CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

TOURADA EM DURBAN

A única chance do toureiro é sair da arena sem que o touro o encontre. O animal pode vê-lo, sentir seu cheiro. Pode saber onde ele está e para onde vai. Mas não pode tocá-lo. O peso é tamanho, a força tão bruta, que um leve raspão dos chifres pontiagudos é o fim.

A única chance do touro é suportar a tortura, as provocações, os ferimentos. Participar do bailado sem permitir que as repetições da coreografia quebrem seu espírito, derrubem sua determinação. E esperar um vacilo.

O toureiro tem a coragem, a técnica, a estratégia, as armas. O touro tem a força, a explosão, a velocidade, o instinto.

O toureiro é paciente, maquiavélico. Sabe que o tempo corre a seu favor, que o controle das ações provocará os erros, que o cansaço deixará o touro à sua mercê, para o golpe final.

O touro é insistente, obstinado. Sua natureza lhe obriga a se comportar e se mover da mesma forma, sempre oferecendo perigo, porque isso é o que está programado em seus genes. Um engano, uma falha, uma demonstração de arrogância do toureiro, e seus chifres o punirão com severidade.

O toureiro sabe como a dança terminará, se tudo correr como ele deseja. Mas tem de ser perfeito. Pagará caríssimo pela indecisão, ou pela má execução.

O touro só sabe atacar, agredir. Sua luta é pela sobrevivência. Ele corre, sua, sangra à espera do momento em que a lei do mais forte prevalecerá.

Na “plaza” de Durban, as cornetas africanas soam de um jeito diferente. Mas o duelo entre o toureiro espanhol e o touro alemão é familiar. A camisa vermelha do toureiro se move por todos os lados, pretende hipnotizar o animal. Xavi, Iniesta, Pedro e Villa são como as lanças que perfuram o bicho, o fazem sofrer, o deixam irritado.

Mas é preciso ter cuidado. Schweinsteiger é o coração que não diminui seu ritmo. Podolski e Klose são os músculos que impulsionam o touro. Ozil é a ponta do chifre.

Na segunda parte do espetáculo de vida ou morte na Copa, o toureiro acelera as ações, conduz a dança de maneira mais objetiva. O touro parece cansado, não responde com a mesma ferocidade. Pedro instiga, fustiga. Iniesta provoca, Alonso bate.

Mas subestimar o touro é imperdoável. Quando o toureiro se imagina no total comando da coreografia, Kroos quase o acerta. Por pouco.

Num movimento da esquerda para a direita, Xavi prepara a lança, Puyol a espeta fundo na carne do touro. Ferimento grave, quase mortal. E, finalmente, o toureiro tem o touro como queria.

Exausto, o touro não reage. Apenas se mexe, pois é o que lhe resta. O toureiro baila, se exibe, até se permite um exagero preciosista.

As cornetas africanas anunciam o fim do espetáculo. O toureiro espanhol agradece os aplausos. No domingo, ele se apresentará na “plaza” de Johannesburgo.



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