CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

A CONEXÃO CAIU

De vez em quando, o mundo virtual nos proporciona uma amostra do mundo real de pessoas públicas. Vivemos num “Grande Irmão” que fica 24 horas por dia no ar, alimentado por câmeras de vigilância, de trânsito, de computadores, de celulares. E temos as epidêmicas redes sociais, cada vez mais sofisticadas, sempre prontas a amplificar o alcance de uma frase, uma foto, um vídeo.

Não deveria ser tão surpreendente, causar tanto espanto, quando se percebe que as pessoas por trás dos “ídolos” não são como parecem. Ou como deveriam ser. A começar pela completa desconstrução (por isso as aspas acima) do que é ser um ídolo. Pela confusão de quem é popular com quem é famoso. Somos todos piores, na intimidade, do que aos olhos de quem não nos conhece ou só tem contato com nossa “pessoa jurídica”. Piores nos defeitos, nas fraquezas, nos medos, nas manias. O que não significa que sejamos, necessariamente, ruins. Nem todos, pelo menos.

Mas é fato que, na grande maioria dos casos, a amostra é desagradável, indigesta até. Como na recente atuação de jogadores do Santos diante de uma webcam, num quarto de hotel. Cada um faz o que quer com seu tempo livre, e a internet é uma maravilha com inúmeras possibilidades de entretenimento. Mas foi constrangedor vê-los em edificantes “debates” com torcedores e imaginar que essa é a ideia de diversão dos garotos. Reclamam que foram provocados por não-santistas do outro lado da câmera (esperavam o quê?), mas não conseguiram ignorá-los. Foram repreendidos por Robinho, o que dá a medida do excesso. E acham que o título da Copa do Brasil apaga tudo.

Mais do que os palavrões, a imagem “carcerária”, a falta de noção, o que perturba é a maneira que Felipe (chamado de “mão de alface”) encontrou para se defender, comparando o que ele gasta com ração de cachorro com o salário de quem o provocou. Não é apenas inversão, mas sim incompreensão de valores. Ser rico não é isso.

Tratar o episódio apenas como um exagero de jovens imaturos é um erro. E (alô defensores escandalosos do “respeito à instituição”!) não estou falando do Santos. Pelo Brasil afora, jogadores de futebol são tratados como animaizinhos promissores nas categorias de base e menininhos mimados na idade adulta. Em volta deles, só se pensa em colher, nunca em plantar. Dirigentes agem como varejistas. Empresários, como pecuaristas. Técnicos, como bedéis. Assessores de imprensa, como maquiadores. Refiro-me à maioria, em todos os níveis. As exceções são conhecidas.

Se a formação pessoal desses atletas é carente por falta de condições, e é, a formação profissional não pode ser. Não falta dinheiro no futebol. A questão é como se usa.



  • Edouard Dardenne

    Bravo! Comprei o jornal de ontem, coisa que nunca faço, para ler a coluna.
    É quase inacreditável que um jogador adulto do Santos cometa o crime de injúria contra um torcedor, evidencie um terrível desvirtuamento de valores ao se julgar melhor do que outra pessoa apenas porque ganha mais dinheiro no fim do mês, e algumas pessoas simplesmente entendam que ele agiu como um menino travesso.
    Estou até disposto a conversar com quem pretende me convencer de que os jogadores não devem ser diferentes de outras pessoas apenas porque são pessoas públicas. Mas não posso tolerar leniência com esse tipo de comportamento/pensamento nefasto, rasteiro, deplorável, apenas porque são ‘ídolos’ de uma torcida.
    É crime sim, senhor, e ninguém me venha dizer que se trata de retorsão porque a ninguém é dado o direito de atacar a honra de outra pessoa apenas porque esta lhe dirigiu críticas – ainda contundentes – ao desempenho profissional.
    No mais, AK, você se mostra um cidadão melhor do que eu porque dedica-se com serenidade a enfrentar o problema apresentando ou cobrando uma solução, enquanto eu teria caminhado apenas para a execração de pessoas que praticaram o linchamento online de um torcedor.
    Um abraço.

  • Leandro Azevedo

    Isso na minha opiniao, se deve muito a banalizacao do termo “idolo” e de como as pessoas olham tais figuras. Muitos acham que idolos tem que ser exemplos e esquecem de educar seus filhos, esperam que essa educacao parta dos idolos e que sejam figuras a serem seguidas a risca.

    Uma pessoa que fala acerdatamente sobre esse topico toda vez que perguntado eh o Charles Barkley, dizendo que ele nao eh pai de ninguem pra servir de exemplo, e se estiverem esperando isso dele, que esperem sentado para nao cansar. Falou sobre o problema do Tiger Woods, e disse que quem ficou desapontado com ele nao enxergou o ser humano por tras do “idolo”, e que ele nao devia desculpas a ninguem mais que os seus familiares, e eu concordo 99% (patrocinadores tb devem algum tipo de de$$culpa ai).

    Quanto ao episodio no Santos, isso soh vem a mostrar como vc mesmo mostrou, a falta de preparo dos jovens jogadores brasileiros, que sao usados pelos clubes mas sem preparo algum para lidar com as situacoes. Aqui nos EUA pelo menos os atletas tem algum tipo de educacao, e muitas vezes anos de faculdade, enquanto no Brasil nem ensino primario muitos tem, o que facilita o convivio com a midia, o assedio e ate na mudanca de profissao para virar comentarista / “jornalista”.

  • João Daniel

    Parabéns!
    A realidade é essa mesma.

  • Anna

    É necessário rever a presença de um psicólogo em todas as categorias, começando na base. Não há preparo a esses jogadores para a mudança brusca na vida deles, nem formação a nível educacional, mesmo. As mídias sociais são ótimas ferramentas, mas precisam ser usadas corretamente. E infelizmente na nossa sociedade, as pessoas querem se expor de qualquer maneira, não pensando nas consequências. Reserva e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Dizer que o texto é perfeito é redundante e vai acabar ficando chato para voce e os blogueiros lerem, mas é a mais pura verdade. Também gostei muito dos textos do Plihal, do Calçade e do Di Lallo sobre esse assunto. A essência de voces é a mesma, apesar da abordagem e do estilo serem diferentes. Nós, os leitores, que ganhamos com isso. Feliz dia dos pais! Abraço, Anna

  • Rejane

    Essa realidade não é exclusividade só de atletas, vários internautas, principalmente adolescentes, não sabem fazer uso dessa ferramenta chamada Internet. Acho que os sem noções não sabem que hoje em dia as repercussões são rápidas demais.

  • Luís Gustavo

    Excelente!

  • Beto

    André, gostei de seu texto. Contudo, também concordei com o texto do Alberto Helena Jr. sobre o caso. Em ambos, a ponderação é o tempero, embora sejam opiniões diferentes.

    Sendo assim, gostaria de saber a sua opinião sobre a visão dele.

    Abraço e bom fds!

  • Kelli Cristina

    Concordo com vc ,o pior na minha opinião é o fato de que esse homens são tratados como meninos mesmo já tendo idade suficiente para entender tudo o que se passa em volta . A família deveria passar por avaliações também porque muitas vezes não colocam “rédeas” por medo de perder financeiramente , como pode um pai questionar um filho que sustenta a casa desde os 10 ,12 anos ?

  • Pedro Valadares

    André, realmente, há que se ter um certo limite. Você viu o caso dos sub 15 contra os sub 20 da Ponte Preta?

    O pior é que os “meninos” que estavam na tweetcam, nem eram tão meninos assim…

    AK: Vi. Tenebroso. Um abraço.

  • André,
    Você resumiu bem o que ocorre no futebol brasileiro. Nós, torcedores e amantes do futebol, temos de conviver com essa realidade triste que se instalou no futebol. Alguns falando bobagens, outros envolvidos em crimes bárbaros.
    Eles que deveriam dar o bom exemplo, afinal, são pessoas que vivem na mídia, estão sempre em foco. E ainda tem um senhor chamado Flávio Prado, que fala mal de torcida organizada. Talvez ele não fale mal de atletas, por ter rabo preso com alguém.

  • Rita

    Perfeito!

  • Marcos Vinícius

    Cara,acho que certas atitudes de alguns jogadores,e não me refiro apenas aos meninos do Santos,são reflexo da valorização do indivíduo pelo que ele faz dentro do campo.Vc deve lembrar que,recentemente,o Zico disse que,em parte,o que aconteceu a alguns jogadores do Flamengo era culpa da torcida.Será que isso é um exagero de alguém tão centrado e equilibrado como o Galinho?Zico disse que a torcida supervalorizou os jogadores,os colocando em um patamar como heróis,e que por isso eles se achavam,e isso é um exagero de minha parte,acima do bem e do mal.

    Futebol envolve muito dinheiro para os clubes e fama para alguns de seus principais jogadores.O problema é como lidar com essa fama,que abre inúmeras portas,oportunidades sociais,e algumas vezes é dificil para um menino de origem pobre,como Mádson,Bruno,Adriano,por exemplo,conviver no meio desse furacão que é o mundo do futebol e ter uma vida equilibrada.Carrões,restaurantes de luxo,férias em lugares de primeiríssima categoria,enfim,um leque de oportunidades a que o homem não estava acostumado,e de repente as portas se abrem.O que acontece,em sequência,é uma perda de noção do que pode e do que não pode,do que é certo e errado.Abre-se para o jogador um mundo novo,onde ele é o centro das atenções.

    Creio que o problema venha dos lares,onde há pouca orientação,e do convívio com os “amigos de ocasião”.Um exemplo claro disso foi o que a avó do Bruno disse ter aconselhado a seu neto,quando o viu pela última vez antes de se desencadear o caso Elisa:”Meu filho,se afaste dessas pessoas”.

    O clube,apesar de tentar impor certo limite às atitudes extracampo de seus jogadores,simplesmente não tem como controlar as mesmas.O máximo que ele pode fazer é ameaçar punir,e olha que,muitas vezes,é só uma ameaça mesmo,pois teme que seu atleta tenha menor rendimento,ou que vá para outras paragens reclamando de não ter sido bem tratado,ou não ter seu valor reconhecido,e a punição é apenas uma satisfação dada à imprensa e a seus torcedores,embora não seja fato.

    A solução,creio eu,seria um acompanhamento maior do clube desde a infância do atleta,cobrando resultados pessoais,estabelecendo limites,fazendo um acompanhamento da vida familiar do jovem,para que mais tarde formem-se mais do que jogadores de futebol,mas homens com perfeita noção de limites.

  • Willian Ifanger

    Excelente texto, André!

  • Cruvinel

    É uma pena essa realidade…
    Mais um excelente texto!
    Parabéns.

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