SE O TELEFONE TOCAR…



… quando você estiver indo embora para casa, não atenda. É certeza de problema.

É uma “piada de escritório”, que vale também para as redações.

Jornalista que não gosta de trabalhar jamais atende o telefone quando está saindo.

Eu estava na redação da ESPN Brasil em Joanesburgo, ontem, por volta das 10 da noite. Meu trabalho para a televisão já estava concluído havia horas, mas eu ainda estava lá.

Sexta-feira é dia de escrever coluna para o jornal e, naquela hora, eu ainda não tinha terminado meu texto. Estava aproveitando a gentileza do fuso horário, num dia complicado.

Fui até Potchefstroom pela manhã, fazer a entrevista coletiva da Espanha. Viagem de cerca de duas horas. Durante a ida e a volta, abri o computador para avançar numa matéria sobre a desclassificação do Brasil, que será publicada na próxima edição da Revista ESPN.

Cheguei à redação por volta das 4 da tarde. Escrevi a reportagem para a TV e fui almoçar.

Voltei, terminei e revisei a matéria da revista, enviei o arquivo por e-mail.

Missão seguinte: coluna para o jornal.

Mas havia muitas distrações no caminho. Milhas expirando, o demorado atendimento da companhia aérea que nunca tem disponibilidade nos voos que a gente quer (alô financeiro da ESPN: usei o VoIP da redação, não o celular), os preparativos do safari que vamos fazer na semana que vem… enfim, vários problemas que não podiam esperar.

Com muito custo, voltei para o computador.

Aí (e eu juro que foi exatamente nesse momento), na hora de anexar o arquivo no e-mail, alguém na redação gritou: “o Platini está internado!”

Eu era o único repórter na redação. Ninguém precisou falar nada.

Caçamos o endereço da clínica, fechei o computador, peguei minhas coisas e me mandei.

Na clínica, alguns jornalistas já tinham sido avisados de que não haveria nenhum comunicado oficial “nas próximas horas”. Por telefone, soube que um site inglês publicou a “informação” de que Michel Platini estava morto.

Em meia hora, o número de jornalistas aumentou assustadoramente. Todo mundo na calçada, na frente do portão. Um caminhão de transmissão por satélite de uma emissora de televisão da Inglaterra ficou operacional e, em minutos, o repórter já fazia boletins ao vivo.

O telefone toca, da redação. A Uefa dizia, via site, que Platini passou mal porque está gripado e não tinha se alimentado direito. Nada sério.

Mas, ali, nosso problema aumentou. Estávamos esperando por um boletim oficial que provavelmente não chegaria. Até quando?

Uma van branca, carro oficial da Copa do Mundo, sai do estacionamento. Um senhor careca está sentado no banco de trás. “É Blatter!”, alguém grita.

O repórter inglês volta ao ar, ao vivo. Diz que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, acaba de deixar a clínica.

Nosso cinegrafista tem a imagem do carro saindo. Checamos uma vez, duas, três vezes. Não era Blatter.

Entro no ar na ESPN Brasil, por telefone. Olho o relógio, quase meia-noite, o jantar já era.

Aos primeiros minutos do sábado, uma figura conhecida sai da clínica e caminha em nossa direção. Era Alain Leblang, que trabalhou no departamento de comunicação da Fifa.

Imediatamente cercado, ele avisa que vai ler um comunicado, e que ficará nisso. Platini passou mal, está gripado, nenhum problema cardíaco, passará a noite internado.

Gravo um boletim na frente da clínica. Volto para a redação.

O jantar foi um sanduíche, um iogurte e uma água. Às duas da manhã.

É a vida.



  • Anna

    Jornalista não tem hora. É como médico. O mais legal é a sensação do dever cumprido e bem realizado, como foi, no seu caso. 🙂

  • Cleverson

    E a vida (diacho de computador que nao tem acento), mas sao casos assim que fazem a gente, no final do dia, saber que fez um trabalho bem feito. Em teu caso poderia ser a materia unica para os veiculos que trabalha ou o “furo” dado/nao dado corretamente.

  • alex

    Achou que era fáfcil ganhar R$ 50 mil por mês??? hehehehe

    P.S.: o número é um chute, hein????

    AK: Chute alto, por cima do travessão. Como seria bom se fosse certeiro… Um abraço.

  • Pedro Valadares

    E a coluna pro jornal? Conseguiu mandar? E ainda fez um texto pro blog! quando crescer quero ser igual a você, André! Parabéns! Você é excelente!

  • Rejane

    Já vi que os tablóides ingleses gostam de uma notícia falsa! Acho que alguns jornalistas ingleses não gostam de checar as notícias antes de publicá-las! Ainda bem, que a ESPN, no caso você André, foi checar que a notícia sobre a suposta morte ou o suposto infarto do Platini era mentira! Parabéns! E ainda bem que o Platini está sã e salvo! Parece que o Platini irá até ao jogo final da Copa.
    André, com a Copa chegando ao final, espero que você faça um balanço sobre a Copa Sul-africana. Principalmente, os pontos positivos e negativos.

  • Marcelo

    André, você vota para o melhor da copa? Quem vota? toda imprensa?
    Acho que eu votaria no Forlan, mas acredito que alguem das equipes finalistas é que levara o titulo.

    AK: Sim. Todos os jornalistas credenciados podem votar, pelo site da Fifa. Nessa Copa pode-se votar depois da final, o que aumenta a chance dos campeões. Mas certamente o Forlán será bem votado. Um abraço.

  • Alessandro

    Engraçado que também fazemos essa mesma piada com tecnologia.
    Se alguém ligar 1 minuto depois do expediente, não atenda, esse 1 minuto vira 1 noite.

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