CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

PARADOS NO TEMPO

A previsão do técnico argentino soou triste. Por mais estimulante que fosse, fez a memória voltar 8 anos e lembrar de uma frase parecida. Uma frase vazia.

Sérgio Hernández, treinador da seleção argentina de basquete, foi taxativo na entrevista após seu país derrotar o Brasil no Mundial da Turquia. “Tenho certeza de que o Brasil estará entre os melhores times do mundo nos próximos quatro anos”, declarou. Me senti assistindo à cena de “Matrix”, quando Neo achou que já tinha visto o gato atravessar a sala, e Morpheus e Trinity perceberam que estavam todos presos no prédio.

Quem teve a sorte de cobrir o Mundial de 2002, em Indianápolis (EUA), viu coisas inesquecíveis. Uma quadra de basquete montada dentro de um estádio de futebol americano; uma seleção de profissionais da NBA ser derrotada pela primeira vez na História (e depois, mais duas vezes); a Argentina avisar que tinha chegado para ficar (foi vice, mas ganhou a Olimpíada de Atenas, dois anos mais tarde).

O Brasil venceu os primeiros 4 jogos, perdeu os últimos 5 e ficou em oitavo lugar. O técnico era Hélio Rubens, o time já tinha Tiago Splitter, Anderson Varejão e Leandrinho. Também tinha Marcelinho Machado, Guilherme e Alex Garcia. Ao não conseguir uma vaga olímpica (à época, “só” tínhamos perdido os Jogos de Sydney), a seleção brasileira foi rotulada como uma equipe talentosa, com uma geração promissora que amadureceria nos torneios seguintes. “Muitos comparam nosso time, hoje, ao início da formação do grupo argentino que está aqui”, dizia o então presidente da Confederação Brasileira de Basquete, Gerasime Bozikis, falando um português que, na verdade, era grego.

Não quero comparar a intenção por trás das duas declarações. Hernández foi sincero, gentil. Não duvido que ele acredite no que disse. Já o ex-cartola estava apenas ganhando tempo, tentando desviar as críticas. Se o time de 2002 nos deixou com a sensação de que “não ia dar mesmo”, o de 2010 nos fez pensar que “quase deu”. O que faltou aos dois é a mesma estrutura que, por exemplo, mantém a Argentina invicta contra o Brasil há 8 jogos válidos por mundiais ou torneios pré-olímpicos.

Sim, Luis Scola (destaque do time argentino campeão da Copa América Sub-20, realizada em Ribeirão Preto no ano 2000) teve uma das melhores atuações individuais que já vimos. Sim, Splitter e Varejão se machucaram. Sim, Nenê nem foi. Sim, o Brasil jogou de igual para igual, comandado por um técnico de altíssimo nível e por um armador que é superior a muitos que estão na NBA.

Mas perdemos, porque é o que acontece com quem antecipa etapas em vez de trabalhar a longo prazo. Desse jeito, o futuro não chega nunca.



  • Realmente, dessa vez quase deu. Não somos mais o segundo escalão ou, como disse Juca Kfouri, os figurantes. Hoje estamos no bolo dos times que podem chegar.

    Porém, você tem razão, muito tempo foi perdido. Huertas é o cara!

  • Teobaldo

    Acho que evoluímos muito, mas jogar com apenas um armador, à despeito da competência do M. Huertas (para mim o melhor jogador do Brasil na competição), foi fundamental para nossa derrota bem antes do imaginado. Posso até ser criticado, mas penso que Valtinho fez muita falta. Por diversas vezes, para poupar M. Huertas durante o torneio, nosso treinador improvisou Leandrinho na armação, por absoluta falta de confiança em Nezinho (treme-treme) e Raul (talentoso, mas muito novo). Especificamente contra a Argentina, senti falta de Nenê, o hilário, que poderia ser eficiente na marcação a Scola que, contra o Brasil, como disse o Rob Porto durante a transmissão, foi um monstro. Um abraço.

  • Antonio

    Andre, vou mandar esta pergunta para o email do blog tambem. O que sera de nosso basquete quando Leandrinho, Nene, Varejao e Splitter se aposentarem? Nosso campeonato nacional leva a crer que o futuro sera horrivel. Vc concorda?

  • Kleber M

    Excelente post, como de hábito, André. Fica a pergunta, mesmo: qdo chega esse futuro para o nosso basquete? Estamos cansando de promessas e decepções…

  • JOSÉ

    quem sabe o presidente da CBB não dá um pulo na CB vôlei e aprende como se faz um esporte chegar ao mais alto nível mundial, o nosso volei é campeão de tudo, mas olhem o centro de treinamento da CBV e vocês já tiram a sua conclusão, outro exemplo é o Inter que começou com um trabalho sério em 2002 e hoje colhe os frutos e é um dos clubes mais poderosos do mundo.

MaisRecentes

Presente



Continue Lendo

Em frente 



Continue Lendo

Acordo



Continue Lendo