COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

DESLIGOU

Pela primeira vez, estávamos num jogo “de Copa”, em que não faltava nada. Contra a Coreia do Norte? Ok, era estreia e tal, mas não havia um adversário à altura. Costa do Marfim? Time forte, sem dúvida. Atmosfera inesquecível no Soccer City. Mas perder não significava o fim. Portugal? Amistoso (não avisaram Pepe). O Chile? Tudo o que o Brasil queria nas oitavas.

Mas a Holanda, não. A Holanda tinha tudo. O time, os jogadores, o talento, a oportunidade. E o jogo contra a Holanda tinha o que os outros não tiveram: uma certa apreensão do torcedor brasileiro, como se fosse relembrado de que um Mundial não é um passeio. Por causa da Holanda, a Copa poderia acabar num minuto, numa falha, num gol.

É conhecida a melhor receita para derrotar a Seleção Brasileira atualmente: fazer um gol primeiro, quem sabe “amarelar” alguns jogadores fundamentais no sistema defensivo, colocar o Brasil numa situação desconfortável desde o começo. Sim, é muita coisa para acontecer a favor de um time só em pouco tempo. Os Estados Unidos chegaram perto, na final da última Copa das Confederações, e mesmo assim perderam. Mas quem pode garantir que não aconteceria?

A resposta demorou 10 minutos. Pouco tempo para o término do período de “estudos”, praticamente obrigatório em jogos equilibrados como esse. Robinho apareceu como um ilusionista entre os zagueiros laranjas, Felipe Melo viu. Brilhante passe, 1 x 0.

O dilema holandês era o que muitos outros times já conhecem: construir o empate sem dar à Seleção Brasileira o campo que faz dela um time implacável. No primeiro tempo, a Holanda até conseguiu negar o espaço. Não sofreu nenhum contra-ataque. Mas nem passou perto do empate. Como era óbvio, Robben só jogou no território de Michel Bastos. Mas recebeu a bola às costas do lateral brasileiro uma única vez, e se atrapalhou todo ao chegar à área.

A vantagem do Brasil só não dobrou por azar de Juan, que completou mal um cruzamento de Daniel Alves. E por mérito do goleiro Stekelenburg, que desviou um chute de Kaká no ângulo esquerdo. Foram os melhores 46 minutos do Brasil na África do Sul, futebol belo e competente.

Mas (lembra?) era jogo de Copa do Mundo, com todas as letras. E uma bola muito bem cruzada por Sneijder mostrou que até as melhores defesas falham. Felipe Melo desviou para trás, 1 x 1. Começo do segundo tempo, um novo jogo no Nelson Mandela Bay. Um jogo estranhamente melhor para a Holanda. Esquisito.

A jogada ensaiada de escanteio, com desvio na primeira trave, é tão conhecida quanto a qualidade da defesa do Brasil. Levar um gol assim prova que as coisas não vão bem. Mas louve-se a execução, tão perfeita que o nanico Sneijder cabeceou livre. E a Seleção Brasileira implodiu.

No epicentro, o destempero que Felipe Melo prometeu evitar. Um pisão em Robben, no primeiro momento de pressão que o Brasil viveu na Copa. Bobagem que deixou o árbitro sem nenhuma razão para mantê-lo em campo.

E assim, de repente, acabou. Não da forma desinteressada de quatro anos atrás. Mas como se algo tivesse desligado, deixado de funcionar. Triste.



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