiro gol do São paulo contra o Palmeiras ele puxou a camisa pra cima e desistiu rapidinho…….hehehehe.

    Situação: Fla x Flu…….jogão….3×3……imagine se alguém ali faz o 4×3 aos 47 do seg tempo……dá pra alguém punir esse tipo de emoção?

  • Caio

    André, um dos pontos que você toca no seu texto é sobre a necessidade de controlar o tempo e que, por isso, o jogador não pode demorar na comemoração. Aproveito o gancho para indagar-lhe – você que é um denfensor do uso da arbitragem eletrônica como mei ode auxílio – não está na hora de se fazer um estudo sério sobre o tempo de uma partida de futebol ser parado ao invés de corrido, como no basquete, futebol americano, etc? Veja bem, não estou dizendo que deve mudar, mas acho que é uma opção a ser estudada. Fico irritado com jogadores de futebol que fazem cera, mesmo sendo do meu time, é muito chato, um time precisando fazer gol e o goleiro do outro demorando para bater tiro de meta, jogadores caindo, simulando contusão, esperando o carrinho entrar, demora na saída de campo na substituição. Acho impossível que um árbitro consiga controlar isso sozinho e compensar apenas com os acréscimos que são permitidos. Além do mais, tal medida facilitaria a vida da arbitragem em vários aspectos, um deles, talvez o mais simples, a preocupação com a demora na comemoração. Acabo de perceber que minhas indagações caberiam melhor na caixa-postal, mas, como já escrevi aqui, deixo ao seu encargo responder aqui ou na próxima caixa-postal. Abraço, Caio.

  • Fernando

    Esporte profissional é assim, meus caros. E os jogadores ditos profissionais são aqueles que praticam o jogo como meio de vida. Ou seja, por mais que o gol seja importante, o direito de comemorar de forma descontrolada é no máximo da torcida, jamais do profissional, que deveria inclusive receber instrução e treino para essa hora.
    André, as camisas de seleções têm sim patrocínios. Diga-me: qual o papel da Nike na seleção brasileira? ou da Adidas na seleção Alemã?
    Portanto, meus amigos, a interpretação teleológica da regra revela que o patrocinador procurou uma equipe profissional para divulgar sua marca e é esse profissionalismo que se espera do atleta no momento em que todas as atenções lhe estão voltadas.
    Reclamar de uma regra que visa preservar o profissionalismo, pra mim, André, redundaria em perda de receita idônea, tendo como consequência a busca de capitais questionáveis.
    E agora: eu sou louco ou seu post é míope?

    AK: Não creio que o post seja míope. E obviamente não sei se você é louco. Mas sei que fez confusão. A proibição de erguer ou tirar a camisa nada tem a ver com profissionalismo. Muito menos com patrocinadores. Um abraço.

  • Márcio

    Mas vai aprender a mexer no computador quando ???
    Só aparece os títulos dos teus posts há 02 dias tchee
    ABraço

    AK: ?

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