COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MARIDOS TRAÍDOS

O futebol italiano tirou o sofá da sala.

Na temporada que está para começar, quem estiver na frente de uma televisão sintonizada na Rai não verá repetições de lances polêmicos de jogos de futebol. A medida, acredite, tem o objetivo de “pensar em um jogo com menos reclamação e mais discussão”. A frase está no texto do comunicado divulgado pela emissora de TV estatal da Itália.

A novidade entrará em vigor no próximo dia 29, quando começa o Campeonato Italiano. Dia em que os torcedores do país viajarão algumas décadas, e passarão a ver futebol como se fazia muito tempo atrás. Seria interessante, por exemplo, que as transmissões voltassem a ser feitas em preto e branco. Ou que as potentes câmeras atuais, capazes de uma aproximação quase pornográfica dos lances, fossem abandonadas. Que tal apenas uma imagem central, distante, mostrando todo o campo e transformando os jogadores em formigas?

Imagine a última Copa do Mundo mostrada pelo novo padrão de transmissão da Rai. O chute do inglês Frank Lampard, contra a Alemanha, entrou? Desculpe, não sei, foi tudo tão rápido que nem deu para ver (pouco importa que entrou um pé, de homem, inteiro). Luis Fabiano tocou com a mão na bola no lance de seu golaço contra a Costa do Marfim? Acho que sim, essa foi a impressão que me deu (deixa pra lá que foram dois toques com o braço, não apenas um). Peraí, Carlitos Tévez não estava totalmente impedido no primeiro gol da Argentina contra o México? Não, não estava, tenho quase certeza de que havia um zagueiro lhe dando condições (quase um metro na banheira, mas tudo bem). E poderíamos seguir por essa página inteira, lembrando de coisas que só sabemos porque os replays mostraram, erros de arbitragem que mexeram no placar de jogos de futebol em seu nível mais alto.

Mas os italianos tiveram a grande ideia. Fala-se mais dos erros, especialmente aqueles que corrompem os resultados de jogos e campeonatos, do que de futebol. Os árbitros já entram em campo em desumana desvantagem em relação ao olho eletrônico. Então, em vez de agir para diminuir os erros, vamos simplesmente negar a existência deles. Em vez de esclarecer a dúvida, vamos aumentá-la. E em vez de trabalhar para que os jogadores decidam as partidas conforme o que fazem em campo, vamos estimular as teorias conspiratórias, dar razão aos que pensam que a arbitragem de futebol está, sempre, a serviço de alguém. Pois, afinal, se o público não saberá se a bola entrou ou não, sempre poderá se perguntar por que o árbitro tomou a decisão que tomou.

O que a Rai pretende é o equivalente, na medicina, à proibição dos exames de imagem por causa do aumento dos erros de diagnóstico baseados em exames clínicos. Uma genialidade.

A questão é muito maior do que “um jogo com menos reclamação e mais discussão”. O uso da arbitragem eletrônica é a única maneira de garantir a limpeza do jogo, a legitimidade dos resultados. Gol é gol, mão na bola é mão na bola, ganha quem foi melhor.

Acabar com o replay de lances polêmicos é fingir que o casamento vai bem. O que os olhos não veem…

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A todos os pais, e todos os filhos, um ótimo domingo.



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