COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MESTRE DA MARCA

Era uma cena de dar dó. Todo mundo sabia o que ia acontecer, mas prestava atenção só para rir ao final. E para comentar com quem estivesse ao lado: “não falei?”.

Bola na marca do pênalti, goleiro em cima da linha. Saltitando, ele começava o movimento. Foco no goleiro, não na bola. Ao se aproximar, passava a um trote, uma corridinha lenta, despreocupada. A pressa não era apenas inimiga da conclusão, mas também da armadilha em que o goleiro estava prestes a cair. Era um jogo de paciência, sangue gelado. Como nos duelos dos velhos filmes de faroeste, a morte era o preço pago pelo primeiro a piscar.

Os passos em direção à marca não davam ao goleiro qualquer pista sobre o desfecho. Os olhos, que jamais miravam um ou outro canto, não denunciavam um chute premeditado. A distância cada vez menor, o momento do contato cada vez mais próximo… era muito suspense para quem já estava em enorme desvantagem.

Escolher um canto e se mexer era o mesmo que pedir para não sair na foto do gol. Esperar a partida da bola e tentar reagir quase que instantaneamente, um esforço inútil. O dilema era sempre o mesmo, quando Evair era o batedor. E o resultado, quase sempre, também. “Perdi 4 ou 5 pênaltis na minha carreira profissional (de 1984 a 2003)”, Evair conta à coluna por telefone. “Mas já era o cobrador no infantil e no juvenil do Guarani, com o mesmo aproveitamento”, conclui o atacante que tem seu nome, em letras douradas, escrito na história do Guarani, do Palmeiras e do Vasco da Gama.

A forma cirúrgica de cobrar pênaltis, descrita acima, marcou a segunda parte da trajetória de Evair no futebol. Especialmente as passagens pelo Palestra Itália e por São Januário. Antes, suas principais armas eram a concentração e a precisão. A experiência lhe trouxe a galhardia para esperar, esperar, e a “maldade” suprema de olhar para o goleiro no momento do chute. Mas há duas coisas presentes em todos os quase 20 anos de gols marcados da marca penal: a técnica e o treinamento. “É um exercício solitário, feito depois que a maioria dos companheiros já foi embora”, diz Evair. “É o treino que dá a tranquilidade para repetir o movimento e não errar”, completa.

Engana-se quem acha que Evair ia para a bola sem uma decisão tomada. Ele tinha, sim, a capacidade de mudar de idéia (e de canto) no último instante. Mas até por essa possibilidade, executava sempre o mesmo plano. “Para um jogador destro, como eu, o mais fácil é chutar no canto esquerdo do goleiro”, ele explica. “Então a minha ideia era sempre bater ali. Se o goleiro esperasse, e meu chute fosse bem colocado, ele não chegaria. Se ele fosse para o canto esquerdo, eu batia no outro”, revela. As raras cobranças desperdiçadas aconteceram quando os goleiros não se mexeram, mas a batida não foi precisa.

O que Evair acha da “cavadinha”? Você deve imaginar. “Eu respeito e acho bonito quando dá certo. Mas nunca bateria um pênalti assim, ainda mais numa final. É um momento muito importante”.

Entre a irreverência do acerto e a irresponsabilidade do erro, Evair ficava com o gol.



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